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09/11/2009

Minha Coleção: Dieter Dierks, proprietário da loja Rare Vinyl Online


Por Mairon Machado
Colecionador

Dieter Dierks é o dono da loja Rare Vinyl Online, especializada em vendas de LPs, ao mesmo tempo que também possui um sistema de vendas online para livros, o CPG Books. Morador da cidade de Wohltorf - Alemanha, Dieter nos conta um pouco sobre sua relação com a música e mostra algumas das preciosidades de sua coleção.

Visão parcial da coleção

Dieter, antes de tudo obrigado por participar da Collector´s Room. Conte para nós um pouco sobre você.

Eu cresci na parte pobre da sociedade alemã dos anos 50, sendo o mais novo de trêd irmãos. Meus pais eram refugiados de guerra e, como muitos de minha geração, tive educação em escola secundária, com exames finais e treinamentos em agências de viagens, praticando durante muitos anos, principalmente no negócio de importação e exportação, enquanto realizava trabalhos independentes. Minha vida não foi definida através do trabalho, e eu tenho um grande orgulho de ser bem-humorado.

Há quantos anos você tem a sua coleção de LPs?

Desde minha juventude, aproximadamente 30 anos,o que torna a coleção bastante extensa.

Quando você descobriu que havia se tornado um colecionador?

Eu nunca pensei em ser um colecionador. Isto aconteceu. Assim como para meus amigos, isto é parte de nossas vidas!

Quantos LPs você tem?

Atualmente o estoque deve estar em cerca de 1.500 LPs. Não tenho feito um inventário nos últimos anos.

Qual o principal artista ou grupo em sua coleção? Quantos LPs/CDs deste artista você possui?

Tenho muitos artistas: Miles Davis, Jimi Hendrix, Doors, Weather Report, Can, Led Zeppelin, Grand Funk Railroad, Embryo, Jethro Tull, King Crimson, Emerson, Lake & Palmer, War (Eric Burdon), Rolling Stones e muito mais. Para cada um deles tenho em torno de 10, 20 LPs.

Conte-nos sobre algum show que você teha visto ou artista que tenha conhecido.

Eu estive em muitos concertos em minha vida, mas o mais impressionante foi o do grupo Aera (jazz rock alemão) em Porta Westfalica. Este show foi acompanhado por dois comedores de fogo, em uma atmosfera super relaxante. E eu assisti ainda Jimi Hendrix na Isle of Man e Crazy World of Arthur Brown.

Qual o primeiro LP que você comprou e por que?

Os primeiros foram Pop History, de Jimi Hendrix, e In Rock, do Deep Purple. Estes eram os meus favoritos absolutos no elegante, duro e dinâmico mundo do rock da época.

Como você organiza a sua coleção?

Em ordem alfabética.

Quantos LPs você compra por mês?

Não tenho uma quantidade permanente, mas varia de nenhum a até 20 LPs por mês.

Você tem algum LP que ninguém pode tocar, só você?

Eu não diria "ninguém pode tocar", mas meus especiais são raridades, como Niagara, as versões japonesas de Jimi Hendrix e bootlegs desejados como Sky Saxon, Frank Zappa. Se perdê-los, certamente não os encontrarei mais.

Qual o LP mais raro que você possui?

Não tenho certeza, mas talvez o My Solid Ground, Kin Ping Meh ou Niagara.

Qual o item mais difícil que você comprou?

Niagara/Afire e a primeira prensagem feita pela Philips do Lucifer Friend - em condições muito precárias. Ainda procuro uma versão melhor.

E o mais estranho?

Meus amigos ficam atônitos com minha paixão pelo flamenco, por exemplo Paco de Lucia e Al Di Meola, e o rock clássico de Nice, Focus e outros.

Sua coleção tem um fim? Qual o limite da mesma?

Como a maioria dos colecionadores, eu ainda tenho uma lista de desejos que irá continuar também no futuro, limitada ao rock, beat e jazz dos anos 60/70.

Você tem esposa? Como seus amigos vêem sua coleção e sua paixão pela música?

Eu vivo sozinho, mas quando tive namorada o pensamento sobre música era um pouco diferente. As mulheres preferem músicas mais leves, ou de fácil audição, e eu tive portanto caminhos separados na música.

Algumas raridades da coleção de Dieter

Sobre o Krautrock, quais suas bandas favoritas?


Can, desde o final dos 60 até o começo dos 70. Depois Niagara, Organization, Neu, Lucifer's Friend, Kraftwerk, Frumpy,Embryo, Missus Beastley, Doldinger/Motherhood & Passport, Birth Control, Guru Guru, Kraan, Thrice Mice, ...

O Krautrock ainda é muito ouvido pelos jovens alemães atualmente?

O Krautrock perdeu seu espaço como música de rock, como fôra nos anos 70. É preciso tempo para os jovens alemães tornarem a ouvir esse tipo de som.

Quando você começou a vender LPs?

Há 3-4 anos atrás tive uma experiência junto com um amigo, e decidi investir nisso atualmente.

Como anda o negócio da música, falando sobre compra e venda de LPs, na Alemanha e na Europa?

Os negócios andam fracos. A maioria das prensagens originais estão em coleções privadas, e as prensagens posteriores ou relançamentos não são muito interessantes para os colecionadores, nem na Alemanha nem na Europa. E claro, não esqueçamos que a geração beat e rock torna-se cada vez mais velha, significando que, biologicamente, com o tempo estas coleções poderão ser esquecidas em 10 ou 20 anos.

Existem muitas fábricas de LPs na Alemanha?

Pelo que sei, a última fábrica na Alemanha é a Pallas, em Diepholz. Contudo, Existe outra na parte oriental da Alemanha.

O último LP comprado

Qual o último LP que você comprou?

Tanto para coleção como para a loja, o último foi o Count on Dracula, do Birth Control.

Como você vê o download de músicas na internet, e também sites como o RapidShare?

SEM DOWNLOADS DE MÚSICA! A qualidade é horrível, sem comparação com o grande som do vinil. Nunca irei entender esse tipo de pensamento, mesmo as pessoas sendo de outra geração, sem demandas de ter qualidade. Porém, a internet é uma fonte fantástica de informação sobre música

E sobre livros, qual seu assunto favorito? Você tem uma coleção destes também?

Sim, mas não pontualmente em música. Gosto de Jean Paul Satre, Friedrich Duerrenmatt, Edgar Allan Poe, Heinrich Boell, e milhares de outros, teria que ter muito tempo para nomeá-los

No site da sua loja encontramos raridades como Jeronimo, Can, muitos bootlegs e compactos de Rolling Stones, Beatles, ... Existe algo que você nunca encontrou à venda?

Ainda hoje o Monster Movie on Factory (Can), Tipps Zum Selbtmord (Necronomicon) ou Jeronimo (Jeronimo) podem ser encontrados, mas isto é muito caro. Portanto, encontrar se encontra, mas a exigência nos bolsos é um pouco pesada.

Tem algum LP que, após você ter colocado à venda, você desistiu e levou de volta para sua coleção e nunca mais vendeu?

A princípio não, mas sei de algumas pessoas que fizeram isto. Não é o meu mundo.

Jogo rápido agora: Dio ou Ozzy?

Ozzy.

Di'Anno ou Dickinson?

Dickinson.

Beatles ou Stones?

Ambos são meus favoritos!

Gillan ou Coverdale?

Gillan.

Woodstock ou Monterrey?

Woodstock.

Waters ou Gilmour?

Gilmour.

Obama ou Osama?

Obama, mas o mundo precisa de um Osama por tempo limitado.

Futebol ou cerveja?

Você pode uni-los.

LP ou CD?

Vinil para sempre.

Top #10 dos melhores álbuns de todos os tempos?

Para mim não existe um top#10. É difícil citar apenas dez álbuns.

Qual tipo de som você não ouve em sua casa?

Hip-hop, rap, bandas alemãs tradicionais (Schlager e similares). Isto não é música!

Existe algo que você comprou apenas para terminar uma coleção?

Nunca terminarei minhas coleções ...

Cite 5 álbuns para uma pessoa que esteja começando a ouvir música.

Sgt Pepper's (Beatles), Them (Them), Aqualung (Jethro Tull), Time is the Key (Gong) e Sweetnighter (Weather Report).

Dieter, obrigado pelas respostas e espero que tenha gostado de participar da Collector´s Room.

Obrigado e espero ter colaborado para o site. Saudações a todos!

Coletivo Vinil é Arte mantém vivo o culto ao vinil


Por Guilherme Arêas
Jornalista
(publicado originalmente no site Acessa.com)

Quando os compact discs (CDs) se popularizaram em todo o mundo, na década de 1990, os consumidores da música apostaram que os long plays (LPs), ou vinis, entrariam rapidamente para o hall das peças de museu. Com a invasão dos formatos MP3 na rede mundial de computadores, os bolachões pretos pareciam estar sepultados de vez. Mas, na contramão de toda a evolução tecnológica que envolve o mundo da música, os vinis estão de volta com força total. Em Juiz de Fora, uma turma não abre mão de usufruir as vantagens que o formato oferece.

Através do grupo
Vinil é Arte, o discotecário Pedro Henrique Paiva tenta manter viva a memória e as atividades com os vinis. Ele e os outros três integrantes do projeto tocam em festas, eventos e festivais, sempre utilizando LPs raros de músicos das décadas de 50, 60 e 70. A coleção de vinis faz parte de uma grande pesquisa sobre o formato, mas a quantidade já não cabe mais nas contas. "Devo ter mais do que dois mil e menos do que quatro mil discos", brinca.

A paixão e o uso profissional dos vinis ele reconhece que vêm com o tempo, através das primeiras coleções herdadas dos pais. Hoje, o ideal do grupo é fazer com que as pessoas dancem músicas que elas não conhecem ou, pelo menos, não ouviam há muito tempo. "
Hoje em dia ouvir música é uma coisa muito prática. Os aparelhos pequenos permitem que você leve o seu som para todos os lugares. O vinil exige mais. Além de gastar tempo e dinheiro comprando os discos, você tem que cuidar, passar um pano seco antes de ouvir. Depois de ouvir um lado, tem que virar o disco. Existe todo um ritual."

Sobre a qualidade do som do vinil, Pedro prefere não entrar nas questões técnicas que comparam as mídias. A proposta dos DJs - ou discotecários, como alguns preferem ser chamados -, não é contrapor os formatos, mas fazer com que cada um tenha o seu espaço. Porém, ele afirma que os profissionais que realmente apreciam a música preferem o som do vinil. "
Muitos CDs que eu comprei em 1991 já estragaram em dez anos de uso", completa.

O formato também é a preferência do DJ juizforano Luiz Valente, apaixonado pelos discos dos anos 90. Para ele, a qualidade do som também é uma questão relativa. "
Isso depende da relação da pessoa com a música. O público em geral não costuma focar nesse mérito da comparação da qualidade", avalia.

As primeiras coleções viraram instrumentos de trabalho, e para resgatar gravações no formado LP e dar a oportunidade para que novas bandas tenham seus registros musicais nos bolachões, Luiz criou seu próprio selo, a Vinil Land. A prensagem dos vinis é feita na Alemanha, país em que vive boa parte do ano. Mas os DJs e produtores esperam com ansiedade a reativação da Polysom, a última fábrica de discos de vinil no Brasil, localizada no Rio de Janeiro. A proposta é de reativar a demanda por lançamentos no formato, que é o ideal para o uso dos DJs e importante dentro da história musical brasileira.

"
Hoje, acumular músicas é muito fácil, porque você baixa da internet. Mas muitas vezes você acumula tanta música que nem tem tempo para ouvir. O vinil exige um trabalho maior. Mas é impraticável o vinil voltar a ser produzido e consumido como era antes. A produção vai atingir um nicho muito específico de pessoas que gostam e que trabalham com música. Mas é importante ter essa retomada", avalia Luiz.

Enquanto a produção em larga escala não volta a ser realidade no país, os produtores recorrem a uma verdadeira garimpagem nos sebos. Na maior loja de discos usados de Juiz de Fora, o proprietário acredita ter entre 30 e 40 mil vinis no acervo. "
A procura é muito grande e tem aumentado cada vez mais", confirma João Roberto de Almeida.

O preço representa um grande enigma para os colecionadores e produtores que trabalham com o formato. "
O mesmo disco que você encontra por R$ 100 na loja, é vendido a R$ 1 na feira", constata Pedro. Em Juiz de Fora, o preço de um vinil antigo pode variar de R$ 1 a R$ 300. Porém, há registros de verdadeiras raridades da música que podem chegar a custar R$ 3 mil.

O vinil não tem um preço definido por uma série de motivos. Um deles é o desconhecimento sobre a raridade dos discos. Com a ascensão dos CDs, muitas famílias fizeram doações em massa dos bolachões, fazendo com que muito material fosse perdido ou comprado por colecionadores estrangeiros.

No exterior, apesar da visível queda do consumo, a produção do vinil não chegou a desaparecer, como no Brasil. "
No fim dos anos 90, a indústria da música começou a vender a ideia de que o CD era uma revolução e que o vinil era coisa do passado. Até 1996, a produção e a qualidade dos vinis caíram muito. As empresas não perceberam que ainda havia público para o vinil. A partir de 96 você não acha nada de música brasileira gravada nesse formato", lamenta Luiz.

O acompanhante alemão dos Beatles


Por Maurício Rigotto
Colecionador e Escritor
Collector´s Room

Um nome bastante familiar para quem é fã dos Beatles – os verdadeiros, não os de ocasião – é do alemão Klaus Voorman.

No início dos anos sessenta, um quinteto ainda desconhecido de Liverpool formado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Stuart Sutcliffe e Pete Best é contratado para algumas apresentações no Star Club, em Hamburgo. Na Alemanha conhecem Klaus Voorman, um artista plástico e contrabaixista de um grupo folk, e logo se estabelecem fortes laços de amizade entre eles.

Stuart Sutcliffe se apaixona e começa a namorar Astrid Kirchherr, uma jovem fotógrafa que registrou a passagem do grupo pelo local. Stuart resolve deixar a banda e não retornar à Inglaterra, incentivado por Klaus a tentar carreira como pintor expressionista abstrato. Stuart Sutcliffe morreu alguns meses depois, aos 21 anos, vítima de uma hemorragia cerebral. Quando os Beatles retornaram a Hamburgo, em 1962, reduzidos a um quarteto e já com Ringo Starr no lugar de Pete Best, encontraram o amigo Klaus Voorman casado com Astrid.


No final de 1965, John Lennon e George Harrison chamaram Klaus para executar o que se tornaria o seu mais famoso trabalho, a capa do álbum Revolver dos Beatles. Desde então Klaus se fixou na Inglaterra e frequentemente era visto na companhia dos Beatles. Klaus fez a capa do primeiro álbum dos Bee Gees e trabalhou como músico acompanhante de vários artistas, inclusive tocando contrabaixo de 1966 a 1969 na banda Manfred Mann, que nessa época alcançou o seu maior sucesso comercial com a canção "The Mighty Quinn", uma cover de Bob Dylan.

Quando os Beatles se separaram, os remanescentes resolveram formar uma nova banda chamada The Ladders, que contaria com John, George, Ringo, Klaus no lugar de Paul e Billy Preston nos teclados. A idéia foi logo abandonada, mas Klaus Voorman seguiu acompanhando os ex-Beatles em suas carreiras solo, tocando contrabaixo nos discos de John, George e Ringo. Klaus também gravou com Lou Reed, James Taylor, Harry Nilsson, Carly Simon e outros. Ele pode ser visto ao lado de John Lennon e Eric Clapton no vídeo John Lennon Plastic Ono Band Live in Toronto 1969 e ao lado de George Harrison no famoso Concert for Bangladesh.


Em 1973, além de tocar baixo no disco de Ringo Starr, desenhou todas as litogravuras que ilustram o livreto que acompanha o disco, um dos mais belos encartes já feitos para um vinil. Neste disco, há uma faixa executada por John, George, Ringo, Klaus e Billy Preston, o que nos dá uma ideia do que teria sido a banda The Ladders.

Em 2002 Klaus Voorman participou do Concert for George, uma grande homenagem dos amigos ao Beatle que falecera.

Recentemente, em 2009, Klaus Voorman completou setenta anos. O alemão perguntou a sua esposa o que fariam para comemorar o seu septuagésimo aniversário e ela sugeriu: "
Você passou a vida sendo acompanhante nos discos dos outros, que tal gravar o seu próprio disco?". Klaus acatou a sugestão e lança agora o seu primeiro álbum solo, chamado A Sideman’s Journey (A viagem do acompanhante), recheado de convidados que fizeram parte de sua trajetória.


A Sideman’s Journey já abre com Paul McCartney cantando "I’m in Love Again", que traz ainda Ringo Starr na bateria e Joe Walsh (James Gang/Eagles) na guitarra. O próximo convidado é Don Preston, outro amigo das antigas que tocava nos Mothers of Invention de Frank Zappa e que também participou do Concert for Bangladesh. Don canta o clássico de Carl Perkins "Blue Suede Shoes", e também "Short People".

Yusuf Islan, o artista que antes de se converter ao islamismo era conhecido por Cat Stevens, gravou ao lado de Voorman duas canções de George Harrison, a conhecida "All Things Must Past" e "The Day the World Gets Round". Ambas as canções tiveram Klaus Voorman no baixo nas gravações originais do ex-Beatle. Outra canção de George Harrison, "My Sweet Lord", aparece na voz da cantora Bonnie Bramlett, que nos anos 60/70 fazia dupla com seu ex-marido Delaney Bramlett (falecido em 2008).

A banda The Manfreds, formada por membros remanescentes do Manfred Mann, faz ao lado de Voorman uma boa releitura para o hit "The Mighty Quinn". O disco encerra com o pianista Dr John interpretando o seu clássico "Such a Night".

Trata-se de um álbum com sabor de festa e celebração do início ao fim, e que não merece passar desapercebido pelos amantes do bom rock and roll. A capa ainda traz uma linda ilustração desse artista multimídia, o acompanhante alemão Klaus Voorman.

With a little help from his friends!

Discoteca Básica Bizz#202: Chet Baker - Chet Baker Sings (1954)


(Zuza Homem de Mello, Bizz#202, junho de 2006)

Baker já era a maior revelação do trompete jazzista quando saiu
Chet Baker Sings. Nem por isso a crítica foi condescendente: malhou com gosto aquela sua maneira surpreendentemente frágil de interpretar canções sagradas do American Songbook como "But Not for Me" ou "My Funny Valentine". Afinal, o padrão de cantor americano era solidamente calcado na voz máscula de Frank Sinatra ou do mais-que-viril barítono Billy Eckstine, e procedente de um jazz em que o grande intérprete continuava sendo Louis Armstrong com seus scats roufenhos.

Como admitir aquele fio de voz, tímida, que mais parecia a de uma moça cantando? Considerada afrescalhada, a voz de Chet Baker encantou o universo gay dos EUA. E quem melhor soube explicar o novo conceito de sua interpretação não foram os críticos - foi a também cantora Ruth Young, sua namorada por dez anos: "Quando Chet cantava, as palavras para ele eram notas musicais".

Nem sua carreira de trompetista (que, em menos de um ano, atropelara os maiores músicos da época) nem sua vida trepidante (de envolvimento com fãs que se derretiam pelo lindo rosto retangular de galã de cinema em velozes Cadillac rabo-de-peixe) estavam refletidas na capa do LP de 10 polegadas da Pacific Jazz, a etiqueta por excelência do jazz da Costa Oeste. Na foto, clicada pelo jovem William Claxton, Baker vestia uma simples camiseta branca e estava cantando de boca semi-aberta diante do microfone. A nebulosidade da imagem tinha tudo a ver com o vocal esmaecido e sofisticado de Chet Baker, que deixava no ar uma ambiguidade sexual - o máximo que muita gente foi capaz de compreender daquele LP.

Baker cantava como se estivesse tocando: delicadamente, sem alongar as notas. Como o som de seu trompete, em que evitava os agudos, sua voz não tinha potência, era seca, mas enfatizava magicamente o lirismo de uma canção. Sua interpretação era econômica, lisa, atacava e percorria cada nota com emoção controlada, sem um pingo de trinado. Senza vibrato - era a essência do cool jazz.

Da mesma forma, quando o inegável precursor do cool jazz, Lester Young, surgiu na big band de Count Basie, nos anos 30, o padrão de saxofone era o som bojudo de Coleman Hawkins. Young, por causa de seu som gentil, foi taxado de afeminado, outra sina do cool jazz. Contudo, mesmo quando mal aceitos, Young, Miles e Baker deixaram um marco no jazz e na música americana. A proclamada frieza de suas interpretações propôs uma nova estética.

Dois anos depois, em julho de 1956, Chet Baker voltou ao estúdio com o mesmo pianista Russ Freeman para gravar mais seis canções, que seriam anexadas às oito de 1954 para completar um vinil de 12 polegadas com o mesmo título.

Dificilmente em outro país que não o Brasil, Chet Baker Sings teria tido consequências tão revolucionárias. Os garotos cariocas que ansiavam pela modernidade na música brasileira ouviam-no como num culto. O baiano João Gilberto, que cantava como seu ídolo Orlando Silva, percebeu que a nova estética era o que ele buscava. Nada do que Elizeth Cardoso cantou em "Chega de Saudade", com ele ao violão. Em 1958, ao chegar sua vez de gravar a música, o canto era outro. João cantava seco, sem alongar as notas, enfatizava o lirismo; sua interpretação era lisa, econômica, sem vibrato. Foi, adivinhe, tachado de afeminado. E, assim, nasceu a bossa nova.


Faixas:
A1 But Not for Me
A2 Time After Time
A3 My Funny Valentine
A4 I Fall in Love Too Easily

B1 I Get Along Without You Very Well
B2 There Will Never Be Another You
B3 The Thrill Is Gone
B4 Look for the Silver Lining

06/11/2009

Editor da Collector´s Room estreia na Uno Web TV


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

O
Prateleira é um bloco do programa Estúdio A, da Uno Web TV, emissora da Unochapecó, universidade de Chapecó (SC). Nele, o editor da Collector´s Room e crítico musical Ricardo Seelig dá dicas sobre música e discos.





O programa é semanal, e sempre que novos episódios forem ao ar eles serão postados aqui.

Deixe a sua opinião sobre o programa nos comentários!

Baú do Mairon: Deep Purple - Mark III


Por Mairon Machado
Colecionador
Collector´s Room

E os anos se passaram. Ritchie Blackmore finalmente tinha um vocalista gritando no palco tal qual Robert Plant fazia no Led Zeppelin (o que comprova a importância do Led até para as principais bandas do ramo). Porém, o mar de rosas começou a sugar o barco purpleano durante as gravações de Who Do You Think We Are?. Blackmore e Ian Gillan começavam a se desentender cada vez mais, tanto que Gillan chegou a compor uma música do disco especialmente para o guitarrista: "Smooth Dancer".

No primeiro semestre de 1973 o clima de stress entre os dois chega ao auge. Gillan passa a beber demais, o que o levava a discussões coléricas e chiliquentas nos mais variados lugares (hotéis, camarins, restaurantes, aviões, ...), anunciando aos empresários que, após a excursão ao Japão, em junho daquele ano, pularia fora do barco.

29 de junho de 1973 se tornaria uma das datas mais importantes para o rock mundial. Ali, um grande grupo, com seguidores por todo o mundo, contando com uma formação brilhante e que lançara álbuns incrivelmente fantásticos, lotando casas de shows e mostrando uma competência no palco impecável, caía às ruínas. Durante o show de Osaka, Ian Gillan anunciava ao mundo que aquele era o último show do Deep Purple com ele, inclusive negando-se a cantar um dos principais versos de "Smoke on the Water", o que fala exatamente sobre que "
não importa o que possamos tirar disso".

A saída de Ian Gillan chocou a todos, menos Blackmore, que ainda sugeriu a Roger Glover para que o mesmo saísse da banda. E foi o que ele fez, se dedicando a produção de novos talentos (entre eles, Nazareth e Judas Priest) na gravadora do Purple - Purple Records -, além de produzir seu próprio álbum,
The Butterfly Ball, enquanto Gillan foi trabalhar no ramo da hotelaria e também desenvolvendo competição de motos.

As especulações em torno do novo vocalista surgiam com nomes como Paul Rodgers e Phyl Lynott. Na verdade, o trio Lord/Blakmore/Paice já estava de olho em um jovem talento que surgia no power trio Trapeze. Assim, partem para acompanhar a turnê americana do grupo, onde em Nova York oferecem a proposta para Glenn Hughes ser o novo baixista do Deep Purple. Hughes aceitou a proposta com uma condição: metade das músicas deveriam conter vocalizações suas.

Próximo passo: encontrar um vocalista fixo. Para isso, um novo anúncio foi colocado nos jornais, de onde surgem milhares de candidatos, entre eles um dos líderes da The Fabulosa Brothers, David Coverdale. O contato de Coverdale com o Purple ocorreu através de um management muito salafrário chamado Roger Baker, que conseguiu o telefone de contato da Purple Records e informou que naquela semana enviaria uma fita da The Fabulosa Brothers para ser conferida.

Três semanas após a audição da tal fita, que contava com uma foto de Coverdale ainda escoteiro, o cantor foi chamado para uma audição, com a confirmação do mesmo como novo vocalista do Deep Purple ocorrendo em setembro, ao mesmo tempo que Hughes se despedia do Trapeze. No mesmo mês começam a compor para o novo álbum.

A nova formação sobe ao palco pela primeira vez novamente na Dinamarca, desta vez em Copenhagem, no dia 09 de dezembro de 1973, onde também gravaram uma faixa instrumental, "Coronarias Redig", que virou lado B de "Might Jut Take Your Life" e pode ser conferida na coletânea
Anthology de 1985. Até 17 de dezembro ainda passam por Suécia, Bélgica, Áustria e Alemanha.

No ano seguinte dão sequência à turnê com shows na França e Alemanha no mês de janeiro, mostrando que, apesar de
Burn ter sido considerado um álbum leve, no palco o bicho pegava pra valer, com muitos solos e, principalmente, apresentações insanas e ferozes de Paice, Blackmore, Hughes e Lord, notabilizando que a entrada de Coverdale e Hughes tinha dado um gás novo para o quinteto, assim como a parada para a reestruturação do Purple aumentou o contato de Blackmore com a guitarra, permitindo aumentar sua técnica e variar entre momentos rápidos e trechos celestiais.

Burn marca a estreia em LP da Mark III

Burn chegou às lojas inglesas em fevereiro de 1974, e na América no mês seguinte. Um álbum fantástico, que mesmo com o início elétrico trazia uma sonoridade muito diferente da Mark II. Como citado, o LP começa com um dos principais riffs do rock mundial introduzindo a faixa-título. O potente vocal de David Coverdale surge para o mundo, com Glenn Hughes auxiliando em diferentes estrofes. Blackmore faz um de seus solos mais vibrantes, seguido pelo solo de Lord. O pique de "Burn" é incompreensível, com Hughes e Paice mantendo a cadência durante exatos 6 minutos de muito agito e quebração de pescoço.

A seguir o clima muda com "Might Just Take Your Life", uma prova de democracia purpleana. Mais um riff inesquecível no Hammond de Jon Lord introduz a voz de Coverdale na primeira parte da letra, aliás uma das melhores do Purple, seguido do refrão. A sequência de alternância de vocais é fantástica, com Hughes dando um balanço e malemolência simplesmente fenomenais. A faixa encerra com um solo de Lord sob os vocais de Hughes e Coverdale. Perfeição pura!!!

A pancadaria retorna em "Lay Down Stay Down", em um pique parecido com o de "Burn". Aqui os destaques são o piano de Lord e as viradas de Paice, bem como o riff executado por Blackmore e Hughes. Coverdale canta a primeira parte da letra e Hughes a segunda, com o mesmo ocorrendo no refrão, outra prova da incrível harmonia vocal construída pelos dois.

O lado A encerra com "Sail Away", uma canção dançante, onde novamente a divisão de vocais funciona, e bem. Para os fãs da Mark II talvez essa faixa não seja das melhores, mas para um apreciador de música em geral o ritmo dançante e as melodias de Blackmore e Lord são muito boas.

O lado B inicia como o lado A. Muito pique e vibração fazem parte de "You Fool No One" (a primeira música do Purple que ouvi em minha vida). Pouco a pouco os instrumentos vão sendo acrescidos à canção. Ian Paice apresenta seu braço esquerdo, quase quebrando o prato, seguido de Blackmore, Hughes e finalmente Lord, que constróem um riff matador, com Coverdale e Hughes cantando juntos. Novamente Blackmore brilha em dois grandes solos, fazendo desta mais uma obra-prima.

A alternância de sonoridades já havia ficado marcada no álbum, e a faixa seguinte é a dançante "What's Goin' on Here", talvez a mais parecida com as músicas do Trapeze. Cheia de overdubs, a introdução na guitarra de Blackmore dá espaço para as harmonias vocais funcionarem. Coverdale e Hughes cantam cada um uma frase da letra, com ambos dividindo os vocais no refrão. O solo de Blackmore é simples e direto, com Lord delirando ao piano, o que é muito legal, principalmente por fugir do habitual uso de Hammond.

A seguir uma das baladas mais lindas da história do rock, "Mistreated". Composta ainda nos tempos em que o grupo estava procurando por um vocalista para substituir Ian Gillan, quando pronta se tornou uma pérola, iniciando com o magistral riff de Blackmore acompanhado pelo bumbo de Paice. Hughes e Lord precisam de apenas duas notas para desconstruir a música, e assim, Coverdale rasgar a garganta com o "
I've been mistreated ...", acompanhado pelo blues arrastado e sôfrego que deixou muito cabeludo chorando pelos cantos.

Finalmente Blackmore conseguia um vocalista para soar igual a Robert Plant, e Coverdale esbanja "
baby, baby" e "oh, woman" para tudo que é lado, mas de forma totalmente emocionante, principalmente pelo arranjo feito por Blackmore. Única canção do disco que é cantada somente por Coverdale, tem em seu encerramento o momento derradeiro, com Hughes e Coverdale dividindo as vocalizações no crescendo final, enquanto Blackmore sola como se fosse o último momento de sua vida. Coverdale encerra a canção sozinho e dizendo apenas que "I've been losing my mind". Divino!!

O álbum encerra com a instrumental "A-200", onde Lord brinca no sintetizador acompanhado pela marcha de Paice e Hughes. Blackmore mostra suas armas sobre o mesmo acompanhamento, mas o destaque maior vai realmente para Lord, que parece um garoto executando o tema principal e viajando em longas notas no Moog e no sintetizador. Detalhe importante: o nome da faixa se deu em homenagem a uma pomada americana usada para matar chatos (aquele piolho que gruda na virilha).

Com o lançamento de
Burn nos EUA, ocorre também o retorno da banda à terra do Tio Sam, tocando em Detroit no dia 03 de março. Já em o6 de abril ocorre um dos fatos mais marcantes de toda a carreira do Purple. Assim como o incidente no hotel de Montreux que gerou "Smoke on the Water", a participação no California Jam é lembrada por muitos como o último grande momento de Blackmore à frente do grupo.

Ritchie Blackmore e seu amigo camera man

Aqui vale um aparte. A história do
California Jam tem suas origens com o fracasso financeiro de Woodstock. Os promotores Sandy Feldman e Lenny Stogen viram na organização de um festival de rock ao ar livre uma forma de se ganhar dinheiro com a música. Assim, levaram a ideia para a rede de TV ABC, que se interessou na hora com o projeto, afim de levar a cabo um programa de TV chamado In Concert, e conseguindo um patrocínio da Goodyear para a realização do evento.

Com o contrato na mão saíram atrás de grandes nomes da música e que não tocavam nos EUA há algum tempo. Daí surgem Black Sabbath, Seals & Croft, The Eagles, Black Oak Arkansas, Rare Earth, Earth Wind & Fire, o próprio Purple e o Emerson Lake & Palmer, que encerraria o festival.

Dois palcos móveis foram montados na arena do Ontario Motor Speedway, em Ontario, California, tendo ao fundo um gigantesco arco-íris de madeira, que deu nome a outra grande banda ligada ao Purple. Duzentas mil pessoas apareceram no local, que contou com uma excelente infra-estrutura e um belo dia de sol (diferente do que ocorrera em
Woodstock), com os lucros beirando os 2 milhões de dólares.

Uma das expectativas para o evento realmente era a apresentação da nova formação do Deep Purple, que já vinha sendo bastante comentada nos veículos musicais, principalmente pelo fato de Blackmore vir costumeiramente quebrando sua guitarra, com um dos agentes da emissora, Josh Wishe, exigindo que, quando fizesse tal atitude, Blackmore viesse a favorecer as imagens das câmeras.

Tudo corria tão bem que, às 18:30, os promotores perceberam que o evento iria acabar mais cedo. O sol raiava quando os bastidores começaram a pegar fogo. Sendo a atração principal, o Purple estava programado para entrar no palco às 19:30, já sem nenhuma luz natural, para finalmente o ELP encerrar o show por volta das 22:00. Porém, como as apresentações antes do Purple acabaram mais cedo, os promotores tentaram obrigar o grupo a se apresentar antes, ameaçando de diversas formas, inclusive de não pagar o fabuloso cachê de 75 mil dólares e mais parte de bilheteria, com o total sendo de 200 mil doletas.

Blackmore recusou na hora, alegando que iria tocar apenas às 19:30. Indignado, o promotor começou a contar até trinta, enquanto Blackmore calmamente afinava sua guitarra. Vendo que não adiantava nada, correu atrás dos demais integrantes, convencendo Lord a tentar falar com Blackmore. Segundo o próprio Blackmore, "
Lord veio até a mim e disse para eu ir tocar pelo resto do grupo, e eu prontamente disse que não, e que estava pronto para sair da banda naquele momento".

No começo da noite outro empresário da ABC foi ao camarim de Blackmore e o convenceu a finalmente entrar no palco. Com quase meia hora de intervalo, os primeiros acordes de "Burn" soaram nos amps do
California Jam, seguidos de "Might Just Take Your Life", "Lay Down Stay Down" e uma divina apresentação para "Mistreated". A partir de então, o que se viu no palco foi uma das mais eletrizantes apresentações da carreira da banda.

"Smoke on the Water" e "You Fool No One" rolaram com muita intensidade e solos individuais, com Hughes parecendo estar tocando no Purple desde pequeno, totalmente seguro e magistral, e Coverdale esbanjando simpatia e voz. Porém, foi em "Space Truckin'" que o mundo veio abaixo. Ali Blackmore, que ainda não havia esquecido o ocorrido minutos antes, pôde demonstrar a raiva que se acumulou contra a ABC durante o show, principalmente pelo fato de a emissora ter colocado um cinegrafista muito perto do guitarrista, que o deixava praticamente sem condições de se movimentar pelo palco, e também bloqueando a visão do público.

Então, durante o êxtase final de "Space Truckin'", com Blackmore solando tudo o que podia, o momento esperado pelos agentes e público começou a ocorrer. A Fender negra de Blackmore começou a voar pelo palco, até cair no chão e ser golpeada pelo guitarrista diversas vezes. Lembrando-se das palavras do produtor de "favorecer as câmeras", Blackmore retirou a guitarra do chão e levou-a direto à camera do tal cinegrafista que estava ao seu lado durante todo o evento, destruindo guitarra e equipamento.

Não satisfeito, Blackmore ainda aprontaria mais uma. Ele já havia planejado uma grande explosão para encerrar o show, e pediu para que alguns litros de gasolina fossem colocados em um amplificador de 450 watts que estava no fundo do palco. Porém, os roadies exageraram na dose e, com Hughes, Lord e Paice mandando ver na sonoridade de "Space Truckin'" e com os produtores da ABC de queixo caído vendo um equipamento completo ser destruído ao vivo e a cores, uma enorme explosão ocorreu, atingindo fortemente Paice e jogando Blackmore para a frente do palco, causando uma experiência visual chocante até os dias de hoje. Até mesmo Hughes, que estava do outro lado do palco, acabou sofrendo algumas lesões por causa da explosão. Novamente, Blackmore cita que "n
ão queria ter feito nada daquilo, eu queria apenas matar o cidadão que ficou contando até 30 para mim. Se ele estivesse por perto, vocês não iriam ver apenas uma câmera quebrada, mas sim um cara morto".

O festival seguiu com a apresentação do ELP, mas os danos causados já tinham afetado os produtores da ABC, que receberam uma carta conciliatória dos empresários do Deep Purple, onde comprometiam-se a pagar todos os danos causados pela apresentação da banda, que no total foram de 8 mil dólares.

O tal
In Concert foi ao ar, e toda essa fantástica apresentação do Purple pode ser conferida no CD e DVD California Jam, sendo que existem duas versões, uma com as imagens que saíram na edição do programa (sem "Lay Down Stay Down") e outra com a apresentação completa. A sequência da destruição da guitarra foi registrada em diversas fotos que aparecem na capa interna da coletânea Anthology, sendo a capa da mesma o exato momento onde ocorre a explosão do amplificador.

Após a passagem explosiva na América retornam para a Inglaterra no dia 18 de abril, indo até o final de maio. Após um mês de descanso, onde alguns projetos solos foram realizados e inclusive uma operação de apendicite por parte de Lord, bem como o processo de divórcio de Blackmore, voltam para os ensaios no Clearwell Castle, e a gravação do segundo álbum com a já consolidada Mark III começam em agosto, ao mesmo tempo que algumas apresentações ocorrem na América tendo a banda ELF (de Ronnie James Dio) como abertura.

Como Blackmore estava emocionalmente abalado com sua separação, Hughes e Coverdale tiveram a oportunidade de colocar as mangas de fora na produção das canções, tornando o som da banda ainda mais dançante.

Stormbringer traz uma das mais belas capas da carreira da banda

Em novembro de 1974 chegava às lojas aquele que para mim é o melhor trabalho do Deep Purple.
Stormbringer trazia uma sonoridade totalmente diferente do que já havia sido feito na história do grupo. Hughes e Coverdale mostraram que, em pouco tempo à frente de uma grande banda, tinham caráter e potencial para serem grandes estrelas.

O disco abre com o petardo da faixa-título, "Stormbringer", e mais um riff fantástico, tendo Coverdale imitando as falas de Linda Blair, a garotinha do filme
O Exorcista. Coverdale canta ferozmente, com o tradicional dueto de vozes no refrão. O solo de Blackmore é feito com uma distorção estranha na primeira parte, que deu um charme especial para a faixa, com a distorção normal sendo usada para a segunda e mais agitada parte do solo. Clássico dos clássicos na discografia do grupo.

A seguir temos a sensual "Love Don't Mean a Thing", uma precursora do Whitesnake, com os resmungos de Coverdale sobre o riff de Blackmore. Paice e Hughes criam uma swingada estrutura para Coverdale começar a cantar a letra, seguido pelos vocais de Hughes, assim como ocorrera no álbum anterior.

Outra grande letra do Purple surge em "Holy Man". Composta por Coverdale antes mesmo de entrar no grupo, aqui ela curiosamente é cantada por Hughes. Blackmore introduz com um lindo solo, levando aos vocais de Hughes sobre uma levada lenta e muito bonita. Os teclados de Lord se fazem presentes, e a canção se encerra de forma suave, eternizada na mente do ouvinte.

O lado A fecha com a mais que dançante "Hold On". O órgão introduz de forma jazzística, trazendo a cadência de Paice, que se mostrava cada vez melhor em criar batidas swingadas. Coverdale canta a primeira parte, dividindo os vocais do refrão com Hughes, detentor dos vocais da segunda parte. Blackmore executa um solo muito tímido, que talvez nem precisasse aparecer, já que o destaque maior vai para Lord no órgão, com um de seus melhores solos.

A rápida "Lady Double Dealer" abre o lado B com um riff muito parecido com o de "Lay Down Stay Down", e é cantada somente por Coverdale, contando com uma boa participação de Paice. "You Can't Do It Right (With the One You Love)" surge como uma das mais legais composições dessa fase. Mais um riff inesquecível de Blackmore intercalado por intervenções de Lord e Hughes sobre a dançante levada de Paice. O funkzão anos 70 feito pelo grupo é contagiante, tornando-se impossível não balançar pelo menos uma das pernas com o embalo criado aqui. Coverdale canta a primeira parte, seguido pelo refrão. Hughes surge com a segunda parte, seguido também pelo refrão e um maravilhoso solo de Lord, com a faixa encerrando com o embalo inicial.

"High Ball Shooter" resgata os tempos de Mark II, com uma forte pegada e apresentando mais uma vez um belo trabalho vocal, com Coverdale e Hughes cantando cada um uma frase da canção.

A linda "The Gypsy" vem com um longo tema instrumental executado por Lord, com acompanhamento de Blackmore, Hughes e Paice. Coverdale e Hughes cantam juntos, cada um a sua maneira, e é impossível segurar o arrepio causado pelas duas grandes vozes juntas. O solo de encerramento de Blackmore só não é mais lindo por que ele se supera com o encerramento do álbum.

Se "Mistreated" é uma das baladas mais lindas da história da rock, "Soldier of Fortune" é uma das mais lindas baladas da história da música. Blackmore ao violão traz o riff principal, que assim como o de "Stairway to Heaven" é um dos favoritos para os aprendizes do instrumento. Acompanhado pelo órgão de Lord, Coverdale assume os vocais sobre o lindo arranjo de Blackmore. Quem nunca chorou com essa canção que atire a primeira pedra. O encerramento é triste, onde Blackmore mostra como ninguém que não são precisas milhões de notas na guitarra para se fazer um solo de tirar o fôlego. Coverdale chora ao microfone e entrega-se a sua solidão, encerrando esse incrível e magistral álbum de forma no mínimo sublime.

Stormbringer conta ainda com uma das capas mais bonitas da carreira do Deep Purple, retratando um tornado ocorrido em 08 de julho de 1927 na cidade de Jasper (Minnesota), e que foi fotografado por Lucille Handberg. Claro que a fotografia recebeu alguns toques especiais, como o cavalo alado, o que deu mais beleza a imagem. A mesma fotografia pode ser conferida no álbum Tinderbox, do Siouxsie and the Banshees.

A edição especial comemorativa de Stormbringer

Em 2009
Stormbringer recebeu um relançamento especial em CD + DVD, totalmente remasterizado por Glenn Hughes e ainda contando com uma versão instrumental para "High Ball Shooter".

Após o lançamento do LP houve uma pausa para as comemorações de final de ano, onde Blackmore começou a se dedicar ao seu primeiro álbum solo. Em 25 de fevereiro de 1975 a banda deu sequência à turnê de promoção do disco, tocando no
Sunbury Music Festival, na Austrália, com Blackmore dedicando boa parte do mês de março para finalizar seu álbum. O clima entre Blackmore e a banda andava cada vez pior, principalmente pelo fato de Hughes e Coverdale terem mudado o conceito musical do Purple, e também porque a imagem de Hughes perante Blackmore se tornava cada vez mais forte, tanto que Blackmore delimitou o espaço de apenas 1 m² de palco onde Hughes poderia se mexer.

O clássico álbum de estreia do Rainbow

As últimas datas da promoção de
Stormbringer ocorrem em maio, com Blackmore finalmente lançando em junho seu álbum solo, intitulado Ritchie Blackmore's Rainbow, ao mesmo tempo que anunciava oficialmente sua saída do Deep Purple.

Sem seu principal guitarrista, um término do Deep Purple era o que provavelmente ocorreria. Porém, um jovem garoto loiro ainda deu um último suspiro para a banda, como veremos na próxima e última parte da história do Purple sem Mr Ian Gillan.

Capa da nova edição da Billboard Brasil


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Depois de uma excelente primeira edição - com o rei Roberto Carlos na capa -, chega nos próximo dias às bancas o segundo número da Billboard Brasil, trazendo o grupo australiano AC/DC na capa.

Se você é fã de música, uma dica: compre, porque a revista está sensacional!


Podcast Collector´s Room #021


Por Ricardo Seelig
Colecionador

No ar a nova edição do podcast da Collector´s Room, e com novidades. Atendendo a inúmeros e insistentes pedidos, agora você poderá conhecer o tracklist do programa antes de ouvi-lo. A lista de músicas está publicada aqui no post, com o nome de cada uma das faixas, grupos e respectivos discos. Assim fica mais fácil saber se você vai curtir ou não o programa que está baixando para o seu computador ou MP3 player.


E você também pode curtir o podcast da Collector´s Room na rádio Shock Box, clicando aqui.

Então é isso, aumente o volume e venha com a gente em mais uma viagem pelo mundo maravilhoso dos discos!

Tracklist Podcast Collector´s Room #021

Bloco 1

Big Star - When My Baby´s Beside Me
Álbum: #1 Record (1972)

Chicken Shack - Maudie
Álbum: Accept (1970)

Buddy Guy & Junior Wells - T-Bone Shuffle
Álbum: Buddy Guy & Junior Wells Play the Blues (1972)

Bloco 2

Blind Faith - Well All Right
Álbum: Blind Faith (1969)

Paul McCartney - If You Wanna
Álbum: Flaming Pie (1997)

Bloco 3

Jethro Tull - Too Old to Rock and Roll, Too Old to Die
Jethro Tull - John Barleycorn
Jethro Tull - Rocks on the Road
Álbum: A Little Light Music (1992)

Bloco 4

Di Melo - A Vida em seus Métodos Diz Calma
Álbum: Di Melo (1975)

Toni Tornado - Mané Beleza
Álbum: Toni Tornado (1972)

Noriel Vilela - Promessado
Álbum: Eis o "Ôme" (1968)

João Donato - The Frog
Álbum: A Bad Donato (1970)

Bloco 5

Procol Harum - Repent Walpurgis
Procol Harum - Good Captain Clack
Procol Harum - A Whiter Shade of Pale
Álbum: Procol Harum (1967)

Bloco 6

Shuggie Otis - Bootie Cooler
Shuggie Otis - Hurricane
Shuggie Otis - The Hawks
Álbum: Here Comes Shuggie Otis (1970)




05/11/2009

Prateleira do Cadão: a guitarra afiada de Phil Upchurch


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Você nasce, cresce, aprende, faz descobertas, vive aventuras, encontra o seu lugar no mundo, conhece o seu amor, aquece a sua alma. Todas as emoções e momentos marcantes de nossas vidas, como essas citados acima, são marcados por trilhas sonoras. A gente lembra das músicas que nos trazem de volta doces lembranças que teimam em continuar em nossas memórias.

Mesmo se você não for um consumidor faminto de música, isso acontece com você. Imagine então se você for como nós, colecionadores sedentos, ouvintes compulsivos, pessoas com fome de conhecimento em relação à música, em suas mais variadas formas e gêneros. Para pessoas como nós, cada momento, cada minuto, casa segundo de nossas vidas é repleto de sons, de discos, de capas, de artistas que nos acompanham anos a fio como amigos de infância que nunca nos deixam na mão.

Tudo isso para dizer que, como a imensa maioria das pessoas que acessa a
Collector´s Room, eu também cresci ouvindo exclusivamente rock e heavy metal. Guitarras distorcidas, riffs cortantes, melodias empolgantes, tudo em alto e bom som. Por isso, para mim a guitarra é mais do que apenas um instrumento musical. Ela simboliza o eixo central da minha experiência sonora, da minha aventura musical. É ela que me motivou (e ainda motiva, diga-se de passagem) a comprar discos, a conhecer grupos, a escrever sobre essa paixão que nos une e torna nossas vidas muito mais interessantes.

Por isso, quando ouvi pela primeira vez o som do norte-americano Phil Upchurch levei uma espécie de choque. A guitarra estava ali, mas o foco era totalmente diferente daquele que eu estava acostumado. No lugar da distorção, um timbre puro, limpo e cortante. Ao invés de riffs, acordes inusitados e, mesmo assim, cativantes. Ricas ideias harmônicas cruzando-se infinitamente, construindo uma sonoridade rica, bela e espiritual.


Nascido em Chicago em 19 de julho de 1941, Phil Upchurch iniciou a sua carreira nos anos cinquenta tocando ao lado de grupos como The Kool Gents, The Dells e The Spaniels. Seu talento e estilo únicos chamaram a atenção, e fizeram com que Phil gravasse álbuns ao lado de feras como Curtis Mayfield, Otis Rush, Jimmy Reed, Dizzy Gillespie, B.B. King e Cannonball Adderley, entre outros.

Dono de uma técnica apurada e um senso melódico ímpar, no início da década de setenta Upchurch gravou discos sensacionais e que influenciaram uma pá de gente, fundindo o jazz ao blues, ao soul e, principalmente, ao funk. Sua guitarra repleta de malícia embalou inúmeros corpos entrelaçados noites a fio. São desse período dois de seus trabalhos mais importantes: o seminal
Darkness, Darkness e o não menos brilhante Lovin´ Feeling.


Darkness, Darkness
é, originalmente, um álbum duplo, e foi lançado em 1972 pela gravadora Blue Thumb. São dez faixas espalhadas em quatro lados, sendo que duas são versões de sucessos de James Taylor ("Fire and Rain" e "You´ve Got a Friend").

O play abre com a faixa título, uma experiência transcedental com quase dez minutos de duração, dona de um balanço irresistível sobre o qual Phil sola de maneira sublime. Uma canção inesquecível, das melhores que eu já ouvi em toda a minha vida!

O lirismo e a sensibilidade ficam a flor da pele na belíssima versão de "Fire and Rain", de James Taylor. O arranjo é tão perfeito, minimalista e sem nenhum instrumento sobrando ou nota fora do lugar, que faz com que pensemos que a canção já nasceu assim, sem letra e sem vocais.

Upchurch deixa clara a importância do blues em sua música em "What We Call the Blues", onde percebe-se a influência de B.B. King na forma de Phil tocar, com notas esparsas espalhadas em harmonias pra lá de arrepiantes. Uma das principais marcas registradas de Phil Upchurch, o uso do pedal wah-wah, dá as caras, e, junto com o arranjo de cordas que emoldura a canção, faz de "What We Call the Blues" uma das melhores faixas de
Darkness, Darkness.

O disco segue com o groove de "Cold Sweat"; o soul blues de "Please Send Me Someone to Love"; a fantástica "Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)", com uma performance arrasadora de Phil; mais uma releitura para uma composição de James Taylor em "You´ve Got a Friend"; "Love and Peace" e sua lição quase didática de como usar com classe o wah-wah; "Sweet Chariot" e "Sausalito Blues". Um álbum espetacular, que mostra o ápice criativo e técnico de um músico muito acima da média.


Lovin´ Feeling, lançado em 1973 também pela Blue Thumb, mesmo não sendo uma obra-prima como Darkness, Darkness é também um senhor disco. A bolacha abre com "Keep on Trippin´", mostrando um Phil Upchurch mais contido, assim como "Another Funky Time".

Bem mais contemplativo que o disco anterior, o álbum segue com "Being at War with Each Other" e "Sitar Soul", essa com interessantes escalas indianas. A clássica "You´ve Lost that Lovin´ Feeling", composta por Barry Mann, Phil Spector e Cynthia Weil e regravada por centenas de artistas, surge sensual ao extremo, quase um convite para o sexo.

"I Still Love You" mantém a linha romântica do disco, enquanto "Washing Machine" traz o groove embalado com doses generosas de wah-wah para o primeiro plano, em um dos melhores momentos do álbum. O LP fecha com "You´ve Been Around Too Long", relaxando o ouvinte e preparando o espírito para um novo dia.

Phil Upchurch ainda está na ativa, lançando discos de tempos em tempos (o último,
Tell the Truth, saiu em 2001), mas o melhor momento de sua longa carreira está, indubitavelmente, em Darkness, Darkness. Se você quer conhecer até onde uma guitarra pode te levar, sem medo do desconhecido e sem limites, ouça o álbum e descubra que, muito mais do que apenas ligada ao rock, as seis cordas desse instrumento tão mítico podem estar ligadas ao seu coração.

Discoteca Básica Bizz#201: Simon and Garfunkel - Bridge Over Troubled Water (1970)


(Ana Maria Bahiana, Bizz#201, maio de 2006)

Apenas o costumeiro senso de humor do tempo pode explicar como um trabalho urdido em clima de tensão e confronto encontrou seu destino como um louvor à concórdia e à harmonia. E tão poderoso foi esse louvor, tão exato para os tempos fraturados de então, que
Bridge Over Troubled Water tornou-se o maior sucesso comercial de Paul Simon como compositor e de Simon e Art Garfunkel como intérpretes. O maior e o último.

Criado ao longo de dois anos - ou 800 horas, pelas contas de Simon -, nos intervalos entre apresentações na TV, shows e as filmagens de Catch 22, estreia de Garfunkel como ator, o disco representa várias encruzilhadas pessoais e artísticas para a dupla. Quinto álbum da carreira, vinha imediatamente depois daquele que, até o momento, era sua obra-prima, à medida que estabelecia o padrão de excelência do novo folk: Bookends, de 1968.

Com o estilo momentaneamente exaurido e dinamitado por Bob Dylan, Simon, especialmente, sentia necessidade de buscar novos idiomas e horizontes. Garfunkel, o tenor perfeito que encarnava a metade etérea da dupla, havia encontrado no cinema a saída para essa inquietação.

Simon começou sua jornada recuperando seus próprios passos, do doo-wop da adolescência ("Bye Bye Love", dos Everly Brothers) e indo em qualquer direção, permitindo-se criar um reggae bem-humorado composto por acaso ("Cecilia"), letrar uma canção instrumental ouvida num álbum do peruano Los Incas ("El Condor Pasa") e fazer arranjos complexos como o de "The Boxer", cinco minutos de narrativa misteriosa que, no fim das contas, volta ao começo - ao próprio Simon.

No meio do caminho, e após uma longa pausa, quase como um P.S., estão os dois momentos mais íntimos e confessionais do disco: "The Only Living Boy in New York" (que Simon sempre disse ser sua faixa favorita) e "Song for the Asking", que soa cada vez mais, a cada ouvida, como um adeus.

O abre-alas e o coração do álbum, contudo, é sua faixa-título. Inspirada no trabalho do Reverendo Claude Jeter e seu coral gospel Swan Silvertones - cujo hino "Oh Mary Don't You Weep For Me" tinha o verso "serei sua ponte sobre as águas profundas se confiares em mim", "Bridge Over Troubled Water" foi composta de uma assentada só quando Paul e Art passavam férias de verão com suas famílias em Los Angeles, numa casa alugada no mesmo Blue Jay Way que George Harrison havia cantado.

Simon queria gravá-la sozinho, mas o tom era impossivelmente alto para sua voz. Com alguma relutância, Simon e o arranjador Larry Knechtel refizeram a partitura para Art Garfunkel, que sugeriu a inclusão de um terceiro verso para dar à canção "a imponência de um hino profano". Com o terceiro verso – "sail on silver girl" -, um arranjo épico e místico e a voz de Garfunkel atingindo alturas insuspeitadas ("fiquei espantado com a coragem dele aventurar-se assim com sua garganta", Simon contaria à Rolling Stone muitos anos depois), o single com "Bridge Over Troubled Water" tornou-se um dos maiores sucessos de 1970, ganhando o Disco de Ouro e empurrando o álbum por caminho idêntico.

Os tempos eram, de fato, profundas águas revoltas, a euforia dos 60 se esvaindo numa ressaca cósmica, a guerra do Vietnã em ritmo de escalada, certezas derrubadas sem o conforto imediato de novas possibilidades. Garfunkel soava exatamente como um anjo terreno, oferecendo a solidez precária, mas doce, de uma canção.


Faixas:
A1 Bridge Over Troubled Water 4:52
A2 El Condor Pasa (If I Could) 3:06
A3 Cecilia 2:55
A4 Keep the Customer Satisfied 2:33
A5 So Long, Frank Lloyd Wright 3:41

B1 The Boxer 5:08
B2 Baby Driver 3:15
B3 The Only Living Boy in New York 3:57
B4 Why Don't You Write Me 2:45
B5 Bye Bye Love 2:55
B6 Song for the Asking 1:39