13/07/2009

A Baronesa que amou Thelonious Monk


Por P.Q.P. Bach
Colecionador e Pesquisador Musical

Pelo grande pianista Thelonious Monk – e por amor ao jazz – a herdeira de uma nobre família britânica largou tudo. A história de Kathleen Annie Pannonica Rotschild, ou simplesmente Nica, está contada em um novo documentário dirigido por sua sobrinha-neta.

Ao descobrir que amava os músicos de jazz, Kathleen Annie Pannonica Rothschild, esposa do Barão Jules de Koenigswarter, mudou sua vida – a sua e a deles também. A baronesa pagou seus aluguéis, resgatou seus instrumentos hipotecados em lojas, levou-os a shows em seu Bentley prata e convidou-os a morar em sua própria casa nos tempos mais difíceis.

Diante da desaprovação da sua família, ela apoiou de músicos proeminentes, como Sonny Rollins, Charles Mingus e Art Blakey, aos obscuros. Um deles, do qual ficou indissociavel­mente ligada, foi Thelonious Monk. Pannonica, ou Nica, se apaixonou pela música do sumo sacerdote do bebop em 1952, ao ouvir 'Round Midnight. Em 1954, quando ele tinha 34 anos e ela 40, iniciaram uma relação cuja essência desafia analistas – e que só terminou com a morte dele.

Pannonica, assim chamada em homenagem a uma borboleta rara, era a caçula do banqueiro e entomologista Charles Rothschild. O homem, que sofria de depressão, cometeu suicídio quando ela tinha 12 anos e estava prestes a embarcar numa adolescência que, para uma Rothschild, só poderia representar, como ela diz em
The Jazz Baroness, documentário recém-lançado por sua sobrinha-neta Hannah, “uma sala de espera para o casamento e a maternidade”.


Tudo, então, mudou; artista talentosa, aos 18 anos ela estudava arte em Munique. Aprendeu a voar e, aos 22, casou-se com Jules, um colega aviador. Eles moraram em um castelo no noroeste da França, onde tiveram os filhos Patrick e Janka. A II Guerra levou o Barão para a África, depois de ele aderir ao exército de De Gaulle.

Nica foi com o marido. Depois da guerra, o Barão virou diplomata, primeiro na Noruega, a seguir no México. Eles tiveram outros três filhos – Berit, Shaun e Kari – mas, relata Hannah Rothschild, “
Nica não se adaptou à vida de mulher de embaixador”. Em 1952 o casal se separou, e a Baronesa foi para Nova York.

Três anos mais tarde o divórcio foi incitado depois que Charlie Parker morreu no seu apartamento, no Hotel Stanhope, na 5th Avenue. O grande trompetista estava em turnê quando começou a tossir sangue. Um médico sugeriu repouso – é quando a casa de Nica entra na história. Três dias depois, enquanto viam TV, Parker caiu de súbito e morreu. Os Rothschild não gostaram da repercussão do caso.

Jules ganhou a guarda dos três filhos mais novos. Nica não foi uma mãe negligente, mas suas prioridades estavam noutro lugar, geralmente com Monk. O genial compositor e pianista tinha uma esposa, a quem dedicou "Crepuscule with Nellie". Com a Baronesa, o casal formou uma espécie de
ménage – cujo principal objetivo era o de sustentá-lo e transpor o que provavelmente hoje seria diagnosticado como transtorno bipolar. “Nellie precisava de Nica para ajudá-la a lidar com a instabilidade de Monk”, diz um entrevistado do filme.


O par se tornou conhecido em clubes de Nova York, mas o espetáculo de uma mulher branca com um homem negro na década de 1950 acabou por provocar incidentes. Um deles: Nica levava Monk e seu saxofonista, Charlie Rouse, a um show em Wilmington, Delaware, quando, durante uma breve parada, um policial vasculhou o carro e encontrou uma pequena quantidade de maconha. Sabendo que uma condenação para os músicos significaria a proibição de se apresentar em casas noturnas, Nica assumiu a culpa, passou a noite na cela e foi condenada a três anos de prisão – o que seria anulado posteriormente.

Cansada de ser convidada a se retirar de hotéis por gerentes que não gostavam do entra-e-sai de músicos, a Baronesa comprou uma mansão em New Jersey. Lá, instalou o piano Steinway que comprara para Monk, junto com seus – mais de 300 – gatos. Ele e Nellie se mudaram para lá.

De saúde instável, o jazzista morreu em 1982, aos 64 anos. Seis anos mais tarde, Nica, então com 75, não sobreviveu a uma cirurgia. Sua generosidade, contudo, não morreu com ela. A casa, pertencente a seus herdeiros, tem sido ocupada por Barry Harris, outro pianista. Tempos depois, as cartas de Nica foram descobertas entre os papéis do pianista Mary Lou William, outro amigo próximo, junto com várias de suas requintadas pinturas abstratas. Fragmentos das cartas, lidos pela atriz Helen Mirren, são ouvidos no filme, incluindo o veredito sobre seu casamento: “
Jules odiava jazz. Ele se acostumou a quebrar meus discos quando eu me atrasava para jantar. Eu geralmente estava atrasada para jantar.

Quanto aos seus amigos músicos, Hannah os descreveu, no lançamento do longa, como “
as mais dignas, humanas e articuladas pessoas que conheci em 20 anos fazendo documentários.” Não deixa de ser uma resposta para quem se pergunta por que razão a discografia do jazz pós-guerra é estudada com um nome exótico, em um catálogo de composições que inclui não apenas a "Pannonica" de Monk, mas "Nica’s Dream", "Nica Steps Out", "Blues for Nica" e uma dúzia de outras.

O documentário não tem previsão de lançamento no Brasil.

Discoteca Básica Bizz#123: The Beach Boys - Pet Sounds (1966)


(Sérgio Barbo, Bizz#123, outubro de 1995)

Era o começo dos anos sessenta e os Estados Unidos viviam o seu apogeu. A Califórnia era o estado mais rico da nação, um dos melhores lugares do mundo para se viver, e os Beach Boys eram os reis da surf music.

Apesar de mal saberem nadar - só o baterista Dennis Wilson era surfista - nunca uma banda foi tão associada a um estilo musical como os Beach Boys. A despeito de nunca ter pisado numa prancha de surf, ninguém escrevia temas ensolarados sobre o mar da costa oeste, garotas e dragsters velozes melhor do que Brian Wilson. Além dele e Dennis, compunham a formação original o irmão caçula dos Wilson, Carl (guitarra), o primo Mike Love (vocais) e o amigo Al Jardine (guitarra). Vendendo milhares de cópias e combatendo a invasão britânica nas paradas americanas, eles viraram até orgulho nacional.

Mas isso durou até 1965. No ano seguinte a ingenuidade da era dourada do rock'n'roll havia acabado. A guerra do Vietnã era iminente, a liberação sexual tornava-se realidade e o psicodelismo despertava. Quando Brian Wilson resolveu parar de falar do sol da Califórnia e começou a dissertar sobre angústias existenciais, os fãs e a crítica estranharam, mas a história do rock mudou para sempre. Rompendo com o rock'n'roll fácil dos primórdios e fortemente influenciado pelo álbum Rubber Soul, dos Beatles, o multi-instrumentista Brian criou um dos mais importantes discos de todos os tempos, Pet Sounds. O trabalho influenciou diretamente outra obra-prima - Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band.

Ambicioso e perfeccionista, o mentor dos Beach Boys queria fazer arte e não apenas pop songs, almejando produzir o melhor álbum já feito, buscando inspiração no coração, na alma e até em Deus - já que para ele a música era a voz divina. Mesmo com os parcos recursos da época, o resultado foi uma obra requintada e barroca, com intrincadas hamonias vocais, arranjos complexos e sutis e escalas inusitadas. As gravações do disco incluíram efeitos inventivos com vozes, sons de animais, buzinas, trens e também percussão exótica - no caso, garrafas vazias de Coca-Cola e latas de sorvete.

Além disso, Pet Sounds marcou pelo uso pioneiro do sintetizador em "I Just Wasn't Made For These Times". As transformações prosseguiam: as letras - com a colaboração do compositor Tony Asher - falavam sobre amor e esperança (em "Wouldn't It Be Nice"), misticismo ("God Only Knows", canção preferida de Paul McCartney) e a perda da inocência ("Caroline No"). Pet Sounds é um trabalho precursor e conceitual, mas acessível. Alternando dor e alegria, mescla melodias pop e emocionais com faixas orquestrais e - por que não dizer? - progressivas.

Atingido a ápice criativo, os Beach Boys ainda ameaçaram fazer mais um álbum capital - o abortado Smile, que nunca foi terminado devido a problemas pessoais de Wilson. Daí para frente, o envolvimento com drogas ocasionou a decadência do grupo, mas a lenda dos garotos da praia já estava firmada, que o digam Ramones, Jesus and Mary Chain, Pixies etc.


Faixas:
A1 Wouldn't It Be Nice 2:25
A2 You Still Believe in Me 2:34
A3 That's Not Me 2:30
A4 Don't Talk (Put Your Head on My Shoulder) 2:54
A5 I'm Waiting for the Day 3:06
A6 Let's Go Away for Awhile 2:21
A7 Sloop John B 3:00

B1 God Only Knows 2:52
B2 I Know There's an Answer 3:11
B3 Here Today 2:55
B4 I Just Wasn't Made for These Times 3:15
B5 Pet Sounds 2:23
B6 Caroline, No 2:53

12/07/2009

Discoteca Básica Bizz#122: Wings - Band on the Run (1973)


(Paulo Cavalcanti, Bizz#122, setembro de 1995)

Em 1973, Paul McCartney estava numa encruzilhada. Acusado de ser o homem que acabou com os Beatles e traidor da contracultura, ele via sua carreira solo como algo que ainda não havia decolado propriamente - a despeito de hits como "Live and Let Die" e "My Love". Decidido a acabar com a maré de azar, Macca pegou sua mulher Linda e o guitarrista Denny Laine e foi para Lagos, na Nigéria (coração da África).

Band on the Run, o disco que resultou dessas sessões de gravação, foi aclamado como o melhor trabalho de Paul e os críticos viram nele uma continuação do segmento sinfônico que permeou boa parte do lado B de Abbey Road (1969), o penúltimo trabalho dos Beatles.

Como Henry McCullogh e Denny Seiwell, outros integrantes do Wings, recusaram-se a viajar, Paul teve de tocar a maioria dos instrumentos sozinho. Paul não planejou um álbum conceitual, mas as melodias e temas quase sempre aludiam à liberdade, fuga. A faixa-título coloca o rockstar como um fora-da-lei disposto a sair da prisão, ou seja, fugir das regras estabelecidas. Mais tarde, ele revelou que a frase chave da canção - "se algum dia nós conseguirmos sair daqui" - era uma expressão que George Harrison repetia constantemente nos intermináveis e sufocantes encontros com advogados e executivos na época do fim dos Beatles.

"Band on the Run", a música, desembocava em "Jet", exuberante canção de cinco minutos que reforçava a idéia de uma mini-ópera. Paul não estava disposto a fazer as pazes apenas consigo próprio. Em "Let Me Roll It" ele prestava uma homenagem carinhosa a John Lennon, tapando um pouco das feridas que ficaram com o fim da maior parceria do século. A delicada "Bluebird" remonta a tradição das baladas acústicas de Paul e é uma espécie de visão mais otimista de "Blackbird" (clássico do White Album). Paul também usou com maestria teclados eletrônicos na épica "Nineteen Hundred and Eighty Five".

Paul foi assim alvo de uma das maiores comebacks da música pop. Muitos apontaram que ele nunca mais conseguiu repetir o espírito de ousadia e aventura de Band on the Run. Pode ser, mas com certeza nunca mais esqueceu como ser um legítimo superstar.


Faixas:
A1 Band on the Run 5:09
A2 Jet 4:08
A3 Bluebird 3:22
A4 Mrs. Vandebilt 4:40
A5 Let Me Roll It 4:51

B1 Mamunia 4:51
B2 No Words 2:36
B3 Helen Wheels 3:45
B4 Picasso's Last Words (Drink to Me) 5:48
B5 Nineteen Hundren and Eighty Five 5:30

11/07/2009

Discoteca Básica Bizz#121: John Lennon - John Lennon / Plastic Ono Band (1970)


(José Emilio Rondeau, Bizz#121, agosto de 1995)

Em 1970, John Lennon estava sofrendo de um acúmulo de tudo ao mesmo tempo, agora. Com os Beatles reduzidos a ruínas após anos musicalmente brilhantes, mas que deixaram os quatro ex-integrantes da banda marcados por um desgaste físico, psicológico e artístico de proporções inéditas no rock, Lennon via-se num momento de transição, no qual suas convicções pessoais, prioridades profissionais e emoções foram radicalmente reavaliadas.

Recém-saído de sessões de terapia primal em Los Angeles com o doutor Arthur Janov, que pregava a libertação emocional através da exteriorização de sentimentos reprimidos desde a infância, John era um nervo exposto armado de uma metralhadora giratória apontada para tudo que ele havia construído até então – seu trabalho, sua obra musical, suas alianças pessoais – e para aquilo que, no seu entender, aprisionava-o: a idolatria, as drogas, a política e, sobretudo, os Beatles.

Com a cabeleira raspada em um ato simbólico cheio de significados para a época, ele se apresentava não mais como o "
beatle ferino e mordaz" (que na verdade acabava sendo um produto de consumo em massa), mas como um herói da classe operária que emergia de um longo torpor induzido pela fama e muita grana. E chegava cheio de raiva.

Este disco veio de uma catarse pessoal tornada pública, sem paralelos no rock. Algo realmente chocante para o mundo daquele tempo, quando o tudo bem da geração paz e amor triunfava em Woodstock. Gravado da forma mais crua possível por Lennon e um reduzido núcleo de músicos (Klaus Voorman no baixo, Ringo Starr na bateria e Billy Preston nos teclados), o álbum se tornou tão imediato e urgente quanto a sua realização: no máximo uma ou duas passadas por música antes de ser gravada e entregue a Phil Spector para mixar. Ao invés dos arranjos elaborados que marcaram os últimos lançamentos dos Beatles, um som descarnado, brutal. Que, curiosamente, veio a ser registrado no estúdio Abbey Road, em Londres, onde o quarteto trabalhou em suas mais célebres gravações.

Nas letras das canções, em vez dos inteligentíssimos jogos de palavras que eram a marca registrada de John, estavam diatribes aliadas às confissões íntimas, nas quais Lennon tornava pública- pela primeira vez - a falta que sentia do pai (que o abandonou ainda bebê) e da mãe (morta quando ele era garoto). E ainda revelava o seu plano de ação para o futuro: "O sonho acabou", decretava ele na faixa "God", depois de avisar ao mundo que já não acreditava mais em Elvis, nem em Bob Dylan ou nos Beatles, apenas nele mesmo e em Yoko ; "isso é a realidade".

Até as canções de amor dedicadas à sua mulher teimavam em pingar algumas gotas de fel contra o mundo: "
Segure firme, Yoko", dizia ele nos versos de "Hold On", "tudo vai ficar bem, venceremos a luta".


Faixas:
A1. Mother - 5:29
A2. Hold On (John) - 1:49
A3. I Found Out - 3:33
A4. Working Class Hero - 3:44
A5. Isolation - 2:48

B1. Remember - 4:29
B2. Love - 3:17
B3. Well Well Well - 5:52
B4. Look at Me - 2:49
B5. God - 4:04
B6. My Mummy's Dead - 0:48

09/07/2009

Discoteca Básica Bizz#120: Nuggets: Original Artyfacts From the First Psychedelic Era 1965-1968 (1972)


(Paulo Cavalcanti, Bizz#120, julho de 1995)

Não é costume uma coletânea constar desta seção, só que
Nuggets: Original Artyfacts From the First Psychedelic Era 1965-1968 é uma honrosa exceção. O disco, compilado e idealizado por Lenny Kaye (crítico de rock e ex-marido e guitarrista do grupo de Patti Smith), virou sinônimo de determinado tipo de música e atitude, chamando a atenção para um importante extrato da cultura pop americana dos anos sessenta - as bandas de garagem.

Kaye foi audacioso ao lançar o disco. Em 1972, frescura e pretensão alcançavam o ponto máximo no rock. Então, por que levantar a bola de grupos imitadores, barulhentos, cujas canções mal chegaram às paradas? Bom, aí estava a graça.

Desde seu começo, o rock foi anti-social e espontâneo. Ninguém fez isso melhor do que estas bandas. E ponto final. No meio do anos 60, qualquer bando de garotos suburbanos americanos achava que poderia competir com a invasão britânica. Deixavam os cabelos crescer, compravam instrumentos vagabundos (guitarras Danelectro, com muito fuzz, e orgãos Farfisa) e arrumavam contratos com pequenas gravadoras. O que viesse pela frente era lucro.

Assim, tínhamos bandas xerocando Yardbirds com mais fúria do que o grupo original (The Shadows of Knight, The Count Five) ou ecoando Bob Dylan em sua fase rosnante (Mouse and The Traps). Se o trio The Strangeloves atacava com "Night Time" e The Blues Magoos iam de "Tobacco Road", The Knickerboxers faziam a melhor música que os Beatles não gravaram, a notável "Lies". Sem contar The Chocolate Watch Band detonando seu machismo adolescente em "Let´s Talk About Girls". E para escolher ao menos um grupo como exemplo daquela época, poderiam ser citados os arrogantes e censurados The Standells, presentes no disco com a canção "Dirty Water".

As drogas psicodélicas eram o combustível das bandas e o período deu ao rock´n´roll dois de seus cidadãos mais doidões: Roky Erickson (13th Floor Elevators) e Sky Saxon (The Seeds). Futuros superstars como Todd Rundgren e Ted Nugent tiveram o seu treinamento básico tocando com os grupos Nazz e The Amboy Dukes, respectivamente.

Para resumir a influência destas bandas: nos anos 60 o estilo já era chamado de punk rock e o termo garage band foi outra coisa que se ouviu muito a partir do começo dos anos 90.


A1 The Electric Prunes - I Had Too Much to Dream (Last Night) 2:55
A2 The Standells - Dirty Water 2:47
A3 The Strangeloves - Night Time 3:05
A4 The Knickerbockers - Lies 2:41
A5 The Vagrants - Respect 2:13
A6 Mouse and the Traps - A Public Execution 2:43
A7 The Blues Project - No Time Like the Right Time 2:49

B1 The Shadows of Knight - Oh Yeah 2:44
B2 The Seeds - Pushin' Too Hard 3:03
B3 The Barbarians - Moulty 2:29
B4 The Remains - Don't Look Back 2:35
B5 The Magicians - Invitation to Cry 2:55
B6 The Castaways - Liar, Liar 1:52
B7 The 13th Floor Elevators - You're Gonna Miss Me 2:24

C1 Count Five - Psychotic Reaction 2:56
C2 The Leaves - Hey Joe 2:47
C3 Michael & the Messengers - Just Like Romeo and Juliet 2:06
C4 The Cryan' Shames - Sugar and Spice 2:26
C5 The Amboy Dukes - Baby Please Don't Go 5:32
C6 The Blues Magoos - Tobacco Road 4:39

D1 The Chocolate Watchband - Let's Talk About Girls 2:41
D2 The Mojo Men - Sit Down I Think I Love You 2:16
D3 The Third Rail - Run Run Run 2:00
D4 Sagittarius - My World Fell Down 3:45
D5 Nazz - Open My Eyes 2:48
D6 The Premiers - Farmer John 3:46
D7 The Magic Mushrooms - It's-a-Happening 2:40

08/07/2009

Baú do Mairon: a história do Moxy


Por Mairon Machado
Colecionador

Seguindo nas bandas canadenses, essa semana irei narrar a história de um dos símbolos do hard rock deste país nos anos setenta.

Sou um grande fã do guitarrista Tommy Bolin, o qual teve sua fama em uma curta, mas importante, passagem pelo Deep Purple, e lançou dois excelentes álbuns solos, Teaser (1975) e Private Eyes (1976). Quando guri, em uma resenha na nossa querida Rock Brigade sobre a caixa The Ultimate: The Best of Tommy Bolin (1989), contando com três vinis e muitas raridades, descobri um pouco mais sobre a história desse grande guitarrista e, principalmente, que ele havia participado dos álbuns de Billy Cobham e Alphonse Mouzon e passado, entre outras, por Zephyr, James Gang e Moxy. Fora o trabalho solo e com o Purple, creio que onde Bolin realmente se encontrou foi no Moxy.


O grupo começou a ser formado em 1973, na cidade de Toronto, quando o vocalista "Buzz" Shearman decidiu reformular a grande banda Leigh Ashford, com quem gravara o raríssimo e cobiçado álbum Kinfolk (1971), chamando então Bill Wade para a bateria, Kim Fraser para o baixo e Earl Johnson para a guitarra. Em 1974 Fraser acabou sendo substituído por Terry Juric, o que acabou numa mudança não só na sonoridade do Leigh Ashford, mas também no nome, adotando então Moxy.

De cara o Moxy lançou um single, contando com "Can't You See I'm A Star", um hino do rock canadense e que levou o quarteto a assinar com a Polydor Records em dezembro de 1974, não só pela canção, mas também por causa do forte carisma de Buzz. Com o sucesso do single o Moxy começou uma longa turnê pela América do Norte, passando por cidades como Toronto, Ontario, Illinois, Detroit, Michigan, entre outras.

A banda foi para os estúdios gravar seu debut de uma forma totalmente independente, contando somente com a ajuda de Mark Smith, que já trabalhara com o Bachman-Turner Overdrive e também com o produtor Roland Paquin. Ao mesmo tempo que faziam o primeiro álbum, a banda viajava pelos Estados Unidos divulgando seus sons, aproveitando cada parada para entrar em um estúdio e registrar algo. E foi em uma dessas paradas, mais precisamente quando o Moxy passava pela Califórnia, na cidade de Van Nuys, que conheceram Tommy Bolin.

Na verdade o jovem guitarrista estava fazendo uma sessão de gravação para o álbum Teaser no mesmo estúdio do Moxy e ficou impressionado com a sonoridade da gurizada, acabando por oferecer seus trabalhos para a banda, o que foi prontamente aceito, já que Bolin, além de ser um boa pinta, também tinha um estilo que se encaixava ao que estava sendo buscado pelo grupo. Além disso, Bolin conhecia Paquin desde os tempos da James Gang, o que ajudou ainda mais na união Moxy/Bolin.

Um clima de harmonia surgiu nos estúdios, e assim diversas músicas passaram a ser refeitas para a inclusão das guitarras de Bolin. Após as diversas sessões, Bolin seguiu seus trabalhos em seu álbum de estreia, ao mesmo tempo em que recebia o convite para substituir Ritchie Blackmore no Deep Purple.

Como não tinha um vínculo oficial com o Moxy, Bolin preferiu seguir carreira ao lado do Purple, deixando para o pessoal do Moxy uma excelente contribuição no álbum de estreia do grupo, pouco depois de Buddy Caine ter assumido a segunda guitarra, já que diversos shows haviam sido marcados anunciando o Moxy como um quinteto.

Segundo Johnson, o que realmente aconteceu é que Bolin já havia dito que após o término das gravações de Teaser iria sair em turnê com o grupo, e também estava disposto a gravar mais um álbum. Porém, o surpreendente convite feito por David Coverdale pegou-o de surpresa, e, claramente, participar do Deep Purple era como marcar um gol decisivo em final de campeonato, nem Johnson perderia a oportunidade.


No final de 1975, Moxy (ou "álbum preto") foi lançado no Canadá, e em janeiro nos Estados Unidos, através da Mercury Records. Um álbum fantástico, essencial na coleção de qualquer fã de hard que se preze, e, óbvio, deve ser ouvido sem comparações com Come Taste the Band.

A pérola "Fantasy", com o bongo de Wade e os acordes orientais de Bolin e Johnson, abre o disco com uma pequena participação de Bolin abrindo espaço para os vocais agudos de Buzz entoarem a letra sobre uma sessão lenta. O músico Tom Stephenson (companheiro de som de Bolin) participa tocando piano na canção, o que deu um belo clima para a mesma. O ritmo lento, com piano, baixo e bateria acompanhando os vocais, traz um clima de agonia, com um refrão ainda mais triste, marcado pelas fortes palhetadas de Bolin e Johnson, encerrando de forma totalmente hard, com uma bela participação das guitarras, onde Bolin executa o solo de encerramento de uma forma inconfundível.

"Sail On Sail Away" dá sequência, agora de forma acústica, com os violões comandando o ritmo para os vocais de Buzz, trazendo então uma parte instrumental mais pesada, que lembra muito o Led Zeppelin, retomando os violões. A parte pesada volta marcando o refrão, e não tem como não lembrar dos riffs de Jimmy Page e, principalmente, das batidas de John Bonham. A partir de então a canção cai numa gandaia, com um belo solo de Johnson, enquanto o Moxy manda ver no acompanhamento. A letra segue acompanhada pelo peso das guitarras e pela levada bateria/baixo, encerrando com o refrão grudento e com mais um solo de Johnson.

A clássica "Can't You See I'm a Star", com seu riff inconfundível, vem a seguir. As passagens de wah-wah feitas por Johnson caíram como uma luva na ideia da canção, e a participação de Bolin, com palhetadas certeiras, modificou bastante essa faixa em relação a sua versão original, ganhando mais punch e peso. O solo de Johnson no wah-wah é de primeira qualidade, e o peso da cozinha, com grandes riffs, justifica o porque de esta ser considerada por muitos fãs do Moxy como a melhor canção da banda.

Por fim, "Moon Rider" encerra o lado A com mais um grande riff. O início é pegado, com a bateria intercalando entre as palhetadas de Bolin e Johnson, ganhando pique com a voz de Buzz. Bolin executa um pequeno solo, e você não para de balançar a cabeça com a levada da canção, que tem seu destaque principalmente pela enorme quantidade de riffs utilizados e pela bela participação de Bolin, utilizando o volume no refrão em uma sessão dedilhada acompanhada por cymbals e pela marcação de baixo. O refrão fica então pesado, abrindo espaço para Bolin detonar, acompanhado por uma tradicional escala de terças feitas por Johnson e Fraser. O vocal é retomado, com mais um solo de Bolin encerrando essa grande faixa.

O lado B abre com "Time to Move On", outro riffzaço, marcado também pelos vocais de Buzz. Diferente do que Bolin iria fazer no Deep Purple - algo mais funk e soul music -, aqui ele está totalmente hard, inspiradaço em bandas como Led e até mesmo o próprio Purple. "Time to Move On" poderia facilmente estar presente em Machine Head por exemplo, como pode ser comprovado no solo de Bolin, onde o riff de Johnson é similar aos feitos por Blackmore.

"Still I Wonder" tem o início cadenciado das guitarras, baixo e bateria, que trazem o vocal de Buzz rasgado e sujo como todo grande som de hard rock. As guitarras distorcidas são o principal destaque, com Bolin interferindo bends e trêmolos entre os vocais de forma que só gênios conseguem fazer. A sessão instrumental é super cadenciada, e essa sim encaixa-se no que ouvimos em Come Taste the Band, com Bolin mandando ver em um solo curto, mas genial.

A pesadíssima "Train" é um quase blues, com Buzz cantando muito sobre a levada da banda. Essa faixa conta com solos de Bolin e Johnson, com Johnson fazendo o solo de encerramento, o qual é intercalado por Buzz trazendo a letra do refrão.

Por fim, "Out of the Darkness" encerra esse álbum de forma fantástica. Mais um grande riff, acompanhado pelos cymbals, traz o ritmo hard característico de todo o álbum. A letra é acompanhada por um segundo riff. Bolin executa o solo, acompanhado por um terceiro riff criado por Johnson. Se Buzz era o centro das atenções, Johnson era realmente o cérebro da banda, algo como Ian Astbury e Billy Duffy seriam para o The Cult posteriormente. "Out of the Darkness" é um símbolo do hard rock que o Moxy viria a fazer posteriormente, com um refrão forte e mais melódico.

O disco acabou vendendo bastante, principalmente nos Estados Unidos, onde teve todas as suas oito faixas amplamente divulgadas, principalmente pela Kiss FM, do Texas, através do famoso radialista Joe Anthony, fazendo com que o Moxy ganhasse muita fama naquele estado. "Fantasy" e "Sail On Sail Away" entraram rapidamente no top#20 da Kiss FM. Com isso, o Moxy passou a tocar em grandes lugares, sempre como atração principal. "Time to Move On" e "Train" acabariam posteriormente por entrar na coletânea de Bolin citada lá no começo do texto.


Em abril de 76 começam a gravar o segundo álbum. Moxy II mantinha a mesma sonoridade de Moxy, com riffs diretos e refrões grudentos, porém não tão pesados como seu antecessor. Produzido por Jack Douglas (que havia trabalhado com o Aerosmith), o "álbum vermelho" acabou sendo lançado mundialmente no verão de 1976, e com a intenção de fazer do Moxy uma grande banda acabaram colocando o álbum por modestos £1,50 na Inglaterra. A imprensa inglesa passou então a aclamar o Moxy como o Led Zeppelin canadense, e não era por menos.

O disco abre com "Cause There's Another", com riffs e solos de guitarras bem setentistas. Violões e guitarras acompanham os vocais, e Caine mostra que veio para assumir a posição de destaque na banda, já que compõe e sola em quase todas as músicas. O solo desta, por exemplo, é bem interessante, com muita pegada e também com a forte presença do baixo de Juric, que fica marcando o tempo ao lado da bateria para Buzz gritar a letra. Caine imita Bolin no solo final, o que levou muitos a pensarem que era Bolin na guitarra, o que não é verdade.

A suingada "Take It or Leave It" vem a seguir, com um belo embalo das guitarras e da cozinha Juric/Wade. O refrão é mais hard, mas o funkzão é que comanda toda a faixa, com destaque novamente para as bolianas intervenções de Caine.

Trovões e muito peso abrem "Through the Storm", uma das melhores faixas do Moxy, com uma bela introdução de guitarra. Os riffs do primeiro álbum estão presentes, com Buzz cantando de forma diferente, sem muitos agudos e com mais raiva. Grande música para balançar o corpo. Os duelos de guitarra encerrando a faixa, com muitos bends e arpejos, são o ponto alto da canção.

"One More Heartbreaker" é um rockzão bem setentista. Quem gosta do que a banda O Peso fez, por exemplo, irá curtir bastante esse som, onde Johnson manda ver em riffs despojados e sujos.

Por fim, a instrumental "Slippin' Out" encerra o lado A. A guitarra de Johnson vai aumentando de volume aos poucos, assim, como a bateria e o baixo, até entrar solando com a utilização de um talk box. Caine sola com a guitarra limpa, mudando o ritmo da canção, que alterna entre o talk box e a guitarra limpa até virar um blues, onde Caine manda ver. Johnson e Caine duelam suas guitarras, e fica interessante ver a utilização do talk box duelando com a guitarra limpa.
A seguir é a vez de um solo no talk box, retomando os temas iniciais. Caine sola pela segunda vez num ritmo super cadenciado, com a cozinha segurando bem. Ótima faixa!

O lado B abre com "Midnight Flight", um hardão tradicional, com direito a marcação de cowbell e, claro, um refrão grudento. As linhas instrumentais para o solo de Caine são bem elaboradas, mostrando que o Moxy aproveitara bem os tempos com Bolin.

A balada "Change in My Life" diminui o ritmo. Elaborada para as rádios americanas, essa canção contém um lindo arranjo de violões, e o dedilhado da guitarra de Johnson parece um piano. Destaque mais uma vez para a sessão instrumental.

"Tryin' Just For You" tem uma grande levada de baixo na introdução, virando um rockzão, enquanto a faixa de encerramento, "Wet Suit", com Johnson mandando ver no slide guitar, é um bluesão manhoso bem no estilo do Led Zeppelin, com participação de Buzz na harmônica e com um solo de teclado de Caine.

O Moxy partiu para uma turnê como headliner pelo Canadá, e foi a banda de abertura do Black Sabbath, voltando para os estúdios em março de 1977. No meio do ano, chegava as lojas o terceiro disco da banda, agora contando com uma linda capa feita por Heiner Geisel e chamado Ridin' High.


O lado A é bem hard, abrindo com "Nothin' Comes Easy", um grande rock'n'roll com um refrão apelativo (inclusive contando com ovação de platéia) e terminando como uma grande festa, onde o refrão é repetido diversas vezes.

"Rock Baby" mantém os grandes riffs, com destaque para o solo de Caine, enquanto "Sweet Reputation" é uma das melhores do álbum, com um baixo galopante que lembra muita a versão de "Diamonds and Rust" feita pelo Judas Priest. Acordes únicos entoados pelas guitarras de Caine e Johnson acompanham a melodia vocal dessa grande canção do Moxy. Por fim, o lado A encerra com "I'll Set You on Fire", com Caine usando o wah-wah em um sonzão cadenciado.

A faixa título abre o lado B com o slide de Johnson, enquanto um boogie de ótima qualidade comanda outra grande canção, com um belíssimo trabalho de Juric e Wade, além, claro, dos solos de Johnson no slide, duelando com Caine no talk box.

"Young Legs" é uma canção que poderia ser facilmente encontrada nos álbuns de Uli Jon Roth, já que os riffs, acordes e a levada são típicas do grande guitarrista do Scorpions. A linda balada "Another Time Another Place" mostra que o Moxy buscava novos caminhos. A guitarra dedilhada de Johnson é intercalada por acordes feitos por Caine. Violões e órgão, tocado por Scott Cushnie, acompanham a banda e os vocais dramáticos de Buzz, com um grande final onde Caine e Johnson duelam sobre a repetição do refrão.

"Are You Ready" volta aos hards do Moxy, com bastante slide e muitas guitarras. Por fim, "Reprise (Nothin' Comes Easy)" retoma o refrão da faixa de abertura encerrando o álbum, agora com a banda sendo acompanhada pelo piano de Cushnie.

Em 27 de julho o Moxy apresentava-se pela primeira vez nos Estados Unidos como headliner, no Armadillo World Headquarters de Austin. Em seguida foi atração no Municipal Auditorium de San Antonio, e no dia 29 no Ritz Music Hall, também no Texas, onde a banda de abertura foi nada mais nada menos que o AC/DC (pra se ter um pouco a idéia do sucesso que o Moxy fez neste estado), andando então como headliner ao lado de bandas como Rainbow, Ramones e Styx.

Porém, as longas e extensivas turnês, bem como os anos de estrada (vários membros estavam na ativa desde os anos sessenta) acabaram prejudicando a banda, começando com problemas nas cordas vocais de Buzz, o que acabou com Brian Maximan sendo chamado para fazer as vozes mais altas no final da turnê.

Em novembro de 1977 Buzz decidiu sair do Moxy alegando conflitos de personalidade e diferenças musicais, mas principalmente para cuidar da saúde e de seus problemas com álcool. Acabou fundando posteriormente sua própria banda, a Buzz Saw, ao lado de Bob Bulger (guitarra) e Frank Russe (bateria). Junto com Buzz, Wade pediu as contas, sendo substituído por Danny Bilan, enquanto que o vocalista Michael Rynoski assume os vocais para fazer sua estreia no álbum Under the Lights (1978) e comandar uma mudança na sonoridade da banda, inclusive participando da composição de todas as músicas do álbum.


O disco abre com "High School Queen" e as slides de Johnson. Um hard brilhante, que nos apresenta um vocalista com voz mais grave do que seu antecessor, mas que se encaixou bem na nova ideia de som, agora com o acompanhamento das backing singers Tracy Richardson, Sharon Lee Williams e Colina Phillips.

A faixa-título dá sequência com um som bem oitentista (novidade para a época), assim como "Maybe I'm a Dreamer", cheia de violões e pianos, esses últimos à cargo de Cushnie. O refrão desta é um tanto quanto repetitivo, mas a mesma possui uma linda sessão instrumental onde Johnson, responsável por todos os solos do LP, relembra os tempos de Tommy Bolin.

"Sing to Me" encerra o lado A novamente com violões e teclados bem oitentistas. Quem conhece bem a banda Triumph poderá confundir essa com a clássica "Magic Power", do álbum Allied Forces (1981).

"Sailor's Delight" invade o lado B com muito rock'n'roll. Talvez a melhor faixa do álbum, onde Johnson abusa de guitarras dobradas e com uma levada excepcional. "Thinking About You" traz batidas fortes de bateria acompanhadas pelos teclados e por guitarras bem oitentistas, que executam o riff principal. A percurssão de Jack Richardson colabora para manter o clima de festa, em uma faixa pouco inspirada.

A linda "Easy Comes Easy Go" lembra "Simple Man" do Lynyrd Skynyrd, com os violões dedilhados e uma bela melodia da guitarra. Um refrão forte e os backing vocals nos remetem aos anos do southern rock.

Por fim, "Livin' & Learnin'" encerra o álbum com muito peso. Uma faixa parecida com o que o Moxy havia feito no início de sua carreira, contando com passagens de guitarra e viradas de bateria similares ao que o Aerosmith vinha fazendo nos álbuns Toys in the Attic e Rocks.

Apesar de ser um disco bem abaixo do que o Moxy fez em seus três primeiros álbuns, Under the Lights acabou virando um disco pioneiro para a geração de adolescentes americanos do final dos anos 70, influenciando diretamente no surgimento de bandas como Cinderella, Firehouse, Poison, Bon Jovi e até mesmo na evolução de seu primo, o Triumph, dando origem ao chamado hard farofa, já que abusava do uso de teclados e letras melosas.

A banda partiu para uma longa turnê ao lado de Aerosmith, Ted Nugent, Triumph e Johnny Winter, mas a ausência de Buzz afetou, e muito, a popularidade do grupo, que entrou em rápida decadência, que se agravou ainda mais com a saída de Earl Johnson, o qual foi substituído por Woody West.Buzz voltou a participar do Moxy em 79, ao lado de Caine, Juric e Bilan, além do guitarrista Doug MacAskill (ex-The Stampeders).

Com a morte de Bon Scott (AC/DC), Buzz acabou sendo cogitado para vocalista da banda australiana, mas os problemas nas cordas vocais se agravaram, e assim Brian Johnson acabou assumindo e continuando a grande carreira dos irmãos Young. O Moxy continuou excursionando, enquanto seus membros participavam de diferentes álbuns, como o The Lee Aaron Project (1982) de Lee Aaron, com a participação de Buzz, Johnson e Wade.


No dia 16 de junho de 1983 Buzz envolveu-se em um grave acidente de moto, que acabou vitimando esse grande vocalista. Os membros originais da Moxy reuniram-se para realizar um concerto com o objetivo de angariar fundos para a família de Buzz, que havia deixado uma esposa e um filho, além também de uma coletânea chamada A Tribute to Buzz Shearman, que trazia três canções que não haviam sido lançadas anteriormente: "Highway", "Eyeballs" e "Trouble", todas com Buzz nos vocais.


Caine, Bilan, Juric e Brian Maxin (que havia participado como backing vocal nos dois primeiros álbuns do Moxy) fundaram a banda Voodoo, enquanto Johnson continuou sua carreira como músico de estúdio. Em 1993 foi lançada a coletânea Best Of: Self Destruction, onde a banda solo de Caine participa com uma canção chamada "Feed the Fire" e com a primeira versão trazendo uma rara interpretação para "Take It Or Leave It".


Em 1999, Johnson, Wade e Caine reuniam-se para produzir o quinto álbum da banda, Moxy V (ou disco cinza), que foi lançado em 2000 contando com Maxim, Jim Samson (baixo) e trazendo novamente a sonoridade dos primeiros álbuns. Wade acabou adquirindo uma grave doença após o lançamento deste, sendo substituído por Kim Hunt. Wade acabou falecendo de câncer no dia 27 de julho de 2001, mesmo ano do lançamento na Europa de uma segunda versão de Moxy V, contando com as músicas de estúdio e mais três gravadas ao vivo, além de uma nova capa.


O Moxy passou a excursionar ao lado de nomes como Budgie, Michael Schenker Group e Saxon, entre outros, tocando inclusive na Europa. Lançam em 2002 o álbum Raw, gravado ao vivo no Sweden Rock Festival e no El Mocambo, ambos em 2001,

Maxim foi substituído por Alex Machin, fazendo shows e aparecendo em programas de TV, sendo substituído em 2008 por Russ Graham. Também em 2008 Caine decidiu sair do Moxy para se dedicar a família, e hoje o Moxy sobrevive como um quarteto, contando com Earl Johnson, Jim Samson, Kim Hunt e Russ Graham.

Em 08 de março de 2009 uma faixa inédita com Buzz nos vocais, chamada "You Can't Stop the Music in Me", foi tocada nas rádios canadenses no dia do aniversário de Buzz, faixa essa que havia sido gravada em 1981 e que foi lançada em uma edição limitada, bem como um DVD e um livro narrando a história dessa que é uma das principais bandas do rock canadense.

Discoteca Básica Bizz#119: Steppenwolf - Steppenwolf (1968)


(Fernando Naporano, Bizz#119, junho de 1995)

Em sua autobiografia, John Kay diz: "
Estávamos encurralados numa sufocante imagem de uma banda de motoqueiros machões".

O estrondoso sucesso da canção "Bom to Be Wild", de certa forma, ofuscou a decisiva obra do quinteto Steppenwolf. Mas nunca é tarde pará redescobrir que, ladeando um tesouro musical - que se alinhou como um hino de escapismo de uma época que despontava a guerra do Vietnã, os assassinatos de John Kennedy e Martin Luther King, mais a ascensão de Richard Nixon -, residia um autêntico oceano de maestria.

Criado a partir das cinzas do Sparrow, grupo que de 1965 a 1967 vestiu o blues e o folk nas mais chapadas improvisações, o Steppenwolf era pilotado através da voz gutural de Kay (nascido em 1944 na cidade de Tilsit, na ex-Alemanha Oriental, e exilado no Canadá a partir de 1958). O grupo lançou 21 compactos, nove álbuns originais, um disco ao vivo e quatro compilações. De 1967 a 1972, eles gravaram álbuns prolíficos (como 7, de 1970), conceituais (For Ladies Only, de 1971) e políticos (Monster, de 1969). E de 1974 a 1976 registraram esquecidas pérolas (vide Slaw Flux, de 1974), mas nada tão contundente quanto o primeiro álbum - Kay depois diria que eles jamais conseguiram recuperar o raw sound daquele disco.

Pura verdade. A bateria de Jerry Edmonton, os teclados de Goldy McJohn, o baixo de Rushton Moreve e a guitarra de Michael Monarch, junto à garganta de ferro de Kay, profetizavam diretrizes para o heavy rock, enaltecendo e tranfigurando o blues e - como decór - se lançando numa psicodelia ocasional e cáustica.

À parte a imortal "Bom to Be Wild" (composição do ex-Sparrow Mars Bonfire, irmão de Jerry), haviam ainda recriações de clássicos ("Hoochie Coochie Man”, de Willie Dixon), resgate de gênios obscuros (“The Pusher”, controversa ode à maconha de Hoyt Axton), baladas existenciais (“Desperation”, que se transformou na mais brilhante cover do Humble Pie) e até pop psicodélico (“A Girl I Knew”).

Também foi neste álbum que Kay se afirmou como um real militante da contracultura. O meio-ambiente ("The Ostrich"), a liberdade ("Berry Rides Again") e o inconformismo ("Take What You Need") eram as pautas deste obstinado justiceiro que, mesmo na pior fase da sua vida - de 1980 a 1984, quando diversos impostores e ex-integrantes regurgitavam para se apropriar do nome do grupo -, defendeu a qualquer custo a sua imaculada concepção: um animal chamado Steppenwolf.


Faixas:
A1. Sookie Sookie - 3:17
A2. Everybody's Next One - 3:00
A3. Berry Rides Again - 2:52
A4. Hoochie Coochie Man - 5:15
A5. Born to Be Wild - 3:32
A6. Your Wall's Too High - 5:48

B1. Desperation - 5:47
B2. The Pusher - 5:52
B3. A Girl I Knew - 2:42
B4. Take What You Need - 3:31
B5. The Ostrich - 5:45

07/07/2009

Nova edição da Rolling Stone Brasil traz duas capas diferentes



Top#20 Roadie Crew Melhores Álbuns de Hard Rock e Heavy Metal


Por Ricardo Seelig
Colecionador

A Roadie Crew, a principal revista brasileira dedicada ao hard rock e ao heavy metal, mantém um ranking dos melhores discos de hard e metal de todos os tempos.

Mas, ao contrário da imensa maioria das listas publicadas por aí, essa da Roadie Crew se diferencia devido a uma particularidade muito interessante: cada músico entrevistado pela revista cita quais seriam os seus cinco discos preferidos de todos os tempos, e daí esses votos são computados, gerando um top#20 com os álbuns mais citados, que seriam aqueles mais importantes segundo os próprios músicos de hard rock e heavy metal.

Apesar de não ter lá grandes surpresas e se limitar a um número bastante restrito de grupos, a lista é interessante e serve de parâmetro para saber, pelo menos, quais foram as bandas e os trabalhos mais influentes para toda uma geração de instrumentistas que agora está à frente de seus próprios conjuntos.

Vamos lá então:

1. Slayer - Reign in Blood (1986) - 155 votos
2. Metallica - Master of Puppets (1986) - 103 votos
3. Queensryche - Operation: Mindcrime (1988) - 89 votos
4. Iron Maiden - The Number of the Beast (1982) - 68 votos
5. Black Sabbath - Heaven and Hell (1980) - 59 votos
6. Morbid Angel - Altars of Madness (1989) - 58 votos
7. AC/DC - Back in Black (1980) - 56 votos
8. Iron Maiden - Piece of Mind (1983) - 53 votos
9. Iron Maiden - Powerslave (1984) - 49 votos
10. Judas Priest - Painkiller (1990) - 48 votos
11. Metallica - Black Album (1991) - 46 votos
12. Judas Priest - Screaming for Vengeance (1982) - 42 votos
13. Deep Purple - Machine Head (1972) - 42 votos
14. Van Halen - Van Halen (1978) - 42 votos
15. Dream Theater - Images & Words (1992) - 40 votos
16. Metallica - Ride the Lightning (1984) - 39 votos
17. Iron Maiden - Killers (1981) - 38 votos
18. Black Sabbath - Black Sabbath (1970) - 36 votos
19. Led Zeppelin - Led Zeppelin (1969) - 35 votos
20. AC/DC - Highway to Hell (1979) - 35 votos

E daí, o que você acha? Concorda com a lista, ou discorda completamente? Deixe a sua opinião nos comentários e participe.

Discoteca Básica Bizz#118: John Coltrane - A Love Supreme (1965)


(Jean Yves de Neufville, Bizz#118, maio de 1995)

Eleito Disco do Ano pela crítica especializada quando lançado, em fevereiro de 1965, consagrado hoje por jazz rappers (na coletânea
Red, Hot & Cool), A Love Supreme, a obra-prima de John Williams Coltrane (1926-1967), ultrapassa os limites de seu estilo e tem uma sintonia extraordinária com os anos oventa. Talvez por ser um exemplo raro de expressão da espiritualidade na música moderna, Coltrane permanece a grande referência de todo músico interessado em desenvolver as técnicas de improvisação e, com isso, expressar "algo mais" por meio de seu instrumento.

Nos anos cinquenta, John Coltrane cruzou seu sax tenor sucessivamente com os trompetes de Dizzy Gillespie e Miles Davis e com o piano de Thelonious Monk. Com o primeiro aprendeu a lidar com influências musicais do resto do mundo. Com o segundo chegou à perfeição formal de sua expressão, enquanto o terceiro ensinou-lhe a ousadia. Além de gravar discos tão importantes quanto
Kind of Blue (com Miles em 1959), Coltrane forjou uma técnica musical revolucionária que lhe permitiu explorar tonalidades nas escalas altas e desencadear avalanches de harmonias em níveis inéditos.

Fruto do trabalho de aprimoramento em conseguir alcançar estados de puro transe obsessivo, essa técnica de execução: (1) levou o instrumentista a tocar solos cada vez mais longos; (2) fez com que os músicos de seu conjunto tocassem simultaneamente linhas melódicas diferentes, o que acabou desembocando no free jazz, movimento do qual Coltrane foi mentor; (3) facilitou as combinaçães de sua música com as escalas orientais, as texturas sonoras e os ritmos vindos da Índia e da África.

Alternando o sax tenor e o soprano a partir de 1960, na busca de um leque maior de cores, Coltrane alcançou a plenitude artística ao formar seu quarteto definitivo: Elvin Jones (bateria), McCoy Tyner (piano) e Jimmy Garrison (baixo), algo expresso nas quatro peças de A Love Supreme, onde mescla a energia do bop e a suavidade do cool. Os temas criam uma nova ordem modal, onde silêncio, texturas e moods valorizam-se numa estrutura aberta, livre. Coltrane administra o caos para instaurar uma dimensão cósmica.

Trinta anos depois, as possibilidades do disco ainda estão para ser exploradas, quando o pop enfrenta um tremendo impasse criativo.


Faixas:
A1. A Love Supreme, Pt. 1: Acknowledgement - 7:39
A2. A Love Supreme, Pt. 2: Resolution - 7:15

B. A Love Supreme, Pt. 3: Pursuance / A Love Supreme, Pt. 4: Psalm - 17:40

06/07/2009

Mofo: Dead Kennedys


Rubens Leme da Costa
Colecionador

Que Johnny Rotten que nada! Se você quer saber quem foi o verdadeiro anti-cristo do rock, leia esse texto. Ninguém merece mais esse título do que Jello Biafra. Ninguém incomodou mais a conservadora e retrógrada sociedade norte-americana do que o ex-líder do Dead Kennedys. Jello foi (e ainda é) um dos maiores agitadores da cultura alternativa mundial, e por causa disso foi processado inúmeras vezes, inclusive por seus próprios colegas de banda, que lhe tomaram o nome do grupo e limparam seus bolsos. Em protesto a isso falarei apenas do período em que o Dead Kennedys teve Jello Biafra em seu line-up, porque o que sobrou dos Dead Kennedys é tão relevante quanto seria a volta dos Smiths sem Morrissey.

Se tem um cara que sabe incomodar é Jello Biafra. Líder da mais anarquista banda de todos os tempos, ele é também um dos maiores lutadores contra as grandes organizações multinacionais. Jello luta pelo utópico: melhor distribuição de renda, fim do racismo, da violência. Perto dele, Bono é apenas um seminarista.


Eric Boucher (seu nome real) sempre foi uma pessoa que resolveu lutar contra o sistema e a mediocridade. Jello (ou Eric) nasceu em Boulder, estado do Colorado, e, assim que conseguiu, largou a medíocre vida que levava.

Acabou parando em San Francisco, a meca dos hippies nos anos sessenta e um dos lugares mais improváveis para Jello, que odiava toda a mística dos anos 60´s - "Eu jamais consegui ser afetado ou gostar de Grateful Dead, um bando de velhos idiotas que ficam se drogando e masturbando suas guitarras" - e resolveu adotar o estranho codinome Jello Biafra após ler sobre a vergonhosa guerra civil na Nigéria, especialmente em Biafra, na Nigéria, que tentou se tornar independente em 1967, proclamando a República de Biafra. O resultado de tal ousadia foi o massacre da etnia dos ibos, que após 32 meses de batalhas, mortes e bloqueios resultou na morte de 1 milhão de pessoas e a perda da liberdade, em 1970.

E desde cedo Jello começou a se identificar com o espírito dos punks, embora não sentisse um paralelo com os grupos de então. "Eu comecei prestando atenção nos New York Dolls e em David Bowie, mas os Dolls eram muito coloridos para o público médio de heavy metal da América e não fizeram sucesso. Mas suas músicas eram simples e fáceis de serem tocadas, e sua postura agressiva me estimulou. Uma das minhas primeiras influências foi o Ramones, que vi em um show em Denver, no Colorado, abrindo para uma banda de merda chamada Night City, com uma plateia cheia de flores e que parecia formada por fãs do country de Joni Mitchell. Foi lindo ver Johnny colocando sua guitarra no volume dez e dando aqueles acordes avisando que estavam no palco. Mas a melhor coisa deles era passar aquela mensagem de que qualquer um de nós poderia fazer aquele tipo de som e que podíamos vencer toda aquela merda que imperava nas rádios."


Mas Jello não queria fazer parte de uma banda punk que falava apenas de namoradas e crises juvenis. Queria abordar temas políticos, incomodar, falar o que ninguém ousava. Dessa maneira, nascia em 1978 o Dead Kennedys com Jello nos vocais, Klaus Flouride (baixo), East Bay Ray (guitarra) e Ted (bateria). Logo também entraria um segundo guitarrista que seria conhecido apenas como 6025.


Desde o nome, o Dead Kennedys queria incomodar. Seu som era mais violento do que o dos Ramones, suas letras muito mais pesadas e Jello parecia que tinha tomado sucessivos choques elétricos antes de pisar no palco. Com seu gestual nervoso e não deixando a plateia um segundo em paz, o grupo começou a tocar pela região, e em 1979 lançou o explosivo compacto com as canções "California Über Alles" e "Man With the Dogs", onde desciam o pau no governador Jerry Brown.


O compacto chamou a atenção e o grupo lançou outro ainda mais poderoso, com "Holiday in Cambodia" e "Police Truck". Jello fez algo que chocou a conservadora sociedade norte-americana: lançou-se candidato à prefeito da cidade nas eleições, ficando em quarto lugar com mais de 6 mil votos. Entre suas propostas, queria que os policiais fossem escolhidos pela população e que os políticos se vestissem com roupas de palhaço.


Em 1980 assinam com a gravadora independente I.R.S. (que seria o primeiro lar do R.E.M.) e o mundo conhece a grande obra-prima do hardcore: Fresh Fruit for Rotting Vegetables. O disco é um petardo em todos os sentidos, começando pelas canções, com temas que falam de drogas ("Drug Me"), aluguel ("Let's Lynch the Landlord"), matança dos pobres ("Kill the Poor"), alistamento militar ("When Ya Get Drafted"), além, claro, de "California Über Alles" e "Holiday in Cambodia".

As letras eram de outro mundo; com sua ironia, cinismo e contundência, Jello mostrava o lado podre da América, aquele que não era mostrado na televisão. Mas o disco tinha um outro item especial: um belíssimo poster colorido que o grupo trabalhou durante 16 horas seguidas em sua confecção.

Jello era um caso raro entre os punks. Apesar de tanta raiva incontida, o cantor abominava o uso de drogas e não gostava das posturas radicais de seus fãs nos shows: "Às vezes a linha que separa os fãs do fascismo é muito tênue. Eu prego um rompimento com essa mediocridade, mas não prego a violência."

Logo após o lançamento, o baterista Ted sai, entrando D.H. Pelligro em seu lugar, um baterista negro e que gostava dos Dead Kennedys.


Mas Jello não queria ficar preso a um contrato com uma gravadora que considerava tão comercial quanto qualquer outra - "Assim que fizerem dinheiro serão apenas mais uma" - e resolve montar seu próprio selo, o Alternative Tentacles. "Eu não posso falar de algo alternativo e gravar por uma grande companhia como faz o Clash, que se diz um grupo político mas que só está interessado em dinheiro, drogas e sexo. Eu não trairia meus fãs dessa maneira."


Um dos motivos que fez Jello sair do selo foi o lançamento, pela I.R.S., do disco com uma capa toda laranja, o que o irritou o cantor. "Eles acabaram com a capa e fizeram isso sem nos avisar, apenas para venderem mais. Disseram que podiam fazer uma capa diferente para a edição americana e outra para a importada. Mandamos mudarem na hora." O grupo era representado na Inglaterra e Europa pela minúscula Cherry Red.


O primeiro lançamento pela Alternative Tentacles foi o EP In God We Trust Inc, em 1981. Enquanto isso, Fresh Fruit for Rotting Vegetables acabou fazendo furor na Europa, conseguindo ser disco de ouro na Inglaterra, e o compacto Too Drunk to Fuck / The Prey, lançado logo em seguida, ficou entre as 40 mais tocadas daquele país, apesar de ter sido banida das rádios.


O grupo colecionou uma grande confusão quando lançou um compacto pela Subterranean Records com a música "Nazi Punks Fuck Off", que estava no EP. A polêmica aconteceu por dois motivos: primeiro porque um apresentador de televisão chamado Phil Donahue afirmou que o grupo estava abraçando o nazismo. Mas Phil acabou sendo corrigido por um telespectador ainda ao vivo. E a segunda polêmica era a própria letra. Jello e os demais estavam cansados de ver os nazistas dizerem que eram fãs da banda e provocarem um festival de violência nos shows.


Em 1982 o grupo lançou seu segundo LP, Plastic Surgery Disasters, e resolveu dar um tempo. Jello aproveitou e começou a trabalhar sua gravadora para se tornar um nome forte no underground norte-americano e mundial, começando então a lançar várias coletâneas de bandas punks e hardcore, tornando-se um embaixador dos artistas independentes no mundo todo. Jello continuava sua luta pelo direito de expressão: "O termo punk é aceito como um termo perigoso e as pessoas gostam de dizer que o punk está morto, mas que as grandes bandas de rock não estão. O punk não morrerá até que algo mais perigoso o substitua. E isso irá demorar."

Os anos seguintes foram gastos com excursões e divulgação das idéias anárquicas do grupo. Mas Jello enfrentava também problemas dentro da banda. Por ser o único membro a não consumir drogas - "Elas são tão nocivas quanto a religião" - o vocalista enfrentava o estranhamento de seus colegas. E, pior, via vários fãs morrendo de overdose. "Algumas pessoas tentam se livrar das drogas indo para a religião. É uma postura ridícula. Você sai de um estado de alienação e entra em outro. A América é extremamente perigosa hoje. Esses malditos pastores de televisão se entopem de cocaína e depois ficam pregando e afirmando que estão vendo uma iluminação. Devem estar é viajando."


Ainda em 1982 a Alternative lança uma coletânea fundamental para a massificação do gênero na América, Let Them Eat Jellybeans, com as bandas novatas Black Flag, Flipper, Circle Jerks, Bad Brains e Voice Farm.

E já nessa época Jello começa a brigar com um outro tipo de pessoa que não o deixaria em paz: os pirateiros. Biafra reclamava que estava sendo roubado por gente do seu próprio meio, que vendia os direitos de seus discos, sem avisá-lo, para o estrangeiro, e faturava em cima. Um exemplo disso, segundo o cantor, foi o lançamento de Fresh Fruit for Rotting Vegetables no Brasil, quando ele já havia deixado a banda. "Quando me falaram que o disco havia saído no Brasil fiquei furioso, porque nunca me pediram autorização e não vi um centavo da grana."


Mas polêmica mesmo eles iriam arranjar com o próximo disco, Frankenchrist. E o grande motivo foi o poster interno. A banda tinha usado uma ilustração do artista suíço H. R. Giger chamada Landscape No. 20: Where We Are Coming From, onde havia ilustrações de pênis e ânus. Se a arte por si só já era ofensiva, tomou um rumo pior quando uma mãe pegou o disco que sua filha de 13 anos havia comprado para dar de presente a seu irmão de 11 e viu aquilo.


Imediatamente a banda se viu no maior processo criminal de sua carreira, e que se arrastaria por dois anos. Processados por obscenidade e por distribuição de pornografia a menores, o Dead Kennedys parou suas atividades, assim como o selo.

Jello foi violentamente acordado, teve sua casa invadida por policiais, foi preso e cópias do disco foram apreendidas. Foi também vetada a prensagem de novas cópias do álbum. Mas Jello não aceitou e resolveu literalmente ir pro pau, sendo um dos fundadores da No More Censorship Defense Fund, uma organização que lutava pelo direito de expressão e que tentava juntar artistas que também sofriam esse tipo de perseguição. O apoio veio basicamente de jovens e gente desconhecida, mas virou manchete quando três nomes importantes apoiaram sua luta: Frank Zappa, Little Steven e Paul Kantner.


A luta durou dois anos e nesse meio tempo o Dead Kennedys lançou o último disco com Jello, em 1986,
Bedtime for Democracy, que se mostrou uma decepção. A tensão do processo e as brigas internas resultaram em um disco fraco.

Em 1987 Jello conseguiu o que tanto queria: a absolvição. Por 7 votos a 5 foi considerado inocente, vencendo sua alegação com a afirmação de que o encarte estava dentro do contexto artístico do disco, e que o grupo não estava obrigando ninguém a comprar seu trabalho.


Mas o Dead Kennedys já não existia mais e Jello Biafra iniciou a sua carreira-solo fazendo shows por conta própria, já que os demais integrantes não o suportavam mais. Ainda nesse ano saiu uma coletânea editada pelo cantor,
Give Me Convenience or Give Me Death.

Jello saiu do julgamento como o grande vencedor, além de ter virado um herói (literalmente falando) dos mais fracos. Mas o que ele não esperava é que, anos depois, quando o grupo não mais existia, fosse enfrentar um outro julgamento contra seus ex-companheiros. Os demais integrantes alegavam que Jello não havia pago corretamente os direitos autorais anteriormente e o processaram, mesmo tendo sido feito um acordo, com o cantor admitindo a contabilidade errada e os ressarcindo. Ainda assim, os demais contrataram um advogado especializado em direitos autorais e pleitearam (e venceram) um processo em que levaram US$ 200 mil.

Jello respondeu, irônico, que eles pagaram o advogado com o próprio dinheiro que ele havia desembolsado para acertar com os outros músicos. Por causa disso foi criado até um site chamado
Dead Kennedys News, onde os demais músicos (que ficaram com o nome) mostram todos os passos do processo, e, não satisfeitos, saíram maculando o legado com shows em que aparecem com um cantor qualquer e faturando em cima do legado.

Mas essa parte não entrará aqui por respeito a Jello. Um abraço e até a próxima coluna.

Castiga!: a brilhante tacada de estreia do Babe Ruth


Por Marco Antonio Gonçalves
Colecionador

First Base do Babe Ruth é daqueles discos que me conquistaram logo na primeira orelhada. O álbum, lançado pelo selo Harvest (EMI) em 1973, é a brilhante estreia da banda inglesa de Hatfield, e traz em suas seis faixas uma interessante combinação de estilos, reunindo características do hard rock, rock progressivo, jazz e música pop.

Criado em 1971 pelo guitarrista Alan Shacklock e conhecido inicialmente como Shacklock, o grupo logo teve seu nome alterado para Babe Ruth em homenagem ao lendário jogador de baseball norte-americano George Herman “Babe Ruth”. Mudanças no line-up, cinco discos oficiais lançados entre 1973 e 1976, um longo recesso e o retorno em 2002 – quando começaram a compor o álbum Que Pasa, só finalizado em 2006. O certo é que o combo nunca mais alcançou o mesmo nível de qualidade musical de First Base.


A formação neste debut discográfico incluia Alan Shacklock (guitarra, vocais, órgão e percussão), Janita “Jenny” Haan (vocal), Dave Hewitt (baixo), Dick Powell (bateria e percussão) e Dave Punshon (piano e piano elétrico). Outros músicos que marcaram presença no Abbey Road Studios, em Londres, foram Gaspar Lawal (congas, bongos, kabasa), Brent Carter (saxofone) e Harry Mier (oboé), além de um quarteto de violoncelistas composto por Peter Halling, Clive Anstee, Manny Fox e Boris Rickleman.

Com arranjos bem estruturados, a arquitetura sonora era moldada por uma cozinha robusta, passagens sutis e estilosas de teclados, riffs e frases precisas a cargo do guitarrista Alan Shacklock (que também fez os arranjos e escreveu boa parte das composições) e, claro, pelo poderoso e marcante vocal de Janita Haan. Seu canto, pode-se dizer, é algo próximo de uma mistura dos timbres vocais de Robert Plant e Janis Joplin. Um arraso!


O álbum abre com a faixa “Wells Fargo”, numa pegada hard rock mas com piano elétrico constante, intervenções maneiras de sax e um instrumental refinado que dá um revigorante aspecto jazzístico à composição. “The Runaways” tem estruturas harmônica e melódica de intensa beleza, realçadas por instrumentos de cordas, oboé e o piano elétrico de Punshon. Agora a voz expressiva de Janita Haan passeia em meio a uma balada mezzo folk, mezzo progressiva, com uma sonoridade que se assemelha aos conterrâneos do Renaissance. Nesta faixa primorosa, a bateria é pilotada por Jeff Allen. Encerrando o lado A do vinil, uma versão simples e honesta de “King Kong” – obra de Frank Zappa, gravada com o Mothers of Invention originalmente no álbum Lumpy Gravy (1968) e retomada com maior consistência no duplo Uncle Meat (1969). Um clássico zappiano gravado sem nenhum overdubbing ou qualquer tramóia eletrônica, conforme indica a contra-capa do disco. Grande homenagem ao mestre!


O lado B tem início com “Black Dog”, outra bela canção interpretada de forma sublime por Janita, que mais uma vez é muito bem assessorada por teclados, guitarra e uma condução rítmica impecável. Mas o maior destaque do álbum é a faixa “The Mexican”, trazendo à tona a clássica “Per Qualche Dollaro in Piu”, tema western spaghetti do compositor e maestro italiano Ennio Morricone, numa versão original e simplesmente espetacular. Não é exagero afirmar que esta é uma das minhas músicas prediletas em todos os tempos. Fechando o disco, “Joker” engatilha outro hard rock fulminante, com ótimos fraseados e riffs de guitarra, base percussiva animal e a voz contundente de Janita – aliás, bem parecida também com o timbre da vocalista Inga Rumpf, da banda alemã Frumpy. Sonzeira!

Apesar das críticas favoráveis na época de seu lançamento o álbum obteve pouco sucesso comercial na Grã-Bretanha, só alcançando relativo sucesso nos Estados Unidos e no Canadá.


A capa (com um desenho futurista que sugere uma partida de baseball em pleno espaço sideral ou, quem sabe, na escuridão do fundo do mar) tem a assinatura de ninguém menos que Roger Dean, o cultuado designer e ilustrador inglês, responsável pela criação de capas antológicas de álbuns do Yes, Uriah Heep, Budgie, Greenslade, Osibisa, Atomic Rooster e Asia, entre tantos outros grupos de respeito. É só a embalagem de uma obra indispensável para os amantes da boa música e item obrigatório numa coleção de respeito. Já tinha o CD velho de guerra e no começo do ano consegui o vinil original (made in Canadá) em excelente estado e por um preço pra lá de camarada. Tacada de mestre!

Discos Esquecidos: Target - Target (1976)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ***

Discos Esquecidos é a nova coluna da Collector´s Room, e nela falaremos de álbuns perdidos no tempo, conhecidos apenas por poucas pessoas e, muitas vezes, renegados até pelos seus próprios autores.

Então, tire a poeira da vitrola e venha nessa viagem pelo tempo com a gente!

O Target foi a primeira banda de Jimi Jamison, que ficou conhecido em todo o mundo quando esteve à frente do Survivor entre 1984 e 1989, um dos períodos de maior popularidade do grupo de Chicago, onde, embalados pela projeção da trilha do filme
Rocky IV, a banda conseguiu colocar o single "Burning Heart" no segundo posto da Billboard ("Eye of the Tiger" fez parte da trilha de Rocky III e foi incluída no disco com a trilha sonora da quarta aventura do personagem de Sylvester Stallone devido ao enorme sucesso que alcançou na terra do Tio Sam, chegando ao primeiro posto da Billboard. Aqui vale um lembrete: os vocais de "Eye of the Tiger", a canção mais famosa do Survivor, não são de Jimi Jamison, mas sim do vocalista original do grupo, David Bickler).

O som do Target é bastante diferente do hard rock de arena que o Survivor explorou quando Jamison esteve no grupo. Natural da região de Memphis, a banda fazia um hard bem direto e influenciado pelo southern rock, que naquela época vivia um período de grande exposição na mídia norte-americana, com o Lynyrd Skynyrd original à frente - só lembrando: o acidente que marcou a carreira dos pais do southern rock e tirou a vida do vocalista Ronnie Van Zandt e do guitarrista Steve Gaines aconteceria mais tarde, em 17 de outubro de 1977.

Nessa estreia do Target já se percebe o talento de Jimi Jamison, que canta com uma paixão arrebatadora, mostrando a técnica que desenvolveria mais tarde, até atingir o topo com o Survivor. Fica evidente também a atenção especial dada às guitarras de Paul Cannon e Buddy Davis, que duelam e arriscam até mesmo algumas harmonias com guitarras gêmeas na linha do Thin Lizzy e Wishbone Ash, mas, é claro, bem menos complexas.

Você vai ouvir no disco desde hardões como "Bad Boy" até momentos mais calmos, como a bela "Let Me Live", que foi lançada como single em 1976 e chegou até a dar certa projeção ao grupo. Outros boas faixas são "Just a Little to Much", "Can´t Fake It" (com um riff bem legal) e "Are You Ready" (outra que ganhou single).

O Target lançou mais um disco,
Captured, em 1977 (de onde saiu o single "It´s Only Love", daquele mesmo ano), e encerrou suas atividades em 1979. Até onde eu sei, os discos do grupo não ganharam versões em CD, mas eu posso estar enganado.

Jimi Jamison partiu para uma nova aventura, formando o Cobra, grupo que lançou apenas um LP, First Strike, em 1983, e logo depois foi para o Survivor fazer história.


Faixas:
A1. Love Just Won't Quit
A2. Bad Boy
A3. Let Me Live
A4. Just a Little Too Much
A5. Can't Fake It

B1. 99 ½
B2. You Need a Woman
B3. Let Me Down Easy
B4. Workin' Song
B5. Are You Ready

Line-up:
Jimi Jamison - Vocais
Paul Cannon - Guitarra
Buddy Davis - Guitarra
Tommy Cathey - Baixo
David Spain - Bateria

Álbuns:
Target (LP, A&M, SP 4607, 1976)
Captured (LP, A&M, SP 4652, 1977)

Singles:
Let Me Live (7" Vinyl, A&M, 1905, 1976)
Are You Ready (7" Vinyl, A&M, 1929, 1976)
It´s Only Love (7" Vinyl, A&M, 1995, 1977)

Podcast Collector´s Room#009


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Nova edição do podcast da Collector´s Room no ar.


Sugestões e dicas são sempre bem-vindas.

Deixem as suas opiniões nos comentários, e espero que vocês curtam-

Discoteca Básica Bizz#117: Richard Hell & the Voidoids - Blank Generation (1977)


(Arthur G. Couto Duarte, Bizz#117, abril de 1995)

Malcolm McLaren lhe deve
copyrights pela apropriação indébita de seu visual (roupas rasgadas, cabelos espetados, etc); os Sex Pistols, aquela fúria niilista que os inspiraria em "Pretty Vacant"; os punks, a atitude do it yourself e a autoria do anti-hino do movimento. Lógico que só podíamos estar falando de Richard Meyers, vulgo Richard Hell, misto de cantor e clown degenerado que incendiaria Nova York com seu coquetel molotov de guinchos epiléticos, sexo insano, poesia beat e rock'n'roll.

Dropout convicto, Hell fugiu de casa ainda garoto, amargando parte da sua adolescência em um reformatório. Em 1967, já no Village, o bairro boêmio da cidade, matava o tempo com quilos de ácido e revistas de poesia, que agitava junto aos amigos Patli Smith e Tom Verlaine. Aliás, foi a dobradinha rock e poesia que levou-o a se unir ao último no grupo The Neon Boys, em 1971, onde pode aprender rudimentos de baixo. O grupo não deu em nada, mas seus destroços dariam forma ao seminal Television.

Enciumado pelas performances do cara nos shows, Verlaine tratou logo de expurgar Hell e suas canções da banda. Unindo-se então ao ex-guitarrista dos New York Dolls, Johnny Thunders, nos Heartbreakers, Hell teve aí o trampolim necessário para mergulhar de cabeça nas ideias que iriam nortear seu próximo conjunto, com o nome de Richard Hell & The Voidoids.

Absurdamente originais, The Voidoids (título de um romance sobre criaturas vampirescas escrito por Hell) estrearam no CBGB's em 18 de novembro de 1976 provocando histeria. Numa época em que o stage diving ou mesmo o pogo sequer eram sonhados, lá estava aquele maluco despencando do palco, enquanto um baterista magricela (Marc Beel, ex-Dust e futuro Ramones), um guitarrista careca de terno (Robert Quine) e outro de cabelos pixaim afro (Ivan Julian) vertiam uma massa sonora fluida e contundente.

Se precisavam de um álibi para fazer jus aquele caos, este se materializaria via Blank Generation. Ouvido de estalo, as comparações com o interplay de guitarras do Television são inevitáveis, mas se percebe que os riffs de Quine e Julian são ainda mais abrasivos, violentos e zoados. Porém, o grande trunfo do disco é a autodestruição "com miolos" de Hell. Entre grunhidos e berros, suas visões pós-Burroughs o levaram a assinar atrocidades como "The Plan" (balada country punk sobre um pai tarado que cria a filha só para trepar com ela depois), "Betrayal Takes Two" (drive suicida versus pulsões libidinosas em levada de valsa!), "Another World" (pedofilia e tranvestismo num funky noise) e "Love Comes in Spurts" (onde jatos de porra são saudados com desconcertante lirismo).

O diagnóstico é seu: pura confusão mental ou um punhado de flagrantes do cotidiano de uma geração vazia.


Faixas:
A1. Love Comes in Spurts - 2:00
A2. Liars Beware - 2:49
A3. New Pleasure - 1:55
A4. Betrayal Takes Two - 3:34
A5. Down at the Rock and Roll Club (Alternate Version) - 4:02
A6. Who Says? - 2:04

B1. Blank Generation - 2:42
B2. Walking on the Water - 2:14
B3. The Plan - 3:53
B4. Another World - 8:11
B5. I'm Your Man - 2:52
B6. All the Way - 3:19

04/07/2009

Discoteca Básica Bizz#116: The Shadows - The Shadows (1961)


(René Ferri, Bizz#116, março de 1995)

Em julho de 1979 o jornalista inglês Peter Frame escreveu que o selo EMI deveria erigir uma estátua para Hank Marvin, "
o mais influente de todos os guitarristas". E o mote dele ainda continua valendo.

Marvin, tal como Jet Harris (baixo), Bruce Welch (segunda guitarra) e Tony Meeham (bateria), tocaram separados em grupos que foram parte da história do rock mais seminal feito na Inglaterra (Five Chesternuts, The Vipers) antes de se juntarem como The Shadows, a banda de apoio do cantor Cliff Richard.

Ao iniciar sua carreira independente de Richard com números instrumentais, o quarteto acertou em cheio, criando um estilo inteiramente original. A formação musical deles, bem como o lado visual, seguia um padrão próprio. E logo no segundo single - "Apache", editado em julho de 1960 - , chegaram ao topo e nunca mais ficaram fora das paradas. Somados seus hits àqueles em que acompanharam Richard, os Shadows detém um recorde impressionante de assiduidade nos charts ingleses, deixando para trás campeões como Elvis Presley e os Beatles.

The Shadows, seu primeiro álbum, foi lançado em setembro de 1961, quando o grupo ainda comemorava um segundo compacto a chegar no topo das paradas. "Kon Tik" também foi o quinto top#5 deles no intervalo de apenas um ano! Já o álbum tinha canções ("Shadooguie", "Blue Star", "Gonzales") que vieram a se tornar ogrigatórias no repertório daqueles inúmeros grupos que os imitavam.

E isso virou uma febre mundial. Em todos os cantos, os Shadows geraram uma quantidade incrível de imitadores. Os guitarristas não só copiavam o toque sutil de Marvin na Fender Stratocaster como - não raro - também botavam aqueles óculos de aros grossos para se assemelhar ainda mais ao seu ídolo.

Este álbum de estreia, com
liner notes de Cliff Richard, destaca o produtor e maestro/arranjador Norrie Paramor, que sempre gostava de acrescentar cordas aos temas dos Shadows.

Na época do lançamento do disco, Tony Meeham e Jet Harris deixaram o grupo. Harris, o bad boy do rock inglês, seguiu em uma carreira solo acidentada, traumática, com uma série de comebacks abortados e um romance de folhetim com Billie Davis.

Mas o legado de Hank Marvin e seus asseclas ainda permanece intocável. O universo musical britânico continua a ter uma dívida impagável para com o grupo The Shadows, os insuperáveis reis do rock´n´roll instrumental.


Faixas:
A1. Shadoogie
A2. Blue Star
A3. Nivram
A4. Baby My Heart
A5. See You in My Drums
A6. All My Sorrows
A7. Stand Up and Say That

B1. Gonzales
B2. Find Me a Golden Street
B3. Theme from A Filleted Place
B4. That's My Desire
B5. My Resistance Is Low
B6. Sleepwalk
B7. Big Boy

03/07/2009

Discoteca Básica Bizz#115: Fats Domino - My Blue Heaven: The Best of Fats Domino (1990)


(Paulo Cavalcanti, Bizz#115, fevereiro de 1995)

"
Bem, vocês chamam isso de rock'n'roll. Tenho tocado isso lá em New Orleans por cerca de dez anos e sempre disse que isso era rhythm'n'blues". Assim respondeu Fats Domino ao ser perguntado como surgiu o rock'n'roll. O cantor, compositor e pianista foi um dos principais responsáveis pela tremenda transfomação da música negra no novo ritmo consumido pela juventude.

Em termos de consumo, Fats Domino era mestre: o gordão foi simplesmente o terceiro maior artista em vendas na era de ouro do rock, só perdendo para Elvis Presley e Pat Boone, respectivamente em primeiro e segundo lugares. Entre 1949 e 1960, Fats chegou a lançar 23 singles, os quais conseguiram ultrapassar a marca de um milhão de cópias vendidas. O cara era um campeão!

Antoine "Fats" Domino nasceu em 10 de maio de 1929, em New Orleans. Ele logo cedo aprendeu a tocar piano e daí começou a fazer o circuito de clubes da cidade, onde se projetou rapidamente pelo seu balanço inconfundível. Em meados da década de quarenta veio a conhecer o bandleader, trompetista e também produtor Dave Bartholomew, com quem passou a ter uma parceria vitoriosa. Bartholomew conseguiu um contrato com a gravadora Imperial e passou a co-escrever e a arranjar todos os discos de Domino.

Em 1955 tudo estava preparado para o surgimento do rock'n'roll e Fats entrou com tudo, lançando a imortal canção "Ain't That a Shame". O pianista teve que enfrentar uma dura competição contra uma oportunista versão da mesma canção feita pelo crooner Pat Boone, um artista especializado em fazer covers de músicas de artistas negros.

Sem dúvida 1956 foi o grande ano para Fats. Emplacou nas paradas músicas do calibre de ''I'm Not in Love Again", "When My Dreamboat Comes Home" e - principalmente - "Blueberry Hill", um standard que já tinha sido sucesso com o cantor Gene Autry. Mas a versão que Domino fez para a canção tornou-se a definitiva e a mais conhecida, sem a menor dúvida.

Seu sucesso já era grande e continuou nos discos que ele gravou, em shows e no também no cinema. Domino chegou a aparecer em vários filmes, tais como
The Girl Can't Help It! (no Brasil Sabes o Que Quero, 1956), The Big Beat (1956), Shake, Rattle and Roll (1956) e outros.

Os Beatles foram os responsáveis pelo resgate de Fats Domino ao lançar, em 1968, "Lady Madonna", paródia assumida do estilo do pianista. Com isso, Domino passou a ser figura sempre constante e idolatrada nos espetáculos de revival do rock'n'roll e até hoje atrai as multidões fascinadas pelo charme dos seus velhos e imbatíveis clássicos.


Faixas:
1. My Blue Heaven - 2:05
2. The Fat Man - 2:35
3. Please Don't Leave Me - 2:30
4. Ain't It a Shame - 2:25
5. I'm in Love Again - 2:00
6. When My Dreamboat Comes Home - 2:12
7. Blueberry Hill - 2:14
8. Blue Monday - 2:25
9. I'm Walkin' - 2:12
10. Valley of Tears - 1:56
11. The Big Beat - 1:56
12. Yes, My Darling - 2:00
13. Whole Lotta Loving - 1:38
14. I'm Ready - 2:02
15. I'm Gonna Be a Wheel Someday - 2:02
16. I Want to Walk You Home - 2:15
17. Be My Guest - 2:00
18. Walking to New Orleans - 2:00
19. Let the Four Winds Blow - 2:02
20. What a Party - 1:51

02/07/2009

poeiraCast#014 no ar: as fases soul e funk de David Bowie


Por Bento Araújo
Colecionador e Jornalista
Poeira Zine

O poeiraCast, o podcast da revista
poeira Zine, dá uma geral no período soul e funk de David Bowie, dos álbuns Young Americans (1975) e Station to Station (1976).

Confira também uma discussão sobre um encontro histórico: Beatles e Elvis, em 1965!

O poeiraCast é um programa de bate papo, na verdade uma mesa redonda livre e direta sobre o assunto que a gente mais aprecia: música. Nele você encontra polêmicas, curiosidades, as famigeradas listas e bizarrices mil de seus grupos e artistas favoritos. Ajeite-se na poltrona e boa curtição!

Direção: Bento Araújo
Locução: Ricardo Alpendre
Produção: Bento Araújo, Sérgio Alpendre, José Damiano e Ricardo Alpendre
Edição: Xando Zupo (Overdrive Estúdio – email: xandozupo@gmail.com)

Dimmu Borgir - In Sorte Diaboli (2007)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ****

Após quatro anos sem lançar nenhum álbum com músicas inéditas (o último foi Death Cult Armageddon, de 2003), a expectativa por um novo trabalho dos noruegueses do Dimmu Borgir era enorme. O grupo sabia disso, e acredito que os fãs ficarão satisfeitos com o resultado final de In Sorte Diaboli.

Mais sinfônico já de saída, com a excelente “The Serpentine Offering”, o disco traz um Dimmu Borgir soando mais técnico, bastante sombrio e pesado, e bem menos teatral do que nos últimos anos. O foco de
In Sorte Diaboli está totalmente na música, e em se tratando de músicos do nível de Shagrath e Silenoz, esse pequeno detalhe faz uma enorme diferença.

A já citada “The Serpentine Offering”, que também é o primeiro single e possui um clipe fantástico, é um dos destaques do CD. Ao lado dela, faixas como “The Chosen Legacy”, “The Sacrilegious Scorn”, “The Sinister Awakening” e “The Foreshadowing Furnace” chamam a atenção de imediato, mas o som do Dimmu Borgir alcançou um nível de elaboração e uma riqueza sonora que, a cada audição do disco, essa lista muda.

Belos coros marcam presença em todo o álbum, realçando ainda mais o aspecto dramático e emocional das composições. Os teclados de Mustis ganharam mais espaço, reforçando o já citado aspecto sinfônico. Além disso, as guitarras de Silenoz e Galder derramam riffs inspirados, o que colabora para
In Sorte Diaboli ser um dos trabalhos mais pesados da carreira do grupo. Vale mencionar que Hellhammer, o lendário baterista que já fez parte do Mayhem e de inúmeros grupos de cena extrema norueguesa, toca no álbum, o que dá uma cara meio old school para algumas passagens.

Excelente, mais uma vez.


Faixas:
1. The Serpentine Offering - 5:09
2. The Chosen Legacy - 4:17
3. The Conspiracy Unfolds - 5:24
4. The Sacrilegious Scorn - 3:58
5. The Fallen Arises - 2:59
6. The Sinister Awakening - 5:09
7. The Fundamental Alienation - 5:17
8. The Invaluable Darkness - 4:44
9. The Foreshadowing Furnace - 5:49

Queens of the Stone Age - Era Vulgaris (2007)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Cotação: ***1/2

Bandas super badaladas pela crítica e pela mídia nunca me atraíram. Sei que isso pode parecer (e realmente é) uma atitude imatura, mas na maioria das vezes não consigo ver o que o mundo está vendo. É por isso que eu sempre tive uma má vontade com o Queens of the Stone Age.

Munido de todo esse preconceito, fui ouvir
Era Vulgaris, álbum lançado em 2007 pelo grupo do guitarrista Josh Homme. Pegando o CD na mão, e com as referências de grande fã de quadrinhos que sou, já fiquei com uma impressão positiva pela ótima arte da capa. Mas eu sou um velho que cresceu nos anos oitenta, onde a música ainda tinha mais importância que a imagem, então vamos parar de falar de penduricalhos e nos prender ao que realmente interessa.

Gostei de faixa de abertura, “Turning on the Screw”, com uma batida hipnotizante. “Sick Sick Sick”, primeiro single do disco e que conta com a participação de Julian Casablancas, vocalista dos superestimados Strokes (alguém poderia me dizer o que essa banda tem de mais pra ser tão incensada pela crítica? Hein???), é baseada em um riff de guitarra que se repete durante toda a sua execução. Legalzinha, mas não mais do que isso. Os experimentos continuam em “I´m Designer”, dona de um arranjo minimalista e vocais cheios de efeitos.

Minha mente atormentada por anos de falsas promessas musicais estalou com “Into the Hollow”, pequena gema pop construída sobre uma linha de baixo hipnótica. Classe A!!! Uma intro carregada de
noise dá início à “Misfit Love”, e nessa canção Josh Homme é o grande destaque, tanto por sua guitarra quanto pelo belo vocal. Depois de duas composições, estaria o Queens of the Stone Age conquistando esse velho rockeiro hortodoxo, criado a doses generosas de Black Sabbath, Deep Purplee Led Zeppelin?

Infelizmente, “Battery Acid” não conseguiu responder a pergunta. Deixo de lado a minha isenção ao avaliar o disco, porque é a típica canção que possui uma estrutura que me irrita, pessoalmente. Um clima alternativo que não me desce.

No outro oposto, “Make It Wit Chu” vem carregada de acento pop e um clima setentista que me fazem tomar o último gole da cerveja e pedir mais uma ao garçom (só pra constar, escrevo essa resenha sentado no aeroporto de Floripa, esperando um vôo que está só duas horas atrasado … neste meio tempo, nada melhor que um rock and roll pra passar o tempo).

Por um instante, o início de “3´s & 7´s” me trouxe à mente “Smells Like Teen Spirit”. A viajante “Suture Up Your Future” (ótimo título) vem carregada da melhor tradição setentista, de músicas cheias de experimentos, que ao vivo chegavam a ter o triplo de sua duração original.

A jornada chega ao fim com “Running Joke”, melancólica e lembrando Nick Cave e seus Bad Seeds. Ótimas linhas vocais de Josh Homme me transportam de um lado para o outro, enquanto os timbres de guitarra, baixo e bateria pegam meu corpo e me levam de volta no tempo, diretamente para o início dos anos setenta.

Esse velho rabugento ouviu, finalmente, um disco do Queens of the Stone Age de cabo a rabo. O saldo foi positivo. Tirando alguns cacoetes alternativos totalmente dispensáveis, o álbum é legal, perfeito pra ouvir com os amigos batendo papo e bebendo uma cerveja bem gelada.

Vamos lá, dou meu braço a torcer: ok, você venceu, batatas fritas …


Faixas:
1. Turnin' on the Screw - 5:17
2. Sick, Sick, Sick - 3:34
3. I'm Designer - 4:04
4. Into the Hollow - 3:42
5. Misfit Love - 5:40
6. Battery Acid - 4:06
7. Make It Wit Chu - 4:50
8. 3's & 7's - 3:34
9. Suture Up Your Future - 4:37
10. River in the Road - 3:20
11. Run, Pig, Run - 4:40