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31/03/2009

Castiga! - Nas pegadas do groove de Melvin Sparks


Por Marco Antonio Gonçalves
Colecionador

Se a pedida for soul-jazz ou jazz-funk, nada mais estiloso do que dar um mergulho de cabeça na discografia deste guitarrista norte-americano que atende pelo nome de Melvin Sparks. Um dos pioneiros do acid-jazz, Sparks se tornou um dos grandes guitarristas do estilo, figurando seu nome ao lado de feras como Cornell Dupree, Kenny Burrell, George Benson ou Grant Green.

Um obstinado pelo jazz, r&b e blues que aos onze anos de idade já tocava guitarra e se beneficiava do tradicional ensino musical das escolas americanas. Nessa fase de aprendizado, passou pela doutrina do visionário educador musical Conrad O. Johnson (o homem por trás do combo negróide Kashmere Stage Band) e seu talento foi lapidado tal qual um diamante. Sua habilidade com a guitarra, aliás, era medida em performances com a banda do colégio, em companhia de dois parceiros que se tornariam constantes no decorrer de sua carreira: Leon Spencer e John Manning. 

Em 1963 abandonou a high school para tornar-se músico profissional, ingressando no Upsetters, uma banda de rhythm and blues que acompanhava nomes de peso como Little Richard, Sam Cooke, Marvin Gaye e The Supremes. Depois de deixar o Upsetters, Sparks trabalhou em várias sessões, gravando ao lado de alguns dos gênios responsáveis pela evolução da música negra, como Charles Earland, Sonny Stitt, Lou Donaldson, Rusty Bryant, Lonnie Smith, Sonny Phillips e Johnny “Hammond” Smith, dentre outros.

Ao longo de seus mais de quarenta anos de carreira, gravou 12 discos solo (
Groove On Up de 2006 foi o último) e participou de outros 100 álbuns de artistas diversos. Também desenvolveu projetos paralelos bem interessantes, como o Mooreshiva Project, carregando no sotaque groove, só pra variar.


E aproveitando o embalo, agora mesmo estou escutando sua maravilhosa estréia como
band-leader. O disco Sparks! foi lançado em 1970 pela Prestige Blue Note Records e já mostrava com louvor o estilo musical que o guitarrista empregaria em seu trabalho solo: uma combinação ácida de jazz, funk e soul, repleta de grooves dançantes.

A banda contava com alguns dos antigos camaradas do liceu e o entrosamento demonstrado neste registro é potente. Estavam presentes nas sessões de gravação os seguintes músicos: Melvin Sparks (guitarra), Leon Spencer (órgão), Idris Muhammad (bateria), Virgil Jones (trompete), Houston Person (sax tenor) e John Manning (sax tenor). Contendo apenas cinco músicas, o álbum apresenta uma concepção harmônica e melódica daquelas, mostrando quem é que domina o pedaço quando o assunto é el groove terrible

Destaque para as versões instrumentais das clássicas “Thank You” de Sly & The Family Stone, “Charlie Brown” dos Coasters e “Spill the Wine” de Eric Burdon & War, com Sparks esmirilhando com sua praticidade e desenvoltura na guitarra e Leon Spencer comprovando ser um organista completo. “I Didn’t Know What Time It Was” e “The Stinker” completam o álbum, evidenciando toda a riqueza técnica de Sparks, que faz improvisos e alterna fraseados maravilhosos, lembrando, e muito, Grant Green, provavelmente o seu mais imediato precursor. Um primor! 


Outro brilhante registro do guitarrista é Akilah! de 1972, seu terceiro trabalho solo, e que tive a felicidade de encontrar o LP na loja Disco 7 do grande Carlinhos, no centro de São Paulo. Mais uma vez fui dominado pelo jazz ácido e pelo groove contagiante de Sparks e sua banda.

Obra instrumental impecável, que oferece uma seção rítmica vibrante, tendo à frente um time bem parecido com aquele do seu primeiro álbum: Sparks na guitarra, Leon Spencer no órgão, Idris Muhammad na batera e Buddy Caldwell na percussão. Para acompanhar a turma, nada melhor que uma seçãozinha de metais maneira: Sonny Fortune, George Coleman, Frank Wess e Dave Hubbard nos saxofones, Hubert Laws na flauta e Virgil Jones e Ernie Royal nos trompetes … é tudo o que eu gosto!

O disco abre com uma composição do Kool and the Gang, a funkeada “Love the Life You Live” num instrumental contaminado de suingue. Outras preciosidades são os temas “On the Up”, “All Wrapped Up” e a faixa título, que escancaram arranjos mais sólidos que os notados no disco de estréia, com o naipe de metais em maior evidência. A salientar o trabalho impecável da dupla Sparks e Spencer, que mais uma vez rouba a cena. Pra cair no suingue sem dó nem piedade. E se o lance é dar um relax para recuperar o fôlego, “Blues for J.B.” e “The Image of Love” estão aí para completar o serviço. Uma gema!


Outros discos como
Spark Plug (1971), Texas Twister (1973) ou Melvin Sparks (1975) são para matar neguinho do coração de tão bons. É o groove pulsando a milhão. Divirtam-se!

Manias de colecionadores, seres compulsivos por natureza


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Seja qual for o estilo de uma coleção, nós, colecionadores, apresentamos certos comportamentos padrões que ilustram bem a nossa paixão, e, em certo ponto, obsessão pelos discos.

Abaixo uma pequena, e curiosa, lista dessas manias, colhidas em conversas com amigos e em nossa comunidade no orkut:

- discos não foram feitos para serem emprestados, mas sim para serem ouvidos;

- se um amigo insistir muito, leva uma cópia em CD-R, mas nunca o disco original para sua casa;

- os CDs são guardados dentro das caixas com as informações escritas em sua face alinhadas, retinhas, para dar para ler;

- os discos são organizados por bandas, em ordem cronológica, variando entre crescente e decrescente, mas nunca sem ordem alguma;

- as novas aquisições ficam em um lugar separado da estante, e só são encaixadas no acervo depois de serem devidamente digeridas;

- os discos devem ser ouvidos até o final antes de serem sacados do CD player ou da vitrola;

- alguns separam suas coleções em estilos - me enquadro nessa -, o que deixa mais fácil encontrar o que se procura, mas isso só vale para acervos com itens de vários gêneros distintos, como heavy metal, blues, jazz, pop, classic rock;

- outros, mais neuróticos - ou malucos mesmo - não mexem nos encartes de jeito nenhum e, quando isso é indispensável, usam luvas para não deixar suas digitais marcadas no papel;

- quando estamos atrás de discografias que pretendemos completar, deixamos o espaço vago para o item que ainda não temos na estante, para lembrar que está faltando um disco ali;

- quando estamos em uma loja garimpando novos itens, andamos com os que nos interessam embaixo do braço, mesmo que, na hora de efetivar a compra, daqueles vinte itens que carregamos levemos para casa apenas três ou quatro;

- perdemos o sono e o bom humor ao ver uma caixa de CDs com os dentes de acrílico quebrados, e não sossegamos até trocá-la por outra nova;

- itens comprados em sebos precisam, necessariamente, ter a sua caixa de acrílico trocada por uma nova;

- digipacks, boxes e embalagens especiais são guardados separados dos outros discos;

- em dias em que estamos meio de saco cheio, deprimidos, não existe terapia melhor do que olhar para a estante e ver quantos discos legais temos em casa. Isso levanta a moral de qualquer um;

- no CD player do carro não entram discos originais, apenas cópias que fazemos em casa;

- todos os CDs são guardados dentro de um saquinho plástico, para ficarem melhor conservados;

- adesivos que vem na embalagem externa, colados no plástico, são recortados e guardados dentro do encarte;

- quando uma banda lança um disco ruim, como, por exemplo, o último do Judas Priest, Nostradamus, toda a discografia do grupo é colocada de cabeça para baixo, de castigo, até a raiva passar;

- e, por fim, arrumar a coleção de tempos em tempos, para ver o que temos e sentir o enorme prazer que só uma coleção de discos pode proporcionar.

E você, o que acha disso tudo?  Somos todos malucos, loucos e desequilibrados, ou não passamos de gente normal mesmo?  Quais são as suas manias?

Deixe o seu comentário e nos ajude a entender, cada vez mais, esses seres compulsivos por natureza: os colecionadores de discos!


Discos Fundamentais: Marcus - Marcus (1976)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Esse único registro do grupo norte-americano Marcus é um dos mais raros e obscuros álbuns do hard rock setentista. Natural de Detroit, a banda era formada pelo vocalista Marcus Malone, pelo trio de guitarristas-solo Gene Bloch, Randall David e Jack Weber, pelo baterista Dandy "Star" Holmes e pelo lendário baixista Tim Bogert, ex-Cactus, Vanilla Fudge e Beck Bogert & Appice.

O álbum é uma pedrada, um verdadeiro clássico perdido. A qualidade de suas oito composições espanta e nos faz pensar como uma banda tão fantástica como essa não alcançou uma repercussão maior. O fato é que a gravadora do grupo, a United Artists, investiu muito pouco, praticamente nada, na promoção do álbum, o que, somado ao fato de o LP ter sido lançado em pleno auge da disco music e com uma capa que mais remete a um trabalho de funk do que de hard rock, fez com que as lojas norte-americanas colocassem o play na seção de funk e r&b, "escondendo-o" dos ouvintes de música pesada, que certamente iriam pirar com o trabalho.

Marcus, o álbum, abre com "Black Magic", um soco no estômago que rouba o riff de "Space Truckin´" do Deep Purple, tocado aqui com um timbre de guitarras pesadíssimo, bem na linha de "Miss Misery", do Nazareth. De cara já fica escancarado o poder de fogo do paredão de guitarras formado por Bloch, David e Weber, e o talento de Marcus Malone, dono de um timbre muito agradável.

O disco prossegue com "Salmon Ball", que coloca um certo tempero funk no heavy rock dos caras. "Kelly" é uma bonita balada, onde o destaque são os ótimos vocais de Malone. O clima volta a ferver com "Gypsy Fever", outra que explora, com grande talento, o resultado da união do funk com o hard.

Uma das melhores vem a seguir. "Pillow Stars" já abre com um peso gigantesco, parecendo aqueles sons tão habituais em álbuns de grupos da New Wave of British Heavy Metal. Mas, quando pensamos que um riff irá entrar e detonar tudo, somos supreendidos por um andamento meio jazzy, que evolui para grandes melodias de guitarra, com Malone cantando em tons bem altos, acompanhado por ótimos backing vocals. Um heavy metal sensacional!

Um ótimo riff introduz "Highschool Ladies Streetcorner Babies", com um andamento que nos leva de volta aos trabalhos lançados pelo Aerosmith nos anos setenta. "Dream Wheel" tem elementos do que viria a ser conhecido como AOR, com ótimos coros. E, fechando o disco, "Rise Unto Falcon" chega a lembrar algo de Judas Priest.

Extremamente difícil de ser encontrado, o vinil original recebeu uma reedição em CD em 2000, lançada pela gravadora inglesa Zoom Club, e mesmo essa versão é um tanto rara de se conseguir. 

O fato é que, indiscutivelmente, Marcus é um disco obrigatório e que agradará em cheio quem curte um inspirado e competente heavy metal com sabor setentista.

Faixas:
A1. Black Magic - 5:50
A2. Salmon Ball - 6:15
A3. Kelly - 4:00
A4. Gypsy Fever - 6:15

B1. Pillow Stars - 5:44
B2. Highschool Ladies Streetcorner Babies - 5:06
B3. Dream Wheel - 3:42
B4. Rise Unto Falcon - 6:31

Discoteca Básica Bizz#042: Phil Spector - Phil Spector's Christmas Album (1972)


(Jean-Yves de Neufville, Bizz#042, janeiro de 1989)

É curioso constatar que, num país tão religioso como o Brasil, não haja tradição para a composição de canções de Natal. Fora honrosas exceções, como a famosa "Boas Festas", de Assis Valente, cantada por Carlos Galhardo nos anos trinta e perpetuada como marchinha de Carnaval, todas as músicas que se referem à festa e povoam os monitores de tevê neste período do ano são composições tradicionais importadas da Europa e dos Estados Unidos.

Uma tradição intimamente ligada à música popular americana do século, a partir dos cantos gospel de autores semi-anônimos, das composições de Irving Berlin e tantos outros, interpretadas por Judy Garland, Big Crosby, Aretha Franklin, Ray Charles, Elvis Presley. Quase todos os grandes cantores prestaram um dia homenagem ao velhote de manto púrpura e barba branca.

Mas a obra-prima do gênero é, sem dúvida, o
Christmas Album de Phil Spector, um compositor e produtor que nasceu justamente no dia 25 de dezembro de 1940, no Bronx, em Nova York. Este clássico entre os clássicos é percorrido por treze faixas luminosas, com interpretações impecáveis de cantores soul, como Bobby B. Soxx & The Blue Jeans e Darlene Love, e ainda dos girl-groups The Ronettes e The Crystals, principais estrelas da gravadora Philles, dirigida por Spector.

O álbum apresenta várias curiosidades. Embora reúna dezenas de músicos, intérpretes e compositores diferentes, é acima de tudo a obra de seu produtor, que levanta aqui o edifício mais acabado do seu estilo, o
wall of sound. É uma das primeiras vezes na história em que o processo de gravação de um disco é abordado como forma de criação artística absoluta. Spector passou meses no estúdio, onde se dedicou à busca da perfeição para cada música. 

Megalomaníaco dos sons, ele se definiu assim: "Minha abordagem do rock'n'roll é wagneriana. Faço pequenas sinfonias para a garotada". Para tanto, ele levou a técnica dos overdubs - a sobreposição de cinco ou seis guitarras, três ou quatro pianos, inúmeras percussões com baterias, castanholas, tamborins, sinos e tímpanos - até suas últimas consequências, para criar uma massa sonora de proporções até então inéditas. Os músicos que participaram dessas gravações - entre eles os guitarristas Glen Campbell, Sonny Bono e Barney Kessel, o pianista Leon Russell e o baterista Hal Blaine - contam que Spector resolver gravar algumas partes do álbum no banheiro do estúdio (o Gold Star, em Los Angeles), porque somente ali conseguia a acústica e a reverberação de que estava precisando.

O álbum foi lançado sob o título
A Christmas Gift for You, no final de 1963, às vésperas do assassinato do presidente John Kennedy. Os americanos não tiveram humor para apreciar suas músicas alegres e embaladas. Mesmo assim, o disco frequentou os charts a cada ano, na época do Natal, principalmente na Inglaterra, onde foi reeditado pela Apple Records, selo dos Beatles, e rebatizado Phil Spector's Chrismas Album, em 1972, a partir do nome dado pelo público. 

É extraordinária e muito mais importante do que se pensa a influência de Phil Spector sobre a música pop dos últimos trinta anos. Numa entrevista recente, Brian Wilson, líder dos Beach Boys, reconheceu que criou confiança e buscou inspiração nos discos de Phil Spector no início de sua carreira. Quanto aos Beatles, ele fez a remixagem do LP Let it Be; co-produziu Imagine, de Lennon; e voltou ao seu estilo wall of sound no LP triplo All Things Must Pass, de George Harrison, em 1970. Mais recentemente, Spector produziu os LPs Death of a Ladies Man, de Leonard Cohen, e End of the Century, dos Ramones.

Mas nada melhor que este disco, que iluminou até hoje muitos Natais de seus felizes possuidores.

Faixas:
A1. Darlene Love - White Christmas - 2:45
A2. The Ronettes - Frosty the Snowman - 2:29
A3. Bob B. Soxx and the Blue Jeans - The Bells of St. Mary's - 2:30
A4. The Crystals - Santa Claus Is Coming to Town - 2:29
A5. The Ronettes - Sleigh Ride - 3:45
A6. Darlene Love - (It's a) Marshmallow World - 2:30

B1. The Ronettes - I Saw Mommy Kissing Santa Claus - 2:19
B2. The Crystals - Rudolph the Red-Nosed Reindeer - 2:20
B3. Darlene Love - Winter Wonderland - 2:32
B4. The Crystals - Parade of the Wooden Soldiers - 3:00
B5. Darlene Love - Christmas (Baby Please Come Home) - 2:30
B6. Bob B. Soxx and the Blue Jeans - Here Comes Santa Claus - 2:24
B7.  Phil Spector & Artists - Silent Night - 2:35

Leia também: Discoteca Básica Bizz#027: Brian Eno - Another Green World (1975)

30/03/2009

Bandas de Um Disco Só: O Iron Maiden que o mundo não (ou)viu


Por Thiago Sarkis
Colecionador e Jornalista

Shows lotados, 70 milhões de discos vendidos, uma legião de fãs que duas ou três bandas – se é que quaisquer outras além deles – podem se gabar de ter conquistado tocando heavy metal, apresentações como atração principal nos maiores festivais europeus, asiáticos, sul-americanos e, eventualmente, norte-americanos, além de clássicos que se tornaram hinos de um estilo e trilhas sonoras de várias gerações. Resumidamente, este é o Iron Maiden de Steve Harris (baixo), Bruce Dickinson (vocal), Dave Murray (guitarra), Adrian Smith (guitarra), Janick Gers (guitarra) e Nicko McBrain (bateria), formado em 1975.

Cerca de uma década antes do surgimento deste fenômeno, outro Iron Maiden circulava pela cena britânica em busca de um pouco de atenção e reconhecimento. Além do nome e do rock, com as guitarras em realce, o grupo sessentista de Essex, Inglaterra, assemelhava-se ao bem-sucedido xará pela figura de seu líder, Barry Skeels, também baixista. Vários músicos entraram e saíram do conjunto, mas ele permaneceu até o encerramento das atividades da banda, em 1970.

Eles estão no Brasil novamente?”, questionou Skeels ao ser comunicado da recente turnê do Maiden de Harris pela América do Sul. ”É incrível! Eu nunca imaginei que o Iron Maiden fosse se transformar em um gigante do rock. Pelo menos, não o meu (risos)”.

Bem-humorado, porém, em tom mais sério, o músico, dono da Offbeat Management e ainda em atividade com a The Black River Band, ressalta os feitos do homônimo de seu findado projeto. “Nós éramos insignificantes comparados a tudo isso que eles conquistaram. Excursionar por todos os continentes e se transformar em uma entidade com ídolos mundiais jamais se aproximou da nossa realidade. Eles triunfaram em um meio difícil e alcançaram coisas que nem grupos medianos ou grandes conseguem. De certa forma, sinto orgulho disso. Acho que é porque temos algo em comum (risos)”.


O ex-baixista relembra a fundação de seu Iron Maiden com satisfação, mesmo que faça ressalvas e ria dos primeiros passos que deram. “Começamos a trabalhar como Iron Maiden em 1968 com Steve Drewett nos vocais, Trevor Thoms na guitarra, Paul Reynolds na bateria e eu no baixo. Antes disso, tocamos por mais ou menos dois anos com o nome Bum. Penso que não foi a decisão mais sábia iniciar uma banda nomeando-a bunda (risos)”.

A vertente musical? Apesar de referências similares às de Harris, a descrição de Barry Skeels definitivamente não nos dá a idéia de músicas que escutaríamos em álbuns como Killers (1981), The Number of the Beast (1982) e Powerslave (1984). “Nós seguíamos uma linha que mesclava rock, blues, pop e progressivo. Éramos da mesma época de lendas como Deep Purple, Led Zeppelin e King Crimson, e havia algumas semelhanças entre o som deles e o nosso. No entanto, as raízes blues geralmente se destacavam em nossas composições”, afirma.

As risadas e a descontração param e dão lugar à esquiva quando o indago se o “Iron Maiden famoso” tinha consciência do Iron Maiden que o precedeu. “Nós abrimos shows para The Who, Jethro Tull, Fleetwood Mac, David Bowie. Tínhamos uma boa reputação na região de Londres. Tocávamos frequentemente. Certa vez, conversei com Steve Harris e o antigo guitarrista deles, não me lembro o nome agora”. Logo pensei em Dennis Stratton e sugeri que fora ele o músico que Barry encontrara. “Sim. Ele mesmo”, confirmou. “O baterista, Clive Burr, também nos encontrou. Eles eram muito jovens e talentosos”. Ao perceber que minha pergunta resultara em um tremendo vácuo, resolvi repeti-la e finalmente obtive uma resposta satisfatória. “Nós chegamos a gravar um álbum naquela época, entretanto, ele não saiu na Inglaterra. Foi lançado apenas na Alemanha, acho. Curiosamente, não tivemos tanto sucesso como Iron Maiden como quando nos apresentávamos como Bum (risos). Harris sabia de nossa existência, sem dúvida. Contudo, acredito que ele conhecia ou ouvira falar do Bum, não do Iron Maiden”.

Atual empresário do Skyclad, ex-agente de turnê, técnico de guitarra e baixo do Venom, ele vê com naturalidade o surgimento de outro Iron Maiden após o seu. “
Eu fiquei irritado no começo, porque pensei que fosse algum membro do Iron Maiden que eu havia fundado e que levara o nome consigo. Todavia, não foi isso que aconteceu. Era outra banda e eles já estavam com tudo encaminhado para se transformarem em um supergrupo. Nós, por outro lado, tínhamos encerrado atividades há muito tempo. Logo, aquilo não me incomodou”.


Em 1998, a Audio Archives lançou Maiden Voyage, único registro original do Iron Maiden que o mundo não ouviu. “Nós não somos muito assediados, mas há certa curiosidade das pessoas quanto ao que fizemos. Isso ficou mais intenso após a explosão da internet. Mais que nunca, as pessoas sabem que existiu um Iron Maiden antes do Iron Maiden que todos conhecem. A Audio Archives nos procurou por causa disso. Eu guardei várias gravações em casa e levei a eles. Foi legal lançarmos material oficial depois de tanto tempo”. Como o disco soa para Barry? “É divertido. Talvez muito suave para fãs de Iron Maiden, mas compusemos boas músicas progressivas e, de certa maneira, sombrias”.

Para ele, os conjuntos com os quais toca hoje em dia não seriam recomendáveis aos entusiastas de Harris, Dickinson e companhia, entretanto, uma audição não faz mal a ninguém. “
Certamente não é o que eles - fãs do Iron - procuram, porém, deem-nos uma chance (risos). Vai que vocês gostam da Black River Band e do extinto Ambience UK. É possível”.

Interrompidos por uma urgência na Offbeat Management, finalizamos a conversa, contudo, ainda em tempo para Barry Skeels fazer uma ligeira propaganda e assegurar o potencial do Skyclad de conquistar admiradores do Maiden. “
Acredito que tem tudo a ver. O Skyclad traz elementos de folk em sua música, mas é rápido, melódico, metal. O novo álbum deles, In The  ... All Together, é excelente e sairá em maio próximo. Confiram e curtam os shows do Iron Maiden”.

Discos Fundamentais: Grateful Dead - American Beauty (1970)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Gravado nos meses de agosto e setembro de 1970,
American Beauty é o quinto álbum do cultuado grupo norte-americano Grateful Dead. Nele, a banda liderada pelo vocalista e guitarrista Jerry Garcia mergulha na rica herança musical ianque e sai de lá com um disco que reapresenta os variados gêneros musicais de seu país aos jovens da virada dos anos sessenta para os setenta.

O trabalho abre com a clássica "Box of Rain", onde o Grateful Dead coloca as cartas na mesa. "Friend of the Devil", uma das músicas mais conhecidas do grupo, inclusive aqui no Brasil, onde o Dead nunca teve muita repercussão, vem a seguir. "Super Magnolia" é mais uma das emblemáticas composições da banda presente em
American Beauty. Como deu para perceber, o disco é um desfile de clássicos em sequência.

É muito fácil ouvir o álbum. "Operator", por exemplo, é um country estradeiro que cativa já nos primeiros acordes. "Till the Morning Comes" une a sonoridade típica do interior dos Estados Unidos à então recente influência da invasão britânica, de nomes como Beatles, Rolling Stones, Who e Kinks. O disco fecha com outra canção-assinatura do Dead, "Truckin´".

American Beauty não é apenas um dos grandes álbuns da década de setenta, mas também um dos grandes discos da história do rock norte-americano. Um clássico que continua atemporal, mantendo sua força e influência.

Faixas:
A1. Box of Rain - 5:16
A2. Friend of the Devil - 3:20
A3. Sugar Magnolia - 3:15
A4. Operator - 2:21
A5. Candyman - 6:12

B1. Ripple - 4:10
B2. Brokedown Palace - 4:18
B3. Till the Morning Comes - 3:13
B4. Attics of My Life - 5:09
B5. Truckin' - 5:09


Discoteca Básica Bizz#041: Tropicália ou Panis et Circencis (1968)


(Bia Abramo, Bizz#041, dezembro de 1988)

"
A música não existe (...). Sei que alguma coisa nova se cria a partir daí e o resto não me interessa" (Rogério Duprat). "Ê bumba-iê-iê-boi" (Gilberto Gil & Torquato Neto). "Nara - Pois é... e o Ernesto Nazaré e Chiquinha Gonzaga... e Pixinguinha... Os Mutantes - Pois é... e os Jefferson's Airplane (sic) e os Mamas & the Papas... e..."

Maio de 68. Vietnã. Barricadas em Paris. Passeata dos cem mil, Rio de Janeiro. Primavera de Praga. Marthin Luther King. Flower power, 2001 - Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick. AI-5. Panteras Negras. Arte pop. Crimes, espaçonaves guerrilhas.

Não são absolutamente memórias pessoais. Fragmentos da iconografia da época. O primeiro passo quando a tarefa é falar de alguma obra emblemática de uma época (sobretudo se você não esteve lá) é pesquisar todo o material disponível para reconstituir o clima e os acontecimentos que foram desaguar naquele produto em particular. Mas um disco-manifesto como 
Tropicália ou Panis et Circencis fala por si só. E o que ele fala?

A capa apresenta os atores do carnaval tropicalista. Os Mutantes e suas guitarras elétricas. Tom Zé, Caetano com Nara Leão (os mais belos joelhos da bossa nova) no colo (numa fotografia). O Maestro Rogério Duprat prestando uma homenagem a Marcel Duchamp (que havia falecido em 1967). Gal Costa com uma foto de Capinam. Torquato Neto (poeta e suicida). A contracapa descreve o roteiro e inscreve a data lendária: maio de 68. Os padrinhos despejam suas benções: Augusto de Campos e João Gilberto.

Tropicália ou Panis et Circencis era para ser o manifesto tropicalista. Vinte anos depois é um documento histórico. Se a música não existia mais, era preciso romper com as camisas de força que regiam a música popular, as falsas dicotomias participação popular versus invenção, local versus universal. Vicente Celestino se encontra com os Beatles. O tropicalismo, como um momento de efervescência cultural, comunica-se diretamente com o modernismo da Semana de 1922. E dá-lhe antropofagia: as referências de parentesco são explícitas e encaixadas em contexto novos.

A qualidade documental da tropicália não o transforma num disco datada. Uma colagem mantida unida com o cola-tudo privilegiado das musicalidades de Caetano Veloso e Gilberto Gil. A pérola do brega, "Coração Materno", é de Vicente Celestino. O beguin "Três Caravelas" ("
um navegante atrevido saiu de Palos um dia / ia com três caravelas / a Pinta, a Nina e a Santa Maria") é uma versão de João de Barro, e a nota regionalista, "Hino ao Senhor do Bonfim da Bahia", que fecha com tom épico o LP, é de João Antônio Wanderley.

O humor é, sem dúvida, um conservante poderoso. "Lindonéia", um bolero na voz extra-suave de Nara, anuncia que há "
cachorros mortos nas ruas / policiais vigiando / o sol batendo nas frutas / sangrando, oh, meu amor, a solidão vai me matar de dor". Os primeiros acordes de "A Internacional" servem como arauto a Caetano convidando a um passeio nos Estados Unidos do Brasil, "debaixo das bombas / das bandeiras / debaixo das botas / debaixo das rosas dos jardins / debaixo da lama / debaixo da cama". Em "Parque Industrial", o céu de anil e as bandeirolas saúdam o avanço industrial.

Rogério Duprat orquestrou esses estilhaços de modernidade com todos os ritmos, instrumentos, ruídos e técnicas que estavam à mão. Em vez do violão e voz da bossa nova, aqui entram sirenes, distorção de guitarra, efeitos de estúdio, canhões (enquanto Gil rima Brasil e fuzil, com todas as letras) e órgão de igreja. Os metais pontuam ora o violão, ora a guitarra e o baixo, criando texturas distintas de sons. 

A geléia geral brasileira teve sua polaróide, em sons e imagens, nítida e multifacetada.

Faixas:
A1. Gilberto Gil - Miserere Nóbis - 3:42
A2. Caetano Veloso - Coração Materno - 4:15
A3. Os Mutantes - Panis et Circensis - 3:33
A4. Nara Leão - Lindonéia - 2:13
A5. Gal Costa, Gilberto Gil, Os Mutantes & Caetano Veloso - Parque Industrial - 3:16
A6. Gilberto Gil - Geléia Geral - 3:42

B1. Gal Costa & Caetano Veloso - Baby - 3:31
B2. Gilberto Gil & Caetano Veloso - Três Caravelas [Las Três Carabelas] - 3:06
B3. Caetano Veloso - Enquanto Seu Lobo não Vem - 2:31
B4. Gal Costa - Mamãe, Coragem - 2:29
B5. Gilberto Gil - Bat Macumba - 2:33
B6. Gal Costa, Gilberto Gil, Os Mutantes & Caetano Veloso - Hino do Senhor do Bom Fim - 3:38

27/03/2009

Hardão 70: Sir Lord Baltimore


Por Marcos A. M. Cruz
Colecionador

Existem certas coincidências e correlações que, por mais bizarras que possam parecer, acontecem vez por outra. Uma delas rolou comigo por volta dos dez anos de idade, época em que morava numa cidadezinha chamada Paty do Alferes, próximo à Miguel Pereira, interior do Estado do Rio. Perto de casa havia uma senhora, Dona Elza, que morava só com algumas dezenas de gatos, e numa ocasião estávamos eu e minha mãe na casa dela, que nos mostrou um monte de fotos, algumas junto a personalidades tais como Carmem Miranda (Dona Elza havia sido atriz de teatro), outras com pessoas que aparentavam não ser de nosso país, devido à elegância - e não eram mesmo, pois quando jovem ela viajara mundo afora.

Uma das fotos me chamou a atenção por mostrar um cavalheiro com direito à fraque, cartola e bengala. Não foi necessário perguntar quem era, pois a Dona Elza se antecipou e, meio suspirante, disse que se tratava do "senhor fulano de tal" (logicamente não lembro o nome), um legítimo Lorde de Oklahoma!Quando fomos embora, comentei com a mamãe sobre a tal foto, e ela, confessando estar surpresa, perguntou-me: "Você percebeu?". "Percebi o que?", respondi. "Ué, que ele foi uma grande paixão da Dona Elza!", disse mamãe. "Paixão???", pensei espantado. Era criança, não havia sacado a coisa, podia ser metido a esperto e inteligente (eu era mesmo, CDF de marca maior), mas não tinha ainda malícia para notar certas coisas, foi necessário que a mamãe me despertasse para o suspiro da Dona Elza.

"Não mãe, tô falando que tem alguma coisa errada, pois os lordes são ingleses, e não americanos", disse-lhe, me referindo ao fato óbvio de Oklahoma ficar nos Estados Unidos. Mamãe se limitou a dar de ombros, estava mais fascinada pela história que envolvia um romance do que pela suposta idiossincracia geográfica que eu apontara.

Anos mais tarde, numa de minhas garimpagens vinílicas, dou de cara com uma capa e arregalo os olhos, pensando em voz alta: "Ué, que raios será isto? Um Lorde em Baltimore?", tendo o vendedor respondido, por achar que eu lhe fizera uma pergunta: "Sir Lordão? Isto aí é hardão dubão, pode levar que não tem erro não", sem se dar conta da rima bizonha que havia feito. Claro que, após negociar um prazinho no cheque, voltei para casa feliz e contente com o disquinho na sacola, ao mesmo tempo em que relembrava aquele episódio na casa da Dona Elza e pensava como na vida existem ligações pitorescas entre situações disparatadas.

Antes do Sir Lord Baltimore, o guitarrista Louis Dambra, assinando como Louis Caine, tocou no Koala, banda que lançou um disco em 1968, curiosamente distribuído nos EUA como sendo originário da Austrália! Aparentemente se tratava de uma estratégia da gravadora (Capitol Records) para promover o grupo de Nova York, que praticava uma espécie de "punk de garagem", típico do final dos anos sessenta (é o que dizem, nunca ouvi este disco).

Notaram que eu falei Nova York? Pois é, ao contrário do que possa parecer, o trio formado pelo já citado Louis Dambra, juntamente com Gary Justin no baixo e John Garner na bateria e vocal, na realidade é originário do Brooklin, e não de Baltimore ou região. Muito estranho, concordam comigo?

Pois é, isto torna ainda mais curioso o fato de terem adotado este nome - talvez tenha alguma relação com Sir George Calvert, conhecido como The First Lord Baltimore (seu filho e neto foram, respectivamente, segundo e terceiro Lord Baltimore), nobre britânico que fundou Maryland, grande incentivador da colonização dos Estados Unidos, tido como o primeiro a estabelecer os princípios de liberdade civil e religiosa que posteriormente serviriam de inspiração para a própria Constituição Americana. Tão pensando o que? Hardão 70 também é cultura ... Caso se confirme esta hipótese, até pelo fato da capa trazer o desenho estilizado de um navio (alusão aos colonizadores?), faltaria alguém explicar o porque da banda ter escolhido este nome.

O trio consegue despertar atenção de Mike Appel e Jim Cretecos, que já haviam angariado uma certa fama com The Partridge Family (no Brasil conhecidos como A Família Dó-Ré-Mi), e recomendam o grupo para Dee Anthony, na época trabalhando como executivo para a gravadora Mercury Records, com a qual assinam contrato. Appel e Cretecos posteriormente trabalhariam com Bruce Springesteen, e Anthony seria um dos responsáveis pela ascensão de Peter Frampton.


Sob a produção de Appel e Cretecos, juntamente com o lendário Eddie Kramer (engenheiro de som e produtor de confiança de Jimi Hendrix, dentre outros), gravam um álbum, alternando-se entre o Electric Lady Studios de Nova Iorque e o Vantone Studios de New Jersey. Lançado no final de 1970 (algumas fontes dizem que teria sido em fevereiro de 1971), Kingdom Come trazia uma sonoridade bastante pesada para a época, graças aos riffs e solos de Dambra, a marcação precisa do baixo de Justin e o trabalho de bateria e vocais agressivos de Garner, a ponto de ser considerado por alguns como o primeiro álbum de heavy metal da história!

Pode não ter sido de fato primeiro do gênero a ser gravado, mas provavelmente foi o primeiro a ser chamado como tal. Acontece que, apesar de normalmente se atribuir a primazia ao uso da expressão (surgida na década de quarenta como apelido para um catalisador da reação atômica do urânio, e posteriormente usado pelo escritor William S. Burroughs em seus livros) para a clássica canção "Born to be Wild" do Steppenwolf, lançada em 1968, na realidade o "trovão de metal pesado" relatado na letra se trata do ronco de uma Harley, e não de uma determinada vertente do rock. 


Por outro lado, se formos considerar somente a associação do termo com a música, o pioneiro foi um grupo chamado Hapshash & The Coloured Coat, que lançou em 1967 um disco chamado Featuring the Human Host and the Heavy Metal Kids.

Existem muitas teorias, algumas dizendo que o primeiro a fazer uso da expressão para descrever um gênero musical teria sido o lendário crítico musical americano Lester Bangs (aquele retratado no filme Quase Famosos) num texto de 1970, outras que um jornalista teria usado para relatar um show do Blue Oyster Cult para um jornal de Nova York em 1971, e até quem afirme que já em 1968 alguém se referira ao MC5 usando o termo. 


Porém, comprovado mesmo é o texto de autoria de outro crítico musical chamado Mike Saunders, publicado originalmente na edição de maio de 1971 da Creem (publicação americana sobre música), onde ele, que passaria a ser conhecido posteriormente como "Metal Mike", ao resenhar o Kingdom Come chama o Sir Lord Baltimore de heavy metal - curiosamente, nesta mesma edição da revista surgiria a expressão punk rock, ou seja, embora seja difícil de ser admitido por alguns, com base nisto podemos dizer que ambos os gêneros são literalmente irmãos gêmeos.

Em 19 e 20 de fevereiro de 1971 o Sir Lord Baltimore toca no lendário Fillmore East, juntamente com o J. Geils Band e o Black Sabbath; entretanto, ao que parece, eles desagradam imensamente o dono do local, Bill Graham, que literalmente expulsa a banda do palco, alegando que sua apresentação era horrível ("hordas de adolescentes gritando tresloucadamente e uma barulheira infernal no palco" teria comentado Graham, não exatamente com estas palavras).


Não vou chegar ao ponto de dizer que o segundo álbum, intitulado somente Sir Lord Baltimore, seja horrível, mas comparado ao primeiro realmente deixa bastante a desejar, pois ao invés do peso do anterior, neste eles resolveram investir numa sonoridade mais rebuscada, quase progressiva, embora - na minha opinião - sem muita inspiração. Mas vale lembrar que nesta ocasião eles já haviam rompido com Appel e Cretecos, e em seu lugar estava o produtor John Linde, que assim como a dupla, também é co-autor de todas as faixas, portanto pode ser que ele é quem tenha sido o responsável pela mudança de direcionamento musical. Por outro lado, neste disco, que foi o canto de cisne da banda, eles contam com um quarto integrante, Joey Dambra, irmão de Louis, tecladista e também guitarrista, que ainda por cima ajuda em alguns vocais.

Não se sabe o que aconteceu com Louis Dambra e Gary Justin; o irmão de Louis, Joey, foi para uma banda chamada Community Apple, e depois participaria do 44th Street Fairies, grupo composto por ninguém menos que John Lennon, além de May Pang, Lori Burton e Joey, que se tornaria famoso por atuar como backing vocal na canção "No. 9 Dream", que Lennon lançaria no álbum Walls and Bridges (1974). Ao que consta, foi só isto que fizeram.


Já John Garner supostamente toca no auto-intitulado álbum do Bloddy Mary, de 1974, embora seu nome não conste nos créditos, e anos mais tarde iria tocar junto a Vince Martell (Vanilla Fudge, tendo posteriormente ingressado no The Lizards, que já lançou seis bons CDs (sendo dois ao vivo), numa praia um pouco mais bluesy.

Engana-se quem acha que o Sir Lord Baltimore nunca foi lançado no Brasil. A compilação Crazy, Baby, Crazy!!, editada em 1971, traz a faixa "Hard Rain Fallin'", juntamente com temas do Lucifer´s Friend, Blue Cheer, Colosseum, Juicy Lucy, Warhorse, May Blitz e várias outras bandas. Seria um disco maravilhoso, não fosse o fato de NENHUMA música estar completa, todas possuem cerca de dois minutos de duração apenas!  Na realidade, este álbum faz parte de uma coleção trazendo nomes como Groove, Baby, Groove!!, Cool, Baby, Cool!!, Brasa, Bicho, Brasa!! e outros, contendo faixas de artistas de tudo quanto é vertente, desde Beatles até Ella Fitzgerald, passando por Claudette Soares, Paul Mauriat, Cacique de Ramos(!), etc. Um dos volumes (Beat, Baby, Beat!!) mistura Cactus, MC5, Shotgun Ltd e Wilson Pickett!


Os dois álbuns do Sir Lord Baltimore foram relançados em CD em formato 2X1 pela Polygram, além de existirem em edições piratas européias, que eu desaconselho, pois foram extraídas de velhos LPs - para se ter idéia, existe uma prensagem do
Kingdom Come que chega a trazer um pulo numa faixa! O único senão deste 2X1 é que traz as músicas totalmente fora de ordem, de acordo com o produtor, com objetivo de "propiciar uma melhor audição". Eis a sequência correta, caso o leitor queira montar os álbuns conforme foram editados originalmente:

Kingdom Come (1970)
Lado A: "Master Heartache"/ "Hard Rain Fallin'"/ "Lady of Fire"/ "Lake Isle of Innersfree" e "Pumped Up"

Lado B: "Kingdom Come"/ "I Got a Woman"/ "Hell Hound"/ "Helium Head (I Got a Love)" e "Ain't Got Hung On You".

Sir Lord Baltimore (1971)
Lado A: "Man From Manhattan" e "Where Are We Going".

Lado B: "Chicago Lives"/ "Loe and Behold"/ "Woman Tamer" e "Caesar LXXI".

Desde junho de 2003 está rolando um boato que dá conta do retorno das atividades do Sir Lord  Baltimore, que contaria com John Garner e Louis Dambra, juntamente com algum outro baixista, pois Gary Justin não teria topado fazer parte da reunião. Não é a primeira vez que isto ocorre, já em 1976 foi noticiado que o grupo iria gravar um novo disco, que até hoje não apareceu, portanto é difícil saber se é verdade ou não. Particularmente fico com um pé atrás em relação a essas coisas, podem me chamar de retrógrado e conservador, mas prefiro ficar com meu bolachão do
Kingdom Come, ao mesmo tempo em que contemplo a capa e tento entender como pode um lorde ser americano e mesmo assim ser tão imponente e majestoso.

Leia também:

Classic Tracks: Guess Who - American Woman (1970)


Por Ronaldo Rodrigues
Colecionador
Collector´s Room
Apresentador do programa
Estação Rádio Espacial
Solid Rock Radio

No final dos anos sessenta e ínicio dos setenta, o Guess Who era o que havia de mais popular vindo do Canadá em se tratando de rock. A banda, apesar de ficar razoavelmente famosa apenas no fim dos
sixties, já vinha na estrada desde os idos de 1964-1965, com seu som beat-garageiro. Já tinha feito um sucesso grande com a canção “These Eyes” entre 1968 e 1969. O estouro veio mesmo em 1970 com o disco American Woman, uma coleção de pérolas musicais em se tratando de composições inspiradas. O grupo, naquele ano, era formado por Burton Cummings, Randy Bachmann, Jim Kale e Gary Peterson.

A música surgiu a partir de uma base improvisada em um show e foi gravada ainda em 1969. “American Woman”, faixa de batismo do disco, vinha logo de cara na bolacha e já dava as cartas, começando com um blues safado soletrando A-M-E-R-I-C-A-N. A letra da música, que só pelo título pode até parecer um ode sexual às mulheres do lado de lá da fronteira, na verdade é um tremendo esculacho provocativo do letrista com as garotas estadunidenses – “
go, gotta get away” ; “american woman get it away from me” ; “I don’t wanna see your face no more!” (devemos lembrar que existe entre os Estados Unidos e o Canadá aquelas infundadas rivalidades fronteiriças). Randy Bachmann já chegou a afirmar que a citada “american woman” seria a estátua da liberdade e, por consequência, a letra assumiria até um tom anti-guerra.

Depois do ínicio acústico (podado nas versões radiofônicas e no single), vem um riff simples baseado em dois acordes que acompanha a música por toda sua extensão, com característicos efeitos tremolo que dão uma base cadenciada para os viscerais vocais de Cummings (na minha opinião um dos maiores vocalistas da época) e para o fuzz da guitarra de Randy Bachmann (futuro Bachmann-Turner Overdrive), soprando forte para reacender as últimas brasas do acid rock. Na canção, tudo soa simples, mas a interpretação do Guess Who é indiscutivelmente boa e sua pegada é incomparável. Magia pura, como as canções dos Beatles. A singeleza bem aplicada e a alma entregue no balanço sensual da música tornam-a memorável.

O single de “American Woman” tinha no lado B a canção “No Sugar Tonight”. O disco vendeu muito bem e a música foi hit naquele ano, ficando três semanas no top#100 da
Billboard, dividindo o top da parada com os Beatles e o Jackson Five. Chegou a fazer sucesso também na Europa, alcançando a 19º posição nas paradas do Reino Unido. A banda até participou do programa de TV Beat Club da emissora Bremen, na Alemanha (lamentevelmente em playback, o que não era comum acontecer naquele período nas gravações do programa). 

Ao vivo, o grupo fazia longas e incríveis versões de "American Woman" em clima de jam session e com solos individuais, tal como registrado no essencial Live at Paramount de 1972 (em suspirantes dezessete minutos de duração). 

A música já figurou em várias listas das melhores canções de rock e voltou a ficar famosa (e a ser conhecida por novos rockers) pela releitura de Lenny Kravitz, integrando a trilha sonora do filme Austin Powers – The Spy Who Shagged Me. Do mesmo disco também saiu outro hit do grupo – “No Time”, regravada com uma versão um pouco diferente da primeira registrada no álbum Canned Wheat.

Classic Tracks: Wishbone Ash - Blowin´ Free (1972)


Por Ronaldo Rodrigues
Colecionador
Apresentador do programa Estação Rádio Espacial
Solid Rock Radio

Banda inglesa de alta notoriedade na época, que começou a trilhar o caminho para a fama após ser recomendada por ninguém menos do que Ritchie Blackmore do Deep Purple para a MCA. Em 1972, o Wishbone Ash vivia seu esplendor tanto comercial quanto artístico devido ao bem-sucedido
Argus, disco que rendeu à banda o título de grupo revelação na imprensa britânica e figurou entre os melhores lançamentos daquele período altamente fértil no rock.

"Blowin’ Free" é uma das principais faixas desse disco, que em um todo é excelente. Mas a canção se destaca porque, além de conseguir ser ao mesmo tempo sofisticada, climática e empolgante, ainda é assobiável e muito pegajosa aos ouvidos. O Wishbone Ash tinha um poder comum às grandes bandas do início dos anos setenta – conseguir transformar uma levada simplista em algo mais avançado com uma naturalidade absurda. 

Partindo de uma estrutura de blues-boogie, a banda inclui intervenções geniais de guitarra com toques clássicos (como na introdução) e passagens climáticas onde aproveitam efeitos como reverb e delay para criar atmosferas tranquilas e reflexivas, tudo isso com um senso musical elevado, que combina as idéias com equilíbrio. Os vocais completam a massa sonora com maestria, dobrados e harmonizados ao longo de toda a canção. 

A temática do álbum (a começar pela capa) pendia para batalhas medievais e assuntos que vagavam entre o histórico e o mitológico. As guitarras dobradas e as influências do folk bretão favoreciam isto. A letra de "Blowin’ Free" já foge um pouco, com uma temática mais banal de um relacionamento garoto-garota, mas com uma sutileza que passa longe do piegas.

A banda, que até seu disco
Pilgrimage de 1971 ainda não tinha encontrado muito bem a fórmula para caracterizar seu som, demonstra ter alcançado a maturidade em Argus, que abriu de vez as portas para o sucesso em toda a Europa e EUA, onde dividiram o palco com os grandes nomes da época. “Blowin’ Free” é um hit exigido por todos os fãs em qualquer apresentação que seja, independente da formação (que já foram muitas) ou do período que o grup atravessava.

“Blowin’ Free” saiu no lado B do single, cujo lado A era a canção “No Easy Road”. O disco foi bem sucedido no Reino Unido, ficando entre os três mais vendidos.


Discos Fundamentais: Sir Lord Baltimore - Kingdom Come (1970)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Uma da bandas mais cultuadas do hard rock setentista, o Sir Lord Baltimore foi formado em 1968 no bairro do Brooklyn, em Nova York, pelo vocalista e baterista John Garner, pelo guitarrista Louis Dambra e pelo baixista Gary Justin. O trio se conheceu na escola, e começou a ensaiar com afinco naquele mesmo ano.

As coisas começaram a acontecer para o Sir Lord Baltimore quando a banda conheceu Mike Appel, empresário iniciante e que, alguns anos mais tarde, se tornaria 
manager de Bruce Springsteen. Appel deu ao grupo o seu nome definitivo, além de ser o co-autor de várias faixas e um dos produtores do disco de estréia do grupo.

Batizado de
Kingdom Come, o álbum foi gravado nos estúdios Vantone, en Nova Jersey, e foi produzido por Mike Appel e Jim Cretecos. A mixagem final foi realizada pelo lendário Eddie Kramer no Electric Ladyland Studios, cujo dono era um tal de Jimi Hendrix. Diz a lenda que durante o processo de mixagem os integrantes do Pink Floyd teriam ouvido o disco e ficado muito impressionados com a música do Sir Lord Baltimore.

Kingdom Come chegou às lojas em 1970 trazendo um hard pesadíssimo, repleto de grandes riffs. O baixo de Gary Justin colocava ainda mais peso às músicas, enquanto a bateria de John Garner imprimia um ritmo tribal ao proto heavy do grupo. O som lembra o Black Sabbath do início, com algumas músicas mais arrastadas e carregadas com uma atmosfera sombria e aterrorizante. O crítico Mike Saunders, da Creem Magazine, escreveu um review bastante favorável ao grupo, que se tornou histórico por ser apontado como a primeira vez em que o termo “heavy metal” foi utilizado como referência a um estilo musical. Só por aí dá pra sentir a influência do Sir Lord Baltimore na música pesada.

Entre as dez faixas de
Kingdom Come, destaco a que dá nome ao disco, “Hell Hound”, “Helium Head”, “Ain´t Got Hung on You”, “Master Heartache” e “Lady of Fire”. Além do conteúdo musical de primeira, Kingdom Come tem como destaque a belíssima capa, que traz a pintura de um fantasmagórico navio.

Pra fechar, vale dizer que a banda voltou à ativa e inclusive lançou um álbum inédito em 2006, batizado como
Sir Lord Baltimore III Raw, contendo músicas que haviam sido compostas originalmente para um disco que seria lançado em 1976, mas que acabou abortado com o fim das atividades do grupo.

Historicamente, o Sir Lord Baltimore tem importância similar para o heavy metal que grupos consagrados como Black Sabbath, Led Zeppelin e Deep Purple ostentam, o que já seria motivo mais do que suficiente para o grupo ter um reconhecimento incontestável mundo afora, o que, infelizmente, não ocorreu.

Faixas:
A1. Master Heartache - 4:35
A2. Hard Rain Fallin' - 2:55
A3. Lady of Fire - 2:50
A4. Lake Isle of Innisfree - 4:03
A5. Pumped Up - 4:03

B1. Kingdom Come - 6:40
B2. I Got a Woman - 3:00
B3. Hell Hound - 3:17
B4. Helium Head (I Got a Love) - 4:00
B5. Ain't Got Hung on You - 2:20


Discoteca Básica Bizz#040: Nico - Chelsea Girl (1967)


(Fernando Naporano, Bizz#=40, novembro de 1988)

Manhã de 18 de julho de 1988, Ibiza. Nico, a
femme fatale do Velvet Underground, estava morta. Vítima de uma hemorragia cerebral após uma queda de bicicleta. 

Às vezes, a vida prega peças extremamente irônicas. Justamente ela, uma notívaga por excelência, alcoólatra e junkie, despede-se num ensolarado passeio matinal. No dia seguinte, em Berlim, o cobiçado corpo de Christa Paffgen estava cremado. A idade e a nacionalidade de Nico (um anagrama de icon) é tema de discussão, pois uns dizem que ela nasceu em outubro em Colônia, Alemanha, em 1938 ou 1944, enquanto outros afirmam que foi em março em Budapeste, Hungria, em 1943.

Dúvidas à parte, sabe-se que a incursão musical dessa modelo e atriz (sua primeira aparição cinematográfica foi no filme
La Dolce Vita, de Fellini), educada entre a França e a Itália, foi em 1964, quando se mandou para Nova York e arrumou emprego como cantora de bar. Conheceu e fascinou Bob Dylan, que levou-a a Andy Warhol, que, por sua vez, nos idos de 1965, apresentou-a ao recém-fundado Velvet Underground, em que permaneceu como cantora até 1967, tendo participado apenas do primeiro LP, White Light White Heat, da psicodelia americana. Ainda em 1967, após sua participação no Exploding Plastic Inevitable (projeto multimídia do Velvet concebido por Warhol), a chanteuse optou pela carreira solo.

Dona de uma personalidade febril e suicida, era bastante descolada no jet set musical, se já não bastasse ser apadrinhada pelo mestre da pop art e ter adquirido uma controvertida fama com o Velvet. Tendo o badalado cineasta Paul Morrisey como
manager, não foi difícil convencer o produtor Tom Wilson a gravar seu debut como solista.

Chelsea Girl, o disco em questão, lançado em fins de 1967, cujo título é quase homônimo ao filme de Andy Warhol (Chelsea Girls), é um dos trabalhos mais sensíveis e cinzentos da década de sessenta. Uma obra lapidada por sua insofismável melancolia, (re)visitando os porões proibidos da paixão, plenos de mistérios, medo e tristeza. Com cinco canções escritas pelos integrantes do Velvet - cujos destaques são a cold-ballad "The Winter Song" (John Cale) e a hipnótica "Chelsea Girls" (Lou Reed/Sterling Morrison) -, três do então adolescente Jackson Browne (entre elas a arrepiante "These Days"), uma do outsider Tim Hardia e outra de Bob Dylan ("I´ll Keep It with Mine") feita especialmente para ela, Chelsea Girl é um LP em que Nico, com sua voz suave e penetrante, melancólica e glacial, personifica-se como uma idiossincrática folk singer, ladeada por arranjos orquestrais, sutis nuances psicodélicas e um rockmântico gosto amargo de 60´s beat-ballads.

Após a estréia em 1967, a noirchanteuse (ilu)minada por uma vida errática, gravou até sua morte um total de nove LPs, sendo que durante sete anos esteve afastada da música, graças a sucessivas crises existenciais, sublimadas em gim e heroína. Entre seus memoráveis LPs, temos o folk-minimal Marble Index (produzido por John Cale, que sobre o fracasso comercial do disco declarou: "Como é possível vender o suicídio?"), o delicado semi-experimentalista Desert Shore, o clássico The End (em que fincada em seu harmônio minimal regrava "The End" dos Doors e a tradicional "Das Lied der Deutschen"), o gótico-claustrofóbico Drama of Exile (demonstrando também que, sem querer, apenas por uma questão de natureza, foi precursora da dark music) e o doloroso Camera Obscura (um trabalho que, além da sublime cover de "My Funny Valentine", conta com inserções de elementos do gênero pós-industrial). 

Hoje, sua obra, embora um tanto quanto obscura, legou uma irreparável influência que cantoras/compositoras contemporâneas como Danielle Dax e Diamanda Galas continuam a reciclar sob uma nova ótica.

Faixas:
A1. The Fairest of the Seasons - 4:08
A2. These Days - 3:33
A3. Little Sister - 4:26
A4. Winter Song - 3:20
A5. It Was a Pleasure Then - 8:05

B1. Chelsea Girls - 7:25
B2. I'll Keep It With Mine - 3:20
B3. Somewhere There's a Feather - 2:20
B4. Wrap Your Troubles In Dreams - 5:09
B5. Eulogy to Lenny Bruce - 3:45

Leia também: Discoteca Básica Bizz#007 - Velvet Undergroud - The Velvet Underground & Nico (1967)

26/03/2009

Baú do Mairon: o Genesis sem Phil Collins


Por Mairon Machado
Colecionador

Quando estamos aprendendo a conhecer sobre o rock progressivo, assim como aprendemos o be-a-bá, ouvimos falar sempre de cinco bandas básicas: Pink Floyd, Yes, King Crimson, ELP e Genesis. Cada uma possuía características distintas entre si, mas, porém, a sonoridade levou-os a serem reconhecidos como os principais divulgadores deste estilo de som. Claro, Van Der Graaf Generator, Gentle Giant, Soft Machine, Gong, Tangerine Dream, entre outros, também foram importantes para o progressivo, mas o quinteto acima foi o que conseguiu conquistar mais fãs ao redor do mundo.

E tratando-se apenas do Genesis, é impossível negar que esse nome ficou claro à sociedade graças às fantasias de Peter Gabriel (voz, flautas), o estilo inconfundível de Steve Hackett (guitarras, violões de seis cordas), o talento de Tony Banks (teclados, violões de doze cordas) e a cozinha poderosa de Mike Rutherford (baixo, violões de doze cordas) e Phil Collins (bateria, voz), que lançaram os fabulosos álbuns Nursery Cryme (1971), Foxtrot (1972), Live (1973), Selling England by the Pound (1973) e The Lamb Lies Down on Broadway (1974). Com a saída de Gabriel em 1975, o Genesis teve sua fase quarteto, lançando os ótimos A Trick of the Tail (1976) e Wind & Wuthering (1977), bem como o ao vivo Seconds Out (também de 1977); e, sem Hackett, então eles eram três lotando estádios com hits como "Invisible Touch", "I Can't Dance", "Mama" e "Home by the Sea", sempre capitaneados pelos vocais de Phil Collins e acompanhados por Dayel Stuermer (guitarras) e Chester Thompson (bateria).

Porém, antes de Collins ser o mega-milionário de hoje e símbolo do auge comercial geneseniano, a banda era uma college band de destaque no cenário britânico, com uma sonoridade bem diferente daquela que os tornou conhecidos.

A gênese do Genesis começa na escola de Charterhouse. Lá, ainda no ano de 1963, Peter e Tony ingressaram para cursar o segundo grau (ensino médio). Em 1964 chegava à escola Mike, e em 1965, Anthony Philips (guitarras, violões de seis e doze cordas). Como toda gurizada adolescente, o som rolava direto nas casas e garagens da região e, assim, surgiu a Anon, formada por Anthony, Mike, Rob Tyrrel (bateria), Richard McPhail (voz) e Rivers Job (baixo), e a Garden Wall, com Gabriel, Tony e Chris Stewart (bateria). Em 1966, Job e McPhail saíram da escola, deixando a Anon somente como trio, o que culminou com o encerramento da banda. Anthony passou a integrar a Garden Wall, a qual já vinha fazendo algumas apresentações mais impactantes pela região, sendo que em uma delas, com Job tocando baixo, Gabriel atirou pétalas de rosas ao público.

Vale ressaltar que todos os garotos provinham de lares típicos da burguesia britânica, com hábitos bem diferentes dos demais, sendo que Tony estudou piano clássico desde pequeno. Com o fim da Anon, Mike e Anthony começaram a pensar em um novo projeto, com o qual contavam com a colaboração de Tony. Porém faltava vocalista, e daí Gabriel apareceu na jogada, graças à insistência de Tony. Muitos reviews que li falam sobre Gabriel ter entrado na banda como baterista, mas segundo o box Archive 1967-75 (1998), ele realmente foi convidado para ser o vocalista. 

Banda formada, hora de juntar grana e começar a gravar. Várias composições surgiram, entre elas as raras "Listen on 5", "Don't Wash Your Back", "Patricia" e "Try a Little Sadness". Assim, gravaram uma fita que chegou às mãos de Jonathan King, o qual era um conhecido dos tempos da Charterhouse e que trabalhava para o presidente da Decca Records (a mesma dos Stones). King ajudou os garotos no processo de desenvolvimento das canções, influenciando bastante, principalmente na inclusão de orquestrações e no trabalho das linhas vocais, já que King adorava o Bee Gees (da época, diga-se de passagem). 


Assim, conseguiram um contrato com a Decca, lançando seu primeiro compacto, com "The Silent Sun" e "That's Me", no dia 22 de fevereiro de 1968. Um fato no mínimo curioso ocorreu no momento da assinatura dos papéis. Como eram menores, foi necessário a autorização dos pais para a realização de tal assinatura. Porém, o contrato proposto pela Decca era de quatro anos, o que levou os pais de Gabriel, Tony, Anthony e Mike à loucura, já que eles queriam ver seus filhos formados e não músicos. Mesmo assim, toparam assinar um contrato de um ano com direito a renovação para mais um. Stewart foi o batera da sessão de gravação deste compacto, comprovando que Gabriel realmente era só o vocal. O nome Genesis também foi obra de King, já que ele queria mostrar ao público que algo novo estava entrando no mercado.


Em 10 de maio de 1968 lançam seu segundo compacto, com "A Winter's Tale" e "One Eyed Hound", mas, com a fraca divulgação, ambos não venderam nada. A essas alturas, Tony estava cursando Física na Universidade de Essex e Gabriel estava estudando para passar no teste da Escola de Cinema de Londres. Porém, a gana por tocar de Mike e Anthony os convenceram a ficar mais um tempo, além do fato de King ter aberto as portas da Decca para a produção do primeiro LP, o qual começou a ser gravado em julho de 1968, já contando com o novo baterista, John Silver. Porém, durante a mixagem do álbum, descobriu-se que existia um outro Genesis nos Estados Unidos. Mike e Gabriel pensaram em Revelation, mas também já existia. Então, lançaram o álbum como From Genesis to Revelation, o qual trazia no encarte a justificativa: "agora somos um grupo sem nome, mas temos um disco e queremos distribuí-los a vocês, com ou sem nome". Bons tempos aqueles em que as bandas tentavam se comunicar com os fãs.


Temos um álbum muito diferente do que viríamos a conhecer nos posteriores, com uma temática religiosa fortemente empregada, contando com letras muito místicas, as quais falavam sobre a aurora do homem e de sua evolução, sempre através do ponto de vista bíblico. De cara, a faixa "Where the Sour Turns to Sweet" traz o piano e a voz de Gabriel acompanhados por estalos de dedos e violões. A canção segue com piano e violões construindo a base para o desenrolar da letra, contando ainda com participações de cordas, coral feito pela banda e intervenções de metais. 

"In the Beginning" começa com uma barulheira, seguida pelo baixo e bateria no melhor estilo Animals. Os violões acompanham o vocal de Gabriel em uma das canções mais agitadas e legais do álbum. Na sequência, os pianos introduzem a bela "Fireside Song", a qual segue com o acompanhamento de cordas e violões. "The Serpent" traz em sua introdução parte do tema que apareceria posteriormente em "Twilight Alehouse" (bônus do LP Nursery Cryme), e segue a linha das canções anteriores, contando com muitos violões, teclados, coral e intervenções de guitarra. "Am I Very Wrong?" e "In the Wilderness" encerram o lado A mantendo o clima leve do álbum, com a participação do piano, dos violões e orquestrações.

O lado B começa com "The Conqueror", na mesma linha do lado A. Destaque para as vocalizações e também para o mellotron. A curta "In Hiding", somente com violões, teclados e vocais, além de intervenções orquestrais, dá sequência ao álbum junto a "One Day", cheia de cordas, metais e violões. O piano introduzindo "Window" traz mais uma bela canção, com os metais e os violões acompanhando a letra, a qual já conta com as vocalizações que iriam aparecer nos futuros álbuns da banda. "In Limbo" mantém a linha de "The Conqueror", porém com um final bem diferente das demais canções do disco, com Anthony mandando ver na guitarra, enquanto "Silent Sun", a única contando com Chris Stewart na bateria, retoma as baladas com orquestras e violões. Finalmente, "A Place to Call My Own" encerra o álbum com os vocais sobre a linha de piano, terminando com passagens orquestrais esse bom álbum de estréia.

From Genesis to Revelation foi lançado com uma capa preta com o título em letra tipografica gótica escrita em dourado. Desta forma, era catalogado em lojas de música nas seções religiosas, sendo muito difícil de ser encontrado, com as suas vendas iniciais alcançando somente 600 cópias. Aqui no Brasil o disco não foi lançado em sua versão original, mas existem no mínimo dois relançamentos, "In the Beginning" e "Where the Sour Turns to Sweet" que, além das treze faixas originais, trazem diversas outras composições da fase inicial da banda.

Mesmo com o fracasso comercial a banda já estava contagiada, e decidiram seguir carreira, com Tony largando os estudos para se dedicar exclusivamente à música. Silver partiu dessa para uma melhor, retornando aos estudos e sendo substituído pelo batera John Mayhew, o qual entrou na banda graças ao periódico Melody Maker. Além disso, McPhail reapareceu nas redondezas, e decidiu empresariar o grupo.

Em março de 1970 começava a surgir uma das grandes gravadoras do cenário inglês, a Charisma Records, a qual possuía como chefão o carismático Tony Stratton Smith. Através de amigos, o assistente pessoal de Smith, John Anthony, que foi responsável pela contratação do Van Der Graaf Generator pela gravadora, resolveu conferir o trabalho dos garotos e se encantou. A Decca tentou em vão negociar mais um contrato de renovação, mas já era tarde. Assim como os Beatles e o embrião do King Crimson, o Giles, Giles & Fripp, a Decca via uma potência de vendas ir por água abaixo.


Rapidamente a banda entrou em estúdio e em julho de 1970 era lançado o álbum Trespass, que já mostrava que o Genesis estava realmente preocupado com o que iria chegar ao público, trazendo um trabalho com faixas mais longas e arranjos bem mais elaborados. O disco abre com a bela "Looking for Someone", com Gabriel cantando muito. Cada instrumento é apresentado devagar, começando pelos teclados e baixo, culminando com a bateria quebrando tudo. O ritmo lento da canção, com Anthony fazendo suas intervenções, dá espaço para uma sessão instrumental bem viajante, onde a guitarra e o teclado duelam ferozmente, com a cozinha mandando ver. A flauta de Gabriel se faz presente, deixando a canção novamente lenta. A letra é retomada, porém dando uma nova cara para a música, que segue mostrando toda o aprendizado da banda, com vários duelos de teclado e bateria e a constante presença da flauta. 

O LP segue com "White Mountain", onde os teclados dão espaço para os violões dedilhados de doze e seis cordas entoarem uma linda melodia, que segue somente pelos violões, que fazem a base com a bateria acompanhando a canção, enquanto Peter Gabriel canta a emotiva letra. O refrão lembra as faixas do primeiro álbum, porém os teclados já apresentam uma sonoridade bem mais elaborada. Temos um pequeno tema instrumental, com a participação de Gabriel nas flautas. A letra é retomada, seguida de um acompanhamento mais lento para a mesma. Destaque aqui para os diversos instrumentos que surgem, como flautas e guitarras, que fazem pequenas intervenções. A canção termina com o teclado executando alguns acordes enquanto temos o assovio de um cidadão, com um coral cantando sobre camadas de teclados e violões. 

O lado A encerra com "Visions of Angels", outra linda canção que começa somente ao piano. O belo trabalho de baixo e guitarra, com o acompanhamento suave da bateria, traz os vocais de Gabriel, que segue uma linha bem parecida com as músicas de From Genesis to Revelation, porém contando com mais uma bela sessão instrumental, cheia de flautas e mellotrons. 

A belíssima "Stagnation" abre o lado B. Novamente os violões trazem a letra da canção, que possui um acompanhamento suave do teclado. O piano marca presença, dando espaço para um solo de teclado bem viajante. Anthony e Mike estavam soberbos na execução dos violões e o tema instrumental mostra como o Genesis havia esquecido o período college e encarava realmente o trabalho como fonte de produção. O ritmo da canção ganha velocidade, abrindo espaço para o órgão solar, agora contando com o acompanhamento de baixo e bateria. Uma flauta interrompe a sessão, trazendo um novo clima, com mellotron e violão acompanhando a letra. Mais uma bela sessão de violão e voz dá sequência para o encerramento da faixa, que traz um belo tema de flauta, acompanhado pelo final da letra. Com certeza essa é uma das grandes canções da banda, e para quem gosta de "Musical Box", por exemplo, será uma ótima sobremesa. 

"Dusk" mantém a sessão acústica. Os violões dedilham para Gabriel cantar quase que agonizando. O refrão traz os vocais de Anthony, Tony e Mike, acompanhados por teclados. A segunda parte da letra começa agora com os teclados acompanhando os violões, seguida pelo refrão. Gabriel executa um pequeno solo de flauta, com a música ganhando uma cadência mais agitada. Mas o que chama a atenção mesmo é o belo trabalho de violões construído por Mike e Anthony, o que viria a influenciar bastante na escolha do substituto de Anthony. 

Por fim, os teclados introdutórios de "The Knife" dão espaço para uma canção bem pesada e diferente das demais músicas do álbum. As guitarras se fazem presente, com Gabriel cantando uma letra super difícil em uma melodia mais complicada ainda. A velocidade da canção aumenta, com a bateria de Mayhew a todo vapor, enquanto Philips executa riff em cima de riff. O ritmo cavalgar da canção segue durante quase quatro minutos, mudando completamente, agora com baixo e bateria marcando o tempo para teclado e guitarra viajarem, enquanto a flauta se faz presente com um pequeno solo. A guitarra sola novamente, terminando a faixa com uma sequência pesadíssima da banda, onde o teclado sola sobre uma camada de riffs iguais executados por baixo, bateria e guitarra, e Gabriel entoando as últimas palavras desta ótima faixa. Um último destaque para Trespass está na belíssima capa elaborada por Paul Whitehead, mostrando que o Genesis havia se modificado, e muito.


Mayhew foi despedido pela banda por causa de sua forte depêndencia musical, ou melhor, pouca técnica mesmo, enquanto que Philips pediu o boné por que estava desiludido com a vida de guitarrista, preferindo seguir seus estudos de música clássica e orquestra, que o levou anos depois a lançar os belos álbuns The Geese & the Ghost (1977) e Wise After the Event (1978). Então, os demais integrantes colocaram diversos anúncios atrás de um novo baterista e de um novo guitarrista. Aí apareceram Phil Collins e Mick Bernard, sendo que o último não durou muito e foi substituído por Steve Hackett, dando então origem a mais clássica formação da banda.


Ainda sem Phil Collins, o grupo lançou o bom álbum Calling All Stations no ano de 1997, contando com Ray Wilson (ex-Stiltskin, Guaranteed Pure) que trouxe novamente o nome do Genesis ao mercado, principalmente na Europa, onde o disco vendeu bastante, mas que foi malhado justamente por não ter aquele que é um dos personagens principais na carreira desta grande banda inglesa.


Recentemente, Collins voltou, ao lado de Mike, Tony, Daryel e Chester, fazendo uma turnê com direito até ao lançamento de DVD (When in Rome 2007). Porém, pouco se sabe sobre o que vai ser da banda e se ainda vai ser lançado material inédito ou promissor como o contido em seus dois primeiros álbuns.

Discos Fundamentais: Flower Travellin´ Band - Satori (1971)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

A Flower Travellin´ Band foi fundada em 1969 em Tóquio, capital japonesa, e encerrou suas atividades em 1973. O line-up contava com o guitarrista Hideki Ishima, com o baixista Jun Kobayashi, com o batera Joji "George" Wada e pelo vocalista Akira "Joe" Yamanaka. Nesse curto período de tempo o grupo lançou quatro álbuns (Anywhere em 1970, Satori em 1971, Made in Japan em 1972 e Make Up em 1973), entre os quais o meu preferido, e da maioria dos críticos, é o Satori.

Composto por apenas cinco longas faixas, o disco é de uma originalidade absurda, pois une riffs pesadíssimos de guitarra carregados de melodias tipicamente orientais, resultando em um som único. As linhas vocais tem claras influências dos primeiros trabalhos do Black Sabbath, enquanto o timbre do vocalista Akira Yamanaka remete a Robert Plant.

Satori é daqueles discos que você estranha à primeira audição, mas sente que tem algo especial nas mãos, e, a cada novo play no CD player vai entrando mais e mais em um mundo novo, repleto de novas possibilidades e caminhos sonoros.

O vinil é raríssimo, uma preciosidade disputada à tapa. Já o CD foi relançado recentemente, e é relativamente fácil de ser encontrado as lojas especializadas.

Satori é um disco recomendadíssimo, um clássico obscuro do hard setentista, que todo e qualquer colecionador de hard rock deveria ter em sua coleção, mas que, infelizmente, pouca gente conhece.

Faixas:
A1. Satori, Part 1 - 5:22
A2. Satori, Part 2 - 6:56
A3. Satori, Part 3 - 9:40

B1. Satori, Part 4 - 10:53
B2. Satori, Part 5 - 6:56


Discoteca Básica Bizz#039: Marvin Gaye - What's Going On (1971)


(José Augusto Lemos, Bizz#039, outubro de 1988)

Quando, em 1985, o
staff do New Musical Express elegeu este O Melhor LP de Todos os Tempos, houve alguma surpresa e nenhuma contestação. Afinal, a primeira coisa que se pode dizer sobre o disco é que nunca houve tamanha síntese - gospel, rhythm'n'blues, jazz e doo-wop na mútua fertilização de uma soul music 24 quilates e 1.001 filigranas.

Marvin Gaye atravessara a década de sessenta como um curinga no celeiro/linha-de-montagem da Motown - além de gravar como cantor, participava aqui e ali como compositor, arranjador, produtor e instrumentista (além de piano, toca bateria em vários dos hits das Supremes). Todos os contratados da gravadora tinham, porém, de se encaixar no rígido molde pop ditado e concebido por Berry Gordy Jr. Do repertório ao vestuário, passando por aulas de dicção e boas maneiras, todas as arestas de negritude eram aparadas em nome de um romantismo platônico e doce (mas nunca meloso). O transe carnal dos blues e
spirituals do gospel ainda estava lá, mas em baixíssimos teores.

Com essa fórmula, Gordy - tendo iniciado seu selo independente a partir de sua loja de discos - tomou conta das eletrolas e radinhos de pilha do universo. Pop clássico, eterno - mas uma camisa-de-força para talentos como Marvin Gaye e Stevie Wonder, cujo potencial só seria revelado no começo dos anos setenta, quando conquistaram sua autonomia dentro da gravadora.

What's Going On foi a primeira batalha ganha nessa guerra e custou todo o cacife do cantor. O lançamento atrasou alguns meses porque a Motown não queria editá-lo de jeito nenhum, alegando que as músicas eram longas demais; não tinham começo, nem meio, nem fim; não falavam de amor, e sim de religião, política, drogas, ecologia. Marvin ameaçou não gravar mais uma nota sequer pela gravadora, e fez pé firme. Ganhou estourando a banca. Três das faixas - a título, mais "Mercy, Mercy Me" e "Inner City Blues" - viraram hits singles e, até hoje, as vendas do LP somam oito milhões de cópias só nos EUA.

Venceu, assim, a visão de um gênio que confessou ter passado a segunda metade dos sessenta atormentado com a irrelevância do que estava gravando, diante da revolução de consciência que ocorria no mundo e do surgimento do selo Stax, afiando todas as arestas que a Motown limara. Dirigindo-se, desde os primeiros sulcos, aos
brothers e sisters, Marvin compõe um manifesto panorâmico da vida no gueto - pobreza, violência e drogas - antes de atacar as questões universais que tinham arrepiado a diretoria da Motown.

Musicalmente, não existe nada mais doce. As faixas se interligam numa só levada, lânguida e hipnoticamente esticada numa espécie de suíte. Tudo flui numa textura de cordas e metais que Paddy McAloon, do Prefab Sprout, definiu como
Mozart de patins. Marvin não escrevia, mas contornou o problema gravando fitas e fitas assobiando as frases dos violinos, transcritas então pelo regente/orquestrador David van DePitte. Produzido pelo próprio cantor, o disco exibe uma maestria instrumental certamente assimilada no trabalho com Norman Whitfield, que um dia ainda será reconhecido como um dos maiores gênios da música do século XX. Sua entrada na Motown como compositor/arranjador/produtor redefiniu o pop como a marca registrada da gravadora, principalmente com os Temptations. Com Marvin, desenvolveu o monumento "I Heard It Through the Grapevine", o que já bastaria como credencial. 

Em What's Going On, porém, Marvin mostra que já não precisava dele, nem de ninguém. Os vários canais de gravação são utilizados num show vocal, algo como um grupo doo-wop de um homem só, em contracantos e harmonias que talvez só Sam Cooke poderia igualar, houvesse em sua época tecnologia para isso.

Faixas:
A1. What's Going On - 3:53
A2. What's Happening Brother - 2:43
A3. Flyin' High (In the Friendly Sky) - 3:49
A4. Save the Children - 4:03
A5. God Is Love - 1:41
A6. Mercy Mercy Me (The Ecology) - 3:16

B1. Right On - 7:32
B2. Wholly Holy - 3:07
B3. Inner City Blues (Make Me Wanna Holler) - 5:33

Leia também: Nas pegadas do groove de Melvin Sparks

25/03/2009

A sobrevivência do vinil na Alemanha


Por Benjamin Braden
Jornalista
Deutsche Welle

No passado, eles eram populares em todo o mundo. Hoje, os discos de vinil só conseguem sobreviver graças a um nicho especial do mercado. "
O fato de este disco ter sido prensado aqui é o melhor exemplo do renascimento do vinil", diz Holger Neumann, presidente da empresa Pallas, ao apontar a capa de um LP de Diana Ross em seus melhores tempos.

A Pallas, uma empresa familiar localizada na pequena cidade de Deipholz, no estado da Baixa Saxônia, fabrica discos de vinil há mais de sessenta anos. Neumann afirma que o trabalho ali não é movido pela nostalgia dos velhos tempos. Ele confirma que hoje ainda é possível ganhar dinheiro produzindo discos de vinil, mesmo que os valores nem se comparem aos do mercado do CD.

O que mantém a Pallas, na verdade, é um estabelecimento situado do outro lado da rua, onde são prensados CDs. O departamento de vinil contribui apenas com 10% do faturamento total da empresa. A Pallas é uma das últimas grandes fábricas de discos de vinil do mundo. Na Europa, esse nicho do mercado é compartilhado por apenas cinco empresas, num segmento que se recuperou um pouco nos anos noventa, após o choque do advento do CD nos anos oitenta.

Hoje, pode-se falar até mesmo de um pequeno
boom do vinil, mesmo que em baixa escala. Em 2007 foram comercializados seis milhões de discos de vinil em todo o mundo, o dobro do ano anterior. Na Alemanha foram 700 mil discos vendidos, 100 mil a mais do que em 2006. Embora sejam números míseros em relação ao setor de CDs, a Pallas supre, no momento, uma demanda considerável.

"
Estou convencido de que vamos continuar produzindo vinis nos próximos seis ou oito anos", diz Neumann. Há duas décadas, uma frase como essa teria parecido absurda, pois naquele momento a Pallas estava exatamente inaugurando sua nova fábrica de CDs. Em relação ao maquinário de fabricação dos LPs, restava a pergunta no ar: deixamos aí ou mandamos para o ferro-velho? "Não tínhamos bem certeza, devo confessar", diz Neumann. No fim, acabou valendo o instinto dos donos da empresa, "que diziam que deveríamos deixar as máquinas aqui". Hoje, a sensação é a de que essa foi uma decisão certa. Um terço dos 140 funcionários da Pallas trabalham na produção de vinis.

Recentemente foi produzido, por exemplo, o primeiro álbum solo da Diana Ross, de 1970. Enquanto uma máquina esfria, as outras já estão trabalhando nas próximas encomendas. Cada uma delas fabrica dois LPs por minuto, o que permite à Pallas produzir dez mil discos por dia. 

Mas produzir para quem? Kai Seemann, gerente da Speakers Corner Records, localizada em Gettorf, nas proximidades de Kiel, é um especialista na reedição de discos desaparecidos há muito do mercado. "Quem compra discos são pessoas que cresceram com o vinil e não conseguem deixar isso de lado. Ou jovens, para quem um LP é uma coisa nova. Não um CD sem vida, não uma música baixada da internet, mas algo concreto", descreve Seemann. O ano de 2008 foi o melhor para sua empresa, que vendeu 50 mil discos, atingindo um faturamento de 1,3 milhão de euros.

Kai Seemann, um dos clientes assíduos da Pallas, foi quem encomendou o LP de Diana Ross. Para ele, a qualidade vale mais que o preço. E a Pallas é uma das fabricantes de vinil com os melhores padrões de qualidade do mundo, garante ele.  Para fazer jus à fama, os funcionários da empresa de Diepholz fazem de tudo. O controle de qualidade é rígido. Um processo dispendioso e detalhado, considerando o longo processo desde as gravações de som no estúdio, passando pela prensa metálica, até chegar ao disco pronto.

Udo Karduck, responsável pelo controle do sulco do vinil, é uma das pessoas-chave para a qualidade do produto final. O sulco é considerado o cérebro do disco. A cada dia, Karduck ouve o vinil que produz com um tocador especial e ainda utiliza um microscópio. Sua meta não é ouvir sons agradáveis, mas sim detectar desníveis, poeira ou qualquer crepitação indesejada. Ao descobrir um defeito no vinil, Karduck utiliza uma caneta para marcar a posição e gira o microscópio sobre o lugar exato. Com um buril, ele limpa o sulco do disco no ponto marcado. Tudo isso com muito cuidado, pois qualquer movimento em falso pode arranhar o sulco e comprometer a perfeição do disco que chega ao consumidor.

Discos Fundamentais: Blind Faith - Blind Faith (1969)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

O que falar de uma banda que, antes mesmo de anunciar oficialmente a sua formação, já era idolatrada pelos fãs e pela imprensa, cercada por uma expectativa tão grande que os seus integrantes, fazendo piada de si mesmos, escolheram o nome “blind faith” - fé cega - para batizá-la?

Estamos em 1969, vivendo em um mundo que presencia os momentos finais dos Beatles, onde os Rolling Stones ainda não são gigantes e o Led Zeppelin dá seus primeiros passos. Neste contexto vivia um garoto inglês que, apesar da pouca idade, já era chamado de deus, e cuja simples presença em qualquer projeto sacudia não apenas a cena musical, mas o próprio mundo. Esse garoto chamava-se Eric Clapton.

Depois de fazer parte dos Yardbirds e apresentar a música dos negros americanos para os garotos brancos ingleses, gravar um dos álbuns mais importantes da década ao lado dos Bluesbrakers de John Mayall e levar o rock aos seus limites junto com Jack Bruce e Ginger Baker no Cream, Clapton encontrava-se em uma encruzilhada: ele podia entrar em uma banda, formar o seu próprio grupo ou seguir carreira solo. Todas eram possibilidades.

O Blind Faith surgiu quase que por acaso. Em busca de diversão, Clapton convidou o amigo Steve Winwood e, juntos, começaram a levar algumas jams. Ginger Baker ficou sabendo da empreitada, e quis se juntar à dupla. A princípio Clapton foi contra, pois era da opinião que a presença de Baker transformaria o que era para ser uma simples reunião de amigos em algo muito maior, mas foi vencido pela insistência do baterista e de Winwood. Dos ensaios regados a longos improvisos foram surgindo as primeiras idéias para algumas músicas próprias, assim como a necessidade de um baixista para completar o grupo. Rick Grech, do Family, foi convidado e aceitou de imediato. Assim nascia o Blind Faith, o primeiro supergrupo da história do rock.

A notícia que os quatro estavam compondo juntos logo vazou, gerando uma enorme expectativa na imprensa e nos fãs, que logo profetizaram que Clapton, Winwood, Baker e Grech gravariam um dos melhores álbuns que o rock haveria de ver nascer.

Apesar dos exageros, eles não estavam errados. A crença absoluta, que levou os quatro a batizarem o grupo como Blind Faith, se concretizou com o lançamento do auto-intitulado debut, em julho de 1969. O álbum está cravado sobre dois sólidos alicerces: a belíssima “Can´t Find My Way Home” e a antológica “Presence of the Lord”. A primeira é nada mais nada menos que o melhor registro de Steve Winwood, uma das mais belas vozes que o rock deu ao mundo. Sobre o violão de Clapton, Winwood nos entrega uma belíssima linha vocal, alternando momentos em que usa sua voz de forma natural à falsetes antológicos. O resultado é estupendo, justificando em sua plenitude os pré-conceitos sobre o grupo.

Já “Presence of the Lord” é a conversa de Clapton com Aquele com o qual era comparado. Cantada de forma magnífica por Winwood, transformou-se em uma das mais emblemáticas canções do guitarrista, tanto pela sua letra belíssima quanto pelo solo inesquecível repleto de wah-wah, onde Clapton parece querer mostrar que, apesar do advento de Hendrix, ainda possuía algumas cartas na manga.

Além de “Can´t Find My Way Home” e “Presence of the Lord”, mais quatro faixas completam o disco de estréia do Blind Faith. “Hard to Cry Today”, a faixa de abertura, é um hard como só se fazia no final dos sessenta, e cuja receita se perdeu com o tempo. “Well All Right” coloca groove no som do grupo, com um resultado final que antecipava os caminhos ensolarados que Clapton trilharia em álbuns como
461 Ocean Boulevard. O belo solo de violino executado por Rick Grech em “Sea of Joy” é outro momento inesquecível, enquanto a longa “Do What You Like” traz solos individuais de cada integrante, com destaque para Ginger Baker.

Além da música,
Blind Faith trazia mais um atrativo. Sua capa, onde a filha de Baker posava com o peito nu e segurando um avião para lá de fálico, causou grande polêmica na época, gerando inclusive a proibição da venda do disco nos Estados Unidos, o que levou a gravadora a lançar uma versão exclusiva para o mercado americano, com uma foto do grupo no lugar da capa original.

Após o lançamento do álbum, o quarteto, cercado por empresários, agendou e realizou uma turnê pelos EUA. A pressão aumentou, os compromissos também, e, ao perceberem, os quatro estavam novamente vivendo aquilo que não queriam viver quando se reuniram para tocar juntos. O que era para ser um prazer se transformou em obrigações sem fim, e isso levou os quatro a decretarem o fim da banda.

Passados quase quarenta anos de seu lançamento,
Blind Faith ainda é um dos pontos mais altos da carreira de Eric Clapton, Steve Winwood, Ginger Baker e Rick Grech. Um álbum que vale a pena ser (re)descoberto, juntamente com o ao vivo London Hyde Park 1969, que saiu em vídeo e mostra a apresentação dos caras no lendário parque inglês.

Para quem quiser conhecer, uma boa pedida é a versão estendida lançado há pouco tempo e repleta de faixas extras, traçando o documento definitivo sobre o Blind Faith. Muito mais que recomendável, histórico.

Faixas:
A1. Had to Cry Today - 8:49
A2. Can't Find My Way Home - 3:17
A3. Well All Right - 4:28
A4. Presence of the Lord - 4:56

B1. Sea of Joy  5:22
B2. Do What You Like - 15:20


Discoteca Básica Bizz#038: Novos Baianos - Acabou Chorare (1972)


(Marcelo Dolabela, Bizz#038, setembro de 1988)

A década de sessenta acabou seis meses antes, nas noites de 20 e 21 de julho, no Teatro Castro Alves, em Salvador, no show de despedida de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Na platéia, do poeta Augusto de Campos a inúmeros órfãos. No palco, Gil, Caetano e o grupo Os Liefs (Pepeu, Lico, Carlinhos e Jorginho). O show-réquiem dava o sinal: a
Navilouca antropófago-tropicalista devia seguir.

Os Novos Baianos surgem, num batismo de fogo, nestas noites negras. O cantor, compositor e violonista Moraes Moreira, o poeta-agrônomo Galvão, o
crooner de baile Paulinho Boca de Cantor e a cantora Baby Consuelo, inicialmente acompanhados dos Lief´s, seguem transformando cinzas em melodias. Desclassificação em festival, shows-happenings, um LP e dois compactos serviriam de ensaio geral.

Em 1972, já ocupando um
apart-tribo no Rio, os Novos Baianos gestavam um manifesto. Uma ilustre visita daria o toque final: a do mago João Gilberto. João abre seu baú de canções dos anos trinta e quarenta e se mistura ao rockarnaval dos Novos Baianos. O LP Acabou Chorare, primeiro lançamento da gravadora Som Livre, seria a síntese desta viagem hard-pós-Tropicália-João Gilberto. O título sairia de um brinde-balbucio de bebê, que Bebel Gilberto - née Isabel -, filha de João e Miúcha, sussurraria nas jams.

O samba-batucada "Brasil Pandeiro", de Assis Valente, lançado em 1940 por um dos mitos de João, o grupo Anjos do Inferno, abre o disco. O grande hit "Preta Pretinha", uma colagem cinematográfica saída de algum alto-falante do interior, serve de abre-alas e dá passagem a "Tinindo Trincando", uma bossa-baião-hard com texto mínimo e onomatopéico, que Baby pulveriza sobre A Cor do Som, isto é, Pepeu, Dadi, Jorginho e Baixinho, a parte elétrica dos Novos Baianos.

"Swing de Campo Grande" e "Acabou Chorare", entregue à parte acústica do grupo, fecham o lado A, zanzando entre o batuque e a seresta-bossa. "O Mistério do Planeta", na voz de Paulinho, relê uma velha canção do grupo Mini Planeta Íris, o texto confessional dá um grito de basta na barra lúcifer da época. A canção seguinte, na voz de Baby, "A Menina Dança", continua o desnudar de barras: "
... só entro no jogo / porque estou / estou mesmo depois / depois de esgotar / o tempo regulamentar..."

"Besta é Tu", com Moraes, em ironia máxima ("
... não viver este / se não há outro mundo ..."), transpirava, naquele negro tempo, uma linguagem cifrada pela sua desconcertante simplicidade carnavalesca. "Um Bilhete pra Didi", única música instrumental, serve de território para A Cor do Som dar seu vôo. Uma versão de "Preta Pretinha" fecha o disco, sendo que, no show, "Preta Pretinha" entra em um pout-pourri-bricolagem com "29 Beijos", do primeiro compacto, e "Oba-Lá-Lá", bossa-baião de e do antológico primeiro disco de João Gilberto. Era a proposta sintetizada em som e cena.

Acabou Chorare, além da síntese sonora - Jimi Hendrix empunhando um cavaquinho (por sinal, presente de Paulinho da Viola a Pepeu) e João Gilberto uma guitarra distorcida -, traz, em sua primeira edição (em 1984 foi relançado com capa simples), uma das mais interessantes e surpreendentes capas. Um texto de Augusto de Campos dá o tom, outro de Galvão explica a antifamília Novos Baianos e várias fotos quebram os olhos dos censores. Na contracapa, uma superposição: um Novo Baiano e um dos filhos da troupe fumam o mesmo baseado, como se ilustrassem, em silêncio, o projeto obra-viagem do grupo.

Barras se sucederam a barras. Acabou Chorare, em som, imagem e silêncio, foi um de seus melhores closes.

Faixas:
A1. Brasil Pandeiro - 3:58
A2. Preta Pretinha - 6:40
A3. Tinindo Trincando - 3:36
A4. Swing de Campo Grande - 3:10
A5. Acabou Chorare - 4:13

B1. Mistério do Planeta - 4:24
B2. A Menina Dança - 3:51
B3. Besta é Tu - 4:27
B4. Um Bilhete Pra Didi - 2:53
B5. Preta Pretinha (Reprise) - 3:25


24/03/2009

O Melhor do Whiplash!: A História do Burzum


Por Ricardo Seelig
Colecionador

O Whiplash! Rock e Heavy Metal, além de ser o melhor site e possuir o maior conteúdo sobre rock e heavy metal em português em todo o mundo, é um dos maiores banco de dados sobre música do planeta.

Tamanha quantidade de informação, para quem não conhece o site, faz com que navegar por seus guetos seja algo que leva tempo, afinal muita coisa boa já foi publicada. A partir de agora, iremos indicar, semanalmente, uma matéria da história do site que vale a pena bater os olhos e devorar as letras.

Começamos com a tradução da biografia do Burzum, escrita pelo próprio Varg Virkenes, que está saindo da prisão por esses meses. Para quem não sabe, e para quem não está familiarizado com a história do black metal, o Burzum foi um dos principais grupos da chamada segunda geração do black metal, que floresceu nos países nórdicos europeus, principalmente na Noruega, na primeira metade dos anos noventa. As bandas dessa cena se uniram em um grupo fechado denominado Inner Circle, que promoveu a queima de igrejas e outros atos discutíveis naquela época. 

Mas o principal acontecimento da cena norueguesa envolveu dois de seus principais ícones, Euronymous e Virkenes. Por divergências pessoais, Virkenes assassinou Euronymous, líder do Mayhem, à facadas, sendo condenado à prisão por causa disso. O Whiplash! está publicando a tradução de uma interessante biografia do Burzum, escrita pelo próprio Varg Virkenes, cuja leitura é essencial para quem quer entender uma das passagens mais sombrias da música pesada.

Para ler, acesse esses links:






U2 - No Line on the Horizon (2009)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Cotação: ****

Nos tempos em que vivemos, todos sabem, o conceito de álbum perdeu muito a sua força. Os ouvintes atuais baixam as músicas que querem ouvir todos os dias na internet. Poucos ainda compram discos. Não acredito que o CD irá acabar, mas o fato é que vivemos uma realidade muito diferente da que vivíamos a menos de dez anos.

Nesse contexto, discos como
No Line on the Horizon, novo trabalho do U2, tem um peso e um significado bastante distintos. Ao lado de bandas como AC/DC, Metallica, Iron Maiden, Rolling Stones e Pink Floyd - todas veteranas - e do Radiohead - único grupo mais atual a constar nessa lista -, os irlandeses são um dos raros nomes a ter força para, simultaneamente, causar uma expectativa e uma comoção com o lançamento de um novo álbum e, mais do que isso, provocar nos consumidores, incluindo aí não apenas os fãs de seu trabalho, mas também os ouvintes casuais de música, o desejo de comprar um disco, fato que era tão comum e corriqueiro há alguns anos atrás e que hoje caiu praticamente em desuso. No Line on the Horizon, assim com os trabalhos recentes dos grupos citados acima, serve de presente de aniversário ou agrado para um amigo em tempos onde o máximo que a maioria das pessoas fazem na hora de comprar algo relacionado à música é adquirir um CD-R para gravar seus MP3.

Ou seja, além da música, esse novo disco do U2 é importante também por isso, por reafirmar a importância de um álbum como obra artística, como o elemento que liga o artista ao seu público de uma forma muito mais eficaz, forte e duradoura do que arquivos digitais espalhados por um disco rígido.

Musicalmente, temos em
No Line on the Horizon um U2 mais contemplativo e sereno do que o que deu as caras em How to Dismantle an Atomic Bomb. A faixa-título abre o play mesclando a sonoridade de Achtung Baby com o U2 que conquistou as grandes massas durante os anos oitenta. "Magnificent" é outra que bebe na sonoridade apresentada pela banda naquela década, e poderia muito bem figurar em The Unforgettable Fire, por exemplo.

As coisas mudam em "Moment of Surrender", desde a primeira audição uma das faixas que mais chama a atenção em
No Line on the Horizon. O grupo e os produtores Daniel Lanois, Brian Eno e Steve Lillywhite já declararam que essa canção foi composta em um único dia, e, independente disso ser verdade ou não, ela é a prova de que o U2 continua relevante. Seu arranjo nos remete ao projeto Passengers, com camas de teclados se sobrepondo umas as outras. Bono canta com uma verdade em sua voz como há tempos não cantava, enquanto a banda esculpe uma longa e excelente faixa, que caminha por campos ora melancólicos, ora cheios de esperança.

O clima "intimista de estádio" é mantido com "Unknown Caller", balada composta cirurgicamente para ser cantada a plenos pulmões por fãs apaixonados em todo o mundo. Ouça o refrão e veja se você não concorda comigo. A guitarra de The Edge introduz "I´ll Go Crazy If I Don´t Go Crazy Tonight", talvez a composição com mais cara de single do disco. Uma faixa despretenciosa, com um apelo pop gigantesco, prontinha para virar hit.

"Get On Your Boots", o tão discutido primeiro single, vem a seguir, e se revela melhor do que eu, pessoalmente, imaginava. A primeira vez que ouvi essa faixa, no site do grupo quando eles a disponibilizaram para audição via
streaming, confesso que a achei muito fraquinha, principalmente pela batida eletrônica cachorra que a acompanha, mas agora, escutando-a dentro do contexto do álbum, minha opinião é outra. Ainda que seja aquele tipo de faixa que o U2 volta e meia compõe e solta para impactar seus sedentos fãs - como "Vertigo", por exemplo -, "Get On Your Boots" mostra que tem fôlego para não ser só isso.

Ares do controverso
Zooropa batem em "Stand Up Comedy", antecipando uma das melhores faixas de No Line on the Horizon. "FEZ-Being Born" é densa, hipnótica, e aponta para possíveis caminhos que o grupo pode seguir no futuro. A linda "White As Snow" é prima distante de "Wake Up Dead Man", uma das melhores canções do subestimado Pop, de 1997. O U2 mais simples, quase banda de garagem, surge surpreendente em "Breathe", composição exemplar dona de um ótimo refrão, que deixa transparecer o quanto Bono, Edge, Adam Clayton e Larry Mullen ainda sentem tesão e são apaixonados por aquilo que fazem.

O disco se encerra com a impressionante "Cedars of Lebanon", sem exagero uma das melhores músicas compostas pelo grupo nos últimos vinte anos. Bono não canta, ele declara a letra, buscando em seu interior as respostas para o mundo lá fora, mas fazendo isso de uma maneira diferente da que habitualmente sempre faz: ao invés de uma canção épica e grandiloquente, temos uma faixa intimista e relaxante, que fecha o trabalho de maneira sublime.

No Line on the Horizon foi lançado em duas versões no mercado brasileira. A primeira é um jewel case comum, sem maiores atrativos, iguais a esses que você encontra aos baldes em qualquer loja de CDs. A segunda é um digipack em versão limitada, cheio de detalhes, incluindo um poster do grupo, um longo encarte e um bem-vindo slipcase transparente que ajuda a conservar o disco. Não há comparação entre as duas versões, já que a segunda é infinitamente superior, e a diferença de preço entre ambas não chega a R$ 10,00.

Concluindo,
No Line on the Horizon é um belo trabalho dos irlandeses, mostrando que Bono e companhia continuarão ao nosso lado por muitos e muitos anos, gravando discos e canções que tocam nossos corações, alimentam nossos sonhos e servem de trilha sonora para os nossos dias. Afinal, a vida é muito mais legal com o U2 - e com o AC/DC, com o Metallica, com o Iron Maiden, com os Stones, com Neil Young, Dylan e Springsteen - por perto.

Faixas:
1. No Line on the Horizon
2. Magnificent
3. Moment of Surrender
4. Unknown Caller
5. I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight
6. Get on Your Boots
7. Stand Up Comedy
8. Fez - Being Born
9. White as Snow
10. Breathe
11. Cedars of Lebanon

Discos Fundamentais: Birth Control - Hoodoo Man (1972)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Formado em 1968 em Berlin, o Birth Control é uma excelente banda alemã cuja música tinha como principais características a grande simbiose entre a guitarra e o teclado Hammond, somados a um trabalho de bateria e percussão extremamente criativo. Apesar de algumas vezes ser classificado como
krautrock, na verdade o som do grupo consistia em um potente e virtuoso hard rock com alguma pitadas de progressivo. Uma exercício rápido para entender a música do Birth Control seria imaginar a união do Deep Purple com o Uriah Heep daquela época.

O nome da banda surgiu como uma resposta provocativa a uma declaração do Papa Paulo VI, onde o líder da igreja católica se pronunciava contrário ao uso das pílulas anti-concepcionais. Durante toda a sua carreira (a banda ainda está na ativa) o Birth Control se notabilizou por estampar capas polêmicas em seus discos, sempre explorando a controvérsia gerada pelo sexo e seus asssuntos derivados.

Hoodoo Man é o terceiro álbum dos caras, e foi lançado em 1972, na sequência de Birth Control (1970) e Operation (1971). Para muitos este é o melhor momento dos alemães. Marcando a estreia de Wolfang Neuser nos teclados, que entrou no lugar do membro original Reinhold Sobotta, o Birth Control apresenta nas seis faixas do disco uma qualidade espantosa. 

"Buy" abre o álbum entregando um grande trabalho instrumental, embalado por uma letra que critica duramente a sociedade de consumo. A cereja do bolo é o solo de Neuser, espetacular. "Suicide" vem a seguir e tem um andamento totalmente jazzy, surpreendendo o ouvinte. "Get Down to Your Fate" deixa claras as influências do Purple no som do Birth Control, com o Hammond de Neuser fazendo o trabalho das guitarras, despejando riffs sensacionais um atrás do outro.

"Gamma Ray", com quase dez minutos de duração, é uma composição repleta de groove, com destaque para a bateria e para os vocais de Bernd Noske, dono de um timbre cativante. Como curiosidade, vale citar que, apesar de sua longa duração, "Gamma Ray" foi lançada como single e virou hit nas discotecas européias em meados dos anos setenta. A música que dá nome ao álbum é um hard rock exemplar, e mais uma vez o destaque é o solo de Wolfang Neuser. O disco fecha com "Kaulstoss", faixa instrumental com influências de folk music e passagens inspiradas na música escocesa.

Hoodoo Man é um trabalho excepcional, que conquista de imediato qualquer fã de música. Um dos grandes, e esquecidos, álbuns dos anos setenta, com absoluta certeza.

Faixas:
A1. Buy! - 7:12
A2. Suicide - 6:18
A3. Get Down to Your Fate - 7:58

B1. Gamma Ray - 9:46
B2. Hoodoo Man - 8:27
B3. Kaulstoss - 2:40


Discoteca Básica Bizz#037: The Stooges - The Stooges (1969)


(José Augusto Lemos, Bizz#037, agosto de 1988)

Uma bomba de efeito retroativo, fora de lugar, fora do tempo. Começa num ritmo preguiçoso, a guitarra miando através do wah wah. "
Alright!" Ritmo e guitarra adotam uma pulsação básica que se convencionou chamar de punk rock, e pronto: "... bem, é 1969, / através dos USA / é um outro ano / para mim e para você / outro ano sem nada para fazer...".

Ele, creditado na capa como Iggy Stooge, está furiosamente morrendo de tédio. Os outros três "patetas" (Ron Asheton na guitarra, Dave Alexander no baixo e Scott Asheton na bateria) num esporro elétrico com a adrenalina de um Cro-Magnon que sente o bafo do mamute na sua cola.
Obviamente os Estados Unidos de 1969 não estavam preparados para os Stooges.

P.S.: a influência histórica óbvia, os Ramones tirando o visual das fotos de capa e contracapa de
The Stooges, os Sex Pistols tirando o som de "No Fun" e "I Wanna be Your Dog" (também faixas deste LP, que volta e meia apareciam nos shows de Joãozinho Lydon e companhia), tudo isso não pesa muito sobre o disco. Ainda que eterno, espanta qualquer cheiro de bolor assim que começa a massacrar os falantes da caixa.

Tédio, desprezo e adrenalina. A química antes de virar fórmula composta, sem alvo definido. A faísca acendeu um fogo que nunca esteve apagado - ainda que os discos do Joy Division exibam as cinzas. Ian Curtis simplesmente idolatrava Iggy Pop, e os reflexos de ambos estão vagando a terra como mortos-vivos. Fazer o que? Tédio e ódio continuam vivos, mas sua expressão está mais que cristalizada.

Uma banda de garagem comandada por um alucinado. Algo assim devia passar pela cabeça do pessoal do selo Elektra, que rescindiu o contrato dos Stooges antes de seu terceiro disco. Uma banda de garagem apontando para o futuro. Em todo o LP, apenas "We Will Fall" dá bandeira dos elos que ligavam os Stooges ao passado - às feridas incicatrizáveis chamadas (que tédio repetir isso em 1988!) Doors e Velvet Underground. Com mais de dez minutos de um apocalíptico mantra quase gregoriano, "We Will Fall" é a "The End" dos Stooges, e a única faixa em que o produtor do disco, John Cale (então com um pé fora do Velvet), deixa sua marca: num drone zumbindo ininterruptamente e na aparição de sua inconfundível viola nos minutos finais.

No lado dois, tudo volta ao normal com "No Fun", outra ode ao tédio mortal movida por um riff histórico. "Não tem graça ficar sozinho / não tem graça sair por aí ... não tem graça!". Segue "Real Cool Time", outra ode ao sexo como único antídoto para o tédio mortal, que culmina numa das mais estridentes paredes de guitarras da história do heavy metal. E surge então a segunda anomalia do disco. "Ann" seria apenas mais uma balada romântica com guitarras em changalanga, se estas não estivessem amplificadas demais e se Iggy não estivesse inaugurando no vinil um lamento de bezerro desmamado que atinge crescendos epilépticos e se tornaria uma de suas marcas registradas: uivos viram bocejos, urros cospem sussurros. (Também imitados ad nauseam).

O segundo LP,
Funhouse (também lançado no Brasil, por encomenda da cadeia Museu do Disco), expande tudo isto para uma selvageria ainda mais catártica, fluida e madura. Merece igualmente o selo Discoteca Básica. Assim como a segunda encarnação dos Stooges (com James Williamson na guitarra), produzida por David Bowie no treme-terra Raw Power. Essencial também o semipirata Metallic K.O., onde se tem a revelação da intensidade que isto atingia ao vivo - para alguns, os verdadeiros Stooges (acaba de sair um duplo com o show completo). Mas foi aqui que tudo começou.

Faixas:
A1. 1969 - 4:05
A2. I Wanna Be Your Dog - 3:10
A3. We Will Fall - 10:15

B1. No Fun - 5:15
B2. Real Cool Time - 2:29
B3. Ann - 3:00
B4. Not Right - 2:49
B5. Little Doll - 3:21

23/03/2009

Bruce Springsteen - Working On a Dream (2009)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ****

Bruce Springsteen mantém a inspiração em alta em Working On a Dream, seu décimo-sexto disco de estúdio. Depois do estupendo Magic, lançado em 2007, The Boss mostra que os anos de estrada estão fazendo cada vez melhor. Bruce, que completará 60 anos no dia 23 de setembro, entrega um disco que entra, fácil, entre os melhores de sua longa carreira.

Mais uma vez acompanhado pela ótima E Street Band - a saber, Roy Bittan no piano, órgão e acordeão; Clarence Clemos no saxofone; Danny Federici no órgão - para quem o trabalho é dedicado, já que Federici faleceu durante as gravações; Nils Lofgren na guitarra; Patti Scialfa nos vocais; Garry Tallent no baixo; o folclórico Steve Van Zandt na guitarra e Max Weinberg na bateria, além dos convidados especiais Soozie Tyrell (vocal e violino), Patrick Warren (órgão, piano e teclado) e Jason Federici (acordeão), Springsteen alterna momentos de otimismo e outros mais serenos em
Working On a Dream.

No primeiro grupo, temos a alegre "My Lucky Lady"; a ensolarada "Working On a Dream", que soa como uma trilha para a Era Obama nos Estados Unidos; e a pop song "What Love Can Do" - ótima. Mas é quando assume o posto de porta-voz da classe operária que Bruce alcança os melhores resultados - como sempre, aliás. "Queen of the Supermarket" é sensacional, "This Life" é melancólica na medida certa e o boogie contagiante do blues "Good Eye" é filho direto dos bares que percorrem toda a extensão da mitológica Route 66.

O Springsteen trovador do dia-a-dia, das situações do cotidiano, ganha destaque em
Working On a Dream. Se a canção que dá nome ao disco é a trilha de um novo país, "Tomorrow Never Knows" segura os pés dos sonhadores, como o próprio Bruce, no chão. "Surprise, Surprise" é outro grande momento, transparecendo esperança e acreditando em um novo amanhã.

Mas as duas grandes faixas do disco estão em seu início e em seu final. A épica "Outlaw Pete", com oito minutos, abre o play com a saga de um fora-da-lei que percorreu a América de costa a costa. Na melhor tradição de Bob Dylan, sua narrativa é apaixonante, repleta de detalhes, quase um conto. Cordas dão ainda mais dramaticidade à canção, que tem seu ponto forte no arrepiante e inesquecivel refrão: "
I´m outlaw Pete, I´m outlaw Pete, can you hear me?". No outro oposto, "The Wrestler", que entra como bonus track, é a faixa vencedora do último Grammy Awards. Incluída na trilha do filme homônimo, é uma balada acústica onde a voz de Bruce, envelhecida pela idade, nos faz contemplar nossas vidas e nos perguntar porque queremos sempre mais.

Working On a Dream não tem a mesma força atordoante de Magic, para mim uma verdadeira obra-prima, o que não quer dizer que não seja um ótimo disco. Como já disse no início dessa resenha, inscreve-se de maneira fácil entre os grandes álbuns da carreria de Bruce Springsteen, reafirmando que, ao lado de Paul McCartney, Bob Dylan e Neil Young, Bruce é um dos poucos que está sabendo como envelhecer, refletindo em seus trabalhos a experiência que a vida lhe proporcionou. É muito bom perceber, e principalmente, ouvir isso.

Faixas:
1. Outlaw Pete - 8:01
2. My Lucky Day - 4:01
3. Working on a Dream - 3:30
4. Queen of the Supermarket - 4:39
5. What Love Can Do - 2:57
6. This Life - 4:30
7. Good Eye - 3:01
8. Tomorrow Never Knows - 2:14
9. Life Itself - 4:00
10. Kingdom of Days - 3:24
11. Surprise, Surprise - 3:30
12. The Last Carnival - 3:51
13. The Wrestler - 3:47

Discos Fundamentais: Harvey Mandel - Cristo Redentor (1968)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

O guitarrista americano Harvey "The Snake" Mandel, nascido em 11 de março de 1945, é mais conhecido pela sua passagem pelo Canned Heat, onde ficou entre 1969 e 1970. A entrada de Mandel no Canned Heat ocorreu de forma curiosa: na noite em que o guitarrista original da banda, Henry Vestine, deixou o grupo antes de uma apresentação no Fillmore West, Harry estava no camarim da casa de shows. Para substituir Vestine, o grupo convidou Mike Bloomfield, que tocou no primeiro set apresentado pelo Canned Heat naquela noite, e escolheu Mandel para tocar o segundo show daquele mesmo dia. Como as coisas rolaram de maneira tranquila, Harvey Mandel foi efetivado no grupo, realizando sua terceira apresentação no
Festival de Woodstock.

Outra passagem importante da carreira de Mandel foi o seu período como integrante da banda de John Mayall. Ao lado de seu chapa no Heat, o baixista Larry Taylor, Harvey tocou ao lado de Mayall por dois anos, gravando os álbuns
USA Union e Back to the Roots, lançados em 1970 e 1971, respectivamente.

Após deixar o conjunto do lendário bluesman inglês, Mandel fundou o Pure Food and Drug Act com o violinista Don "Sugarcane" Harris, o guitarrista Randy Resnick, o baixista Victor Cinte e o baterista Paul Lagos. O grupo gravou apenas um disco,
Choice Cuts, lançado em 1972, e logo depois se desfez.

Para entender a importância e o prestígio de Harvey Mandel, cito dois pequenos exemplos. Ele foi um dos pioneiros na técnica conhecida como
two-handed tapping, popularizada por Eddie Van Halen no final da década de setenta, e, quando Mick Taylor deixou os Stones em dezembro de 1974 Mandel foi chamado para fazer audições com a banda, e, mesmo não tendo entrado no grupo, gravou ao lado de Jagger, Richards e companhia duas faixas para o disco Black and Blue, lançado em 1976, sendo que a mais conhecida delas foi o single "Hot Stuff".

Mas o que importa aqui é o primeiro álbum solo de Mandel,
Cristo Redentor, lançado em 1968. O disco traz dez faixas, todas instrumentais, e confesso que tenho uma grande dificuldade em definir em que estilo elas se encaixariam. Blues? Jazz? Jazz blues (isso existe?)? Fusion? A sonoridade do trabalho é ao mesmo tempo crua e refinada, com arranjos muito bem feitos, solos calmos e manhosos de Mandel, temperados por andamentos repletos de groove. Um dos álbuns mais sensacionais que eu já ouvi, Cristo Redentor é daqueles raros discos com o poder de transportar o ouvinte para uma dimensão paralela, repleta de cores e sensações.

A versão em CD, lançada em 2003 pela Raven Records com o título de
Cristo Redentor ... Plus Selected Sessions (Cat# RVCD 163) traz, além das faixas originais do trabalho, músicas gravadas por Harvey Mandel ao lado de Barry Goldberg, Canned Heat, Pure Food and Drug Act e Love, formando uma retrospectiva de respeito da obra deste genial instrumentista.

Recomendado.

Faixas:
A1. Cristo Redentor - 3:45
A2. Before Six - 6:25
A3. The Lark - 4:39
A4. Snake - 3:45
A5. Long Wait - 2:48

B1. Wade in the Water - 7:48
B2. Lights Out - 4:48
B3. Bradley's Barn - 3:17
B4. You Can't Tell Me - 4:20
B5. Nashville 1 A.M. - 3:39

Discoteca Básica Bizz#036: New York Dolls - Too Much Too Soon (1974)


(Celso Pucci, Bizz#036, julho de 1988)

Uma garagem, guitarras, baixo e bateria: rock simples e direto, tocado muito alto, pegando na veia. Esta história começou durante os anos sessenta, com o surgimento de inúmeras bandas americanas em resposta à invasão britânica capitaneada pelos Beatles e os Stones, baseadas em um despojamento musical que se cristalizaria no som demencial de grupos como o Velvet Underground, os Stooges e o MC5. Serviu de estopim para a explosão do punk em 1976 e continua a ser contada até hoje, através de sua influência em diversas tendências do rock contemporâneo. Esta história tem um capítulo especial reservado para as bonecas de Nova York.

No visual, os Dolls levavam às últimas consequências - beirando o escracho total - a androginia sugerida pelo glitter que se projetava nas figuras de David Bowie e Marc Bolan: maquiagem pesada, bijuterias e roupas femininas. Em termos musicais, foram essenciais no processo de criação de uma estética típica do rock nova-iorquino, que mais tarde floresceria nos trabalhos do Television, Talking Heads, Blondie, Ramones e outros.

Formado no fim de 1971, o grupo era composto originalmente pelo vocalista David Johansen, os guitarristas Johnny Thunders e Rick Rivets, o baixista Arthur Kane e o baterista Billy Murcia. Logo, Rivets foi substituído por Sylvain Sylvain, e assim os Dolls começaram a se apresentar no cenário local, causando sensação. Em novembro de 1972, durante a primeira tour inglesa da banda, Billy Murcia morreu de overdose, em Londres. De volta a Nova York, os Dolls só retornam à ativa no ano seguinte, já com Jerry Nolan na bateria.

Então, gravam seu álbum de estréia, com produção de Todd Rundgren (ex-Nazz), que contava com faixas antológicas como "Personality Crisis" e "Looking for a Kiss", que retratavam fielmente a fúria primitiva do som do grupo. Em 1974, eles gravariam seu segundo e último disco oficial, que, junto com o primeiro, tornaram-se legendários. 

Não menos legendário foi o nome escolhido para produzir Too Much Too Soon: George "Shadow" Morton, um dos grandes produtores do começo dos anos sessenta, criador das Shangri-Las e fundador da Red Bird Records, ao lado de Phil Spector, Jerry Leiber e Mike Stoller. Morton reforçou a vertente rhythm'n'blues da banda, que desta feita optou por inserir quatro covers entre as dez faixas do disco. Resultado: "Stranded in the Jungle" (sucesso do grupo vocal The Cadets em 1956), "(There's Gonna Be a) Showdown" (da dupla Gamble e Huff, mestres do soul da Philadelphia), "Don't Start Me Talkin'" (do bluesman Rice Miller, ou Sonny Boy Williamson) e "Bad Detective" (de K. Lewis) transformaram-se em clássicos instantâneos na interpretação dos Dolls. 

O material próprio do grupo também não deixava por menos, especialmente nas faixas compostas por Johansen e Thunders: "Babylon", "Who Are the Mystery Girls?", "It's Too Late" e "Human Being", que já soltavam as faíscas que originariam o incêndio que tomou conta do circo do rock dois anos depois.

Apesar da aclamação da crítica, tanto
New York Dolls como Too Much Too Soon foram retumbantes fracassos comerciais, o que precipitou o fim da banda, depois de um curto período em que foram empresariados por Malcolm McLaren. Porém, Johansen e Sylvain continuaram a se apresentar como New York Dolls até 1977, com vários músicos acompanhantes, até partirem para erráticas carreiras solo (assim como Thunders, depois de um breve período ao lado de Nolan nos Heartbreakers). Hoje em dia, Johansen atende pela alcunha de Buster Poindexter, um impagável entertainer. Das outras bonecas, nenhuma nova notícia. Mas, seja como for, as marcas deixadas pelas "assassinas de batom" continuam vivas.

Faixas:
A1. Babylon - 3:31
A2. Stranded in the Jungle - 3:46
A3. Who Are the Mystery Girls? - 3:08
A4. (There's Gonna Be A) Showdown - 3:38
A5. It's Too Late - 4:40

B1. Puss 'N' Boots - 3:06
B2. Chatterbox - 2:25
B3. Bad Detective - 3:39
B4. Don't Start Me Talkin' - 3:13
B5. Human Being - 5:45

20/03/2009

Música Pesada para Tempos Duros


Por Sérgio Martins
Jornalista
Texto publicado originalmente no site da Revista Veja

Com turnês lucrativas e discos nas paradas, as bandas de heavy metal compõem a trilha sonora da crise econômica. E não será a primeira vez que isso acontece.


Vocalista do sexteto inglês Iron Maiden – que desembarca nesta semana no Brasil para apresentações em várias capitais –, Bruce Dickinson encontrou uma definição hiperbólica para seu gênero musical. "O heavy metal é a ópera da classe operária", disse ele em entrevista a VEJA. Nem todo fã do rock pesado será um proletário. Mas esse é, sim, um público predominantemente masculino e de classe média baixa, sempre duramente atingido pelas crises econômicas. Com suas guitarras e sua gritaria, o heavy metal é o meio perfeito para essa turma ventilar frustrações. O gênero parece florescer com mais vigor em tempos difíceis. A nova onda do heavy metal britânico, na qual despontaram Def Leppard e Iron Maiden, surgiu no caos econômico-sindical da Inglaterra do fim dos anos setenta – que eclodiu com mais estrondo ainda no punk. E o auge do chamado "hair metal" – o hard rock xaroposo de bandas como Mötley Crüe – coincide mais ou menos com uma grande queda da bolsa americana, em 1987. A crise mundial detonada pela implosão do crédito americano pode estar impulsionando um revival metaleiro.

O show que o Iron Maiden traz agora para o Brasil esteve entre as cinquenta turnês recentes mais lucrativas dos Estados Unidos – nas quais se incluem outras bandas pesadas, como Kiss e Bon Jovi. Comercializado apenas na rede popular Wal-Mart,
Black Ice, da banda australiana AC/DC, tornou-se um dos CDs mais vendidos no mercado americano em 2008 – e o segundo do mundo. O Metallica também vem frequentando as paradas com Death Magnetic. Haverá outras razões para o renascimento metaleiro – como o jogo Guitar Hero, que popularizou o rock pesado entre as novas gerações –, mas a crise talvez seja o fator determinante.


Quase toda a crise econômica do século XX teve sua trilha musical. O suingue das
big bands animou os anos tristes da Grande Depressão, e a disco music amainou as angústias causadas pela alta do petróleo e pela inflação na década de setenta. Na aparência, são gêneros muito diferentes – a discoteca, que teve origem em boates gays de Nova York, parece representar o oposto da masculinidade ostensiva de um show de metal. Mas há um ponto em comum: são músicas de grande apelo corporal. Houve várias danças frenéticas para acompanhar o suingue – caso do jitterbug, com seus tremeliques nervosos. As coreografias da disco ficaram famosas na interpretação de John Travolta (cujo personagem em Os Embalos de Sábado à Noite conhecia a dureza de perto). E o metal, embora não convide à dança, pede vigorosas sacudidas de cabeça. A música tem sua clara função catártica: quanto mais o corpo balança, menos sente o aperto econômico.

Os metaleiros contam com uma forte identidade de grupo, que proporciona abrigo em tempos de arrocho. O comportamento tribal, a indumentária de couro e rebites e os dedos erguidos para lembrar os chifres do "senhor das trevas" não contribuem para sua reputação. Mas Bruce Dickinson protesta:
"Os fãs de rock pesado não são burros nem violentos. Isso é um estereótipo". A associação entre o metal e a violência é, de fato, equivocada – os fãs de metal raramente brigam em shows. Suas caras de mau disfarçam uma índole em geral pacífica. É a crise que é mesmo o capeta.

Martin Popoff - Gettin´ Tighter: Deep Purple ´68-´76


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Cotação: *****

Duzentas e quarenta e quatro páginas, escritas por um dos melhores e mais respeitados jornalistas musicais do mundo, abrangendo todos os álbuns lançados por uma das mais importantes e influentes bandas da história do rock, entre os anos de 1968 e 1976. Ou seja, o período em o Deep Purple produziu o seu material clássico e de maior impacto, os discos contendo as músicas que os transformaram em ícones eternos da música pesada.

Martin Popoff, estudioso dedicado do heavy metal e do hard rock, destrincha os trabalhos lançados pelo grupo de Ritchie Blackmore e Jon Lord desde
Shades of Deep Purple (1968) até Made in Europe (1976), além de uma passagem rápida, mas não menos competente, pelos discos gravados pelos integrantes do Purple após o primeiro fim do grupo, incluindo álbuns do Rainbow, Whitesnake, Paice Ashton Lord, Ian Gillan Band, Hughes Thrall e discos solo. Ou seja, se você é fã do Deep Purple, Gettin´ Tighter é um livro obrigatório. Se você é um fã de música pesada, é uma obra fundamental. Se você gosta de música, é uma leitura didática e sensacional.

Popoff, dono de um texto repleto de personalidade, vai fundo em cada um dos discos analisados, contando as histórias de bastidores e as curiosidades por trás de cada um deles. Além disso, analisa, com muito conhecimento de causa, cada um dos álbuns em questão, seu lugar na discografia do Purple, seu impacto e sua influência para a música, tanto no período em que foram lançados quanto nos dias atuais, onde o distanciamento do tempo torna o entendimento da obra do conjunto mais fácil de ser assimilada e absorvida.

Além dos textos, destaque também para as dezenas de imagens impressas em suas páginas, como anúncios da época, imagens do grupo, singles e as obrigatórias capas dos trabalhos analisados. Uma pena é que o livro seja em preto e branco e não colorido, não mantendo assim a exuberância das obras recentes de Popoff, como
Run for Cover: The Art of Derek Riggs, já analisado aqui no site.

Mesmo assim, sobram motivos para ter
Gettin´ Tighter em casa. Mais do que uma mera obra literária, Popoff conseguiu elaborar um verdadeiro estudo acadêmico sobre a carreira do Deep Purple, com muitas informações e dados sobre o grupo. A influência do Purple, que ao lado do Black Sabbath e do Led Zeppelin formou a santíssima trindade do rock pesado no início da década de setenta, não se apagou com o tempo, muito pelo contrário. Até hoje a força de sua música continua impressionante, batendo forte na cabeça de novos ouvintes e sendo redescoberta por rockers veteranos, que ao ouvir aqueles discos que os acompanharam por toda a vida percebem novos detalhes e novas nuances nas composições do conjunto.

Além de tudo isso,
Gettin´ Tighter - Deep Purple: ´68-´76 deveria servir de bíblia e exemplo para grande parte da crítica especializada brasileira, formada mais por torcedores do que por jornalistas dispostos a analisar, de forma séria e isenta, a obra de seus ídolos. Popoff consegue fazer isso com extrema naturalidade, nunca perdendo a força de seu texto e sempre transparecendo o amor e o tesão que sente pelo grupo.

Obrigatório, clássico e fundamental!

Compre o livro direto com Martin Popoff, acessando o seu site.

Discos Fundamentais: Johnny Winter - The Progressive Blues Experiment (1969)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Primogênito de John e Edwina Winter, John Dawson Winter III é um dos mais importantes e influentes músicos de blues do século XX. Sua guitarra fez história, elevando-o à condição de lenda viva, status esse esculpido a ferro e fogo pelas
highways de sua vida.

Albino como o seu irmão menos famoso, Edgar, Johnny começou a tocar muito cedo, e, aos 15 anos, já havia gravado seu primeiro álbum,
School Boy Blues, creditado ao grupo Johnny and the Jammers, hoje disputado mais por ser um raro souvenir do que propriamente por sua qualidade artística. Ainda durante a adolescência, Winter teve a oportunidade de assistir ao vivo ícones como Muddy Waters e B.B. King, fundamentais na sua formação.

Em 1968, Johnny Winter formou um trio com o baixista Tommy Shannon e o baterista Uncle Joe Turner. Os shows do grupo chamaram a atenção e deram uma certa reputação à banda, levando o jornalista Larry Sepulvado a escrever sobre o conjunto para a então nascente revista
Rolling Stone. A matéria de Sepulvado gerou interesse em Winter, tornando os shows do grupo ainda mais concorridos.

Em abril de 1969 chegou às lojas
The Progressive Blues Experiment, lançado pela Imperial Records, trazendo uma sonoridade crua e rude, que ajudou a definir o tipo de música que seria associada, mais tarde, à vertente do gênero proveniente do estado norte-americano do Texas. Trazendo apenas quatro faixas próprias ("Tribute to Muddy", "Bad Luck and Trouble", "Mean Town Blues" e "Black Cat Bone"), o álbum contém competentíssimas releituras de clássicos de autoria de Muddy Waters ("Rollin´ and Tumblin´"), Sonny Boy Williamson ("Help Me"), Slim Harpo ("I Got Love If You Want It"), B.B. King ("It´s My Own Fault") e Howlin´ Wolf ("Forty-Four"), deixando claras as influências que acompanhariam Winter em toda a sua longa trajetória.

Clássico incontestável, o álbum mostrou ao mundo o estilo único de Johnny Winter, seja no slide de "Rollin´ and Tumblin´", no tempero country de "Bad Luck and Trouble", nos solos inspirados de "Tribute to Muddy" e na aproximação com o hard rock de "Mean Town Blues", seguindo a mesma linha que o Led Zeppelin exploria com brilhantismo ímpar durante a primeira metade dos
seventies.

Se você gosta de blues ou de rock, esse é um disco imperdível.

Faixas:
A1. Rollin' and Tumblin' - 3:09
A2. Tribute to Muddy - 6:20
A3. I Got Love if You Want It - 3:52
A4. Bad Luck and Trouble - 3:43
A5. Help Me - 3:46

B1. Mean Town Blues - 4:25
B2. Broke Down Engine - 3:25
B3. Black Cat Bone - 3:46
B4. It's My Own Fault - 7:20
B5. Forty-Four - 3:28

Discoteca Básica Bizz#035: James Brown - Live at the Apollo (1963)


(Pepe Escobar, Bizz#035, junho de 1988)

Se o verdadeiro e único Godfather é o "
haaaaaardest working man in the show business" - como anunciam seus mestres de cerimônia há três décadas - Live at the Apollo é o melhooooooooor LP ao vivo na história do show business. Mas qual deles? Todos. Sim, porque existem três. O primeiro é absoluta lenda: gravado em dezembro de 1962, saiu pela King em janeiro de 1963 e foi relançado pela Solid Smoke em 1980. O segundo é um LP duplo, gravado em junho de 1968; saiu pela King dois meses depois e foi relançado em 1986 pela Rhino, da Califórnia, como dois LPs separados (Live at the Apollo Volume 2, Parts 1 and 2). O terceiro também é um LP duplo, gravado em 21 e 22 de julho de 1971, e lançado em dezembro do mesmo ano pela Polydor.

Qualquer
brownnófilo sério precisa ter os três, claro (como a negada, que já o transformou no "the most sampled man in show business"). O terceiro é fácil de ser encontrado no mercado. Mas não é tão arrasador quanto o segundo, o relançado em duas partes pela Rhino, também facilmente encontrável. Quanto ao primeiro, mate ou morra, mas não consuma o resto de sua existência sem incorporá-lo à sua discoteca.

No terceiro LP temos o Godfather na fase em que a estrutura harmônica de suas músicas, já em um strip-tease acelerado, cai em um exercício modal em cima de um só acorde (com a banda tocando um verdadeiro bilhar polirrítmico). No segundo LP temos James Brown à frente de uma de suas superbandas massacrantes (incluindo Maceo Parker e o pai da guitarra funk, Jimmy Nolen, com Brown de 1965 até sua morte, de ataque cardíaco, em 1983), atacando standards ("Think", "I Feel Good", "Cold Sweat", "Try Me", "Please, Please, Please") e clássicos alheios, como "Kansas City". 

E no primeiro LP temos um homem fazendo história: as sincopadas que se tornariam o som dos anos sessenta (e base para todos os sons negros e brancos bem informados subsequentes), os grooves de arrebentar, os ritmos entrecruzados, o scratch percussivo da guitarra, as tonalidades bebop da sessão de metais - gospel mixado com jazz licks, cujo filho pródigo foi chamado de soul music e, claro, com riff impagável por cima, por baixo, em volta e através desta elaborada estrutura em movimento de ritmo incessante, aquela voz infernal, pontuada por soluços, gritos, uivos, grunhidos, berros, pedaços de palavras mastigadas e o imperativo "take it to the bridge!"

James Brown define seu som: "De onde vem, é um segredo entre Deus e eu". Right on. Mas por que gravar no Apollo? JB explica em sua autobiografia (gritem para ser traduzida aí): "O Apollo era um lugar especial. O lugar para artistas negros. Você podia fazer seis ou sete shows num dia só. Você comia lá, dormia lá, e continuava ensaiando quando não estava no palco. A platéia era muito dura. Se eles não gostavam, davam a entender. Na hora."

Para quem tinha pacto com o Lord lá em cima e fazia 350 shows por ano, o Apollo foi uma manha. James Brown pagou a gravação ao vivo do primeiro LP do próprio bolso (5.700 dólares, um monte de $$$ na época). Foi gravado em duas pistas, ou seja, com mixagem quase que instantânea. Usaram apenas oito microfones, dos quais três para a platéia. JB queria lançar um LP ao vivo para que as pessoas, na época, pudessem pelo menos escutar o seu show, já lendário. 

Live at the Apollo, o primeiro, é o evangelho segundo o Godfather. Ele lembra, na biografia: "Assim que eu entrei em 'I'll Go Crazy' eu sabia que era um daqueles dias". Uma mãozinha extra do Lord lá em cima, que é tarado por soul e funk (quando não está de mau humor), JB, no Apollo, estabeleceu-se definitivamente no Olimpo. Good God, sock it to me, uuuuuuuuh!

Faixas:
A1. Introduction and Theme - 2:04
A2. I'll Go Crazy - 1:42
A3. Try Me/Theme - 2:21
A4. Think/Theme - 1:53
A5. I Don't Mind/Theme - 2:35
A6. Song Titles Interlude - 0:43
A7. Lost Someone Part 1 - 4:01

B1. Lost Someone Part 2 - 5:54
B2. Medley: - 6:25
a. Please, Please, Please
b. You've Got the Power
c. I Found Someone (I Know It's True)
d. Why Do You Do Me
e. (You Made Me Love You) I Want You So Bad
f. I Love You, Yes I Do
g. Why Does Everything Happen to Me (Strange Things Happen)
h. Bewildered
i. Please, Please, Please
B3. Night Train - 2:45

Leia também: Tim Maia - Racional Vol 1 (1974)

19/03/2009

Baú do Mairon: a história do Viper


Por Mairon Machado
Colecionador

O que você pensa quando vê Yves Passarell fazendo pose de gostoso ao lado de Dinho Ouro Preto no Capital Inicial, ou Andre Matos tomando frango como a Musa Nissei Sanssei no Rock Gol da MTV? Pois é, mas um dia, esses dois personagens fizeram parte de uma das principais bandas do heavy metal nacional. Ao lado do Sepultura, Ratos de Porão e Korzus, o Viper foi uma das primeiras a conseguir conquistar o mercado europeu, tendo feito muito sucesso em países com Alemanha, Hungria e, principalmente, no Japão.

O início da banda tem suas origens no bairro paulistano de Santa Cecília. Lá, Felipe Machado (guitarras), Yves Passarell (guitarras) e seu irmão Pit Passarell (baixo, voz) eram vizinhos e amigos desde pequenos, tendo "trabalhado" como donos de jornal, fliperama e construtores de bicicletas. Como nenhum dos "empregos" anteriores deu certo, começaram a construir suas atividades musicais, mesmo sem ninguém ter um instrumento sequer. Daí surgiu a Dragon, com Pit na bateria. O nome acabou não durando muito, assim como os posteriores, Pruckles e Rock Migration.

Com o passar do tempo, conseguiram uma guitarra e uma caixa antiga de escola de samba. Com instrumentos, passam a surgir as primeiras composições, ganhando destaque "H. R. (Heavy Rock)", bem como os primeiros shows. O irmão de Felipe, Nando Machado, passou a integrar a Rock Migration tocando baixo. Com o dinheiro dos shows, cada integrante foi conseguindo um intrumento melhor. Sem grana, Pit passou a tocar o baixo de Nando, que havia desistido da carreira musical. A bateria foi assumida então por Markus Kleine, e assim, influenciados por Kiss, Black Sabbath, Deep Purple, Uriah Heep e Judas Priest, passaram a ver seu nome crescendo na região. Markus não durou muito no posto, sendo substituído por Cássio Audi.

Ao mesmo tempo, outras bandas surgiram entre os amigos e também entre os membros da Rock Migration, com destaque maior para a Nephtuno, que tinha como vocalista o ídolo das guriazinhas do bairro, Andre Matos. Foi com a mescla de diferentes bandas que acabou surgindo o Viper, sendo o nome adotado no melhor estilo de grupo iniciante: abra um dicionário em inglês, aponte e onde o dedo apontar será o nome escolhido.


No final de 1984, o Viper fez uma de suas primeiras aparições ao público, tocando em um festival de talentos. Na apresentação, interpretaram "H. R." e "Paranoid" (Black Sabath), conquistando o terceiro lugar do evento, ficando atrás de um grupo que ninguém lembra o nome, mas que interpretou "Bandolins" de Oswaldo Montenegro!! Sem grana, Pit e Yves arranjaram trampo como entregadores de pizza, de onde conseguiram dinheiro para comprar instrumentos ainda melhores. Nessa altura do campeonato, Felipe já possuía uma guitarra Giannini, que era considerada um petardo pelos garotos.

Em 1985, vendo o crescente sucesso de Andre Matos, convidam o mesmo para fazer parte da banda. Ele topa de cara, e, como por muita sorte, conseguem juntar uma grana para gravar a primeira demo, que posteriormente levou-os a assinar contrato com a gravadora da Rock Brigade. Vale a pena ressaltar que a idade média da gurizada era 15 e 17 anos na época.


Em 1987 então é lançado o álbum Soldiers of Sunrise, que trazia influências diretas de Judas Priest, Helloween e, principalmente, Iron Maiden. O disco é uma pauleira atrás da outra, começando com "Knights of Destruction", onde Andre mostra ao público por que viria a ser considerado o melhor vocalista do metal nacional durante anos. "Nightmares" possui na sua introdução a bateria e linhas de guitarra muito similares as do Iron , semelhança que fica ainda mais clara quando Andre entoa os "oooooo" tradicionais que Bruce Dickinson tanto nos privilegia. A medieval "The Whipper" começa com sons de vozes distorcidas, bem como um duo de guitarras executando os riffs principais, os quais são intercalados pelos vocais de Andre. Nesta, a pauleira come solta, principalmente no refrão, onde todos os integrantes gritam o nome da canção. O lado A encerra com duas faixas muito parecidas, "Wings of the Evil" e a já citada "H. R.", que mantém a linha dos primeiros álbuns do Maiden.

O massacre sonoro de "Soldiers of Sunrise" abre o lado B primordialmente. A música possui diversas variações, alterando entre partes pesadas como as de "Knights of Destruction" e uma sessão instrumental mais pesada ainda. Com refrões grudentos, essa foi uma das primeiras canções do grupo a fazer realmente sucesso. "Signs of the Night" traz aqueles riffs abafados de guitarra acompanhados por um crescendo no vocal. É metal puro, com o baixo marcando presença no refrão. Finalmente, a ótima instrumental "Killera (Princess of Hell)" e "Law of the Sword" encerram o álbum como ele começou, destruindo o pescoço de qualquer moleque que ouça o som pela primeira vez. Um destaque também cabe para a mensagem anti-drogas da banda na contra-capa, a qual dizia as seguintes palavras: "As drogas não são diversão, apresentam perigo de vida para milhões. A loucura precisa parar. Existem coisas muito melhores na vida".

O álbum acabou vendendo bem, garantindo aos meninos um contrato com a gravadora Eldorado. Nesa época Andre começou a frequentar mais assiduamente as aulas de música, indo parar na Faculdade de Artes Santa Marcelina, onde passou a dedicar-se ao canto lírico, o que viria a influenciar fortemente o segundo trabalho do grupo, Theatre of Fate, o qual já contava com o baterista Guilherme Martin no lugar de Cássio Audi.


Lançado em 1989, esse álbum mostrou o Viper para o mundo, conquistando mercados principalmente na Europa e no Japão, sendo que no país do sol nascente venderam mais que bandas como Van Halen, Nirvana e Firehouse. O álbum é composto por diversas pérolas, e traz um Viper diferente do primeiro disco, mais influenciado pelas bases melódicas de Iron e Judas, bem como o peso do Black Sabbath e, principalmente, a participação da música erudita, seja através dos violinos, como por citações a Beethoven, Mozart e Vivaldi. Além disso, Andre tocou teclados e sintetizadores na maioria das canções, destoando bastante do peso e velocidade insanos de Soldiers of Sunrise.

O disco abre com a bela instrumental "Illusions", onde o violão faz a base para uma pequena sequência de solos de guitarra e teclados que imitam flautas. Segue com a paulada "At Least A Chance", o qual lembra o Helloween da fase Keeper of the Seven Keys, contando com muitos teclados e também com cordas. Duas pérolas encerram o lado A: "To Live Again", cujo riff inicial é daqueles ao estilo "Smoke on the Water" e "Stairway to Heaven", você nunca mais vai esquecer, além de ter um ótimo trabalho de guitarras; e a lindíssima "A Cry From the Edge", outra que é super trabalhada. Esta última começa com o violão dedilhando lentamente, fazendo a base para um solo de guitarra que traz o riff principal. A canção começa a aumentar a velocidade, tendo então um duo de guitarras. Daí então, a pauleira toma conta, com Felipe e Yves mandando ver nas palhetadas. Um belo tema instrumental traz as letras novamente, que são cantadas de forma mágica por Andre, o qual estava no ápice dos vocais.

O lado B abre com o primeiro hit (se é que posso dizer assim) da banda. Seguindo o trabalho de "A Cry From the Edge", "Living For the Night" passou a ser a música principal dos shows da banda. A introdução feita pelo cravo, juntamente com a letra, dá espaço para um pesado e longo tema instrumental, com muitos solos de guitarra. O baixo aparece com destaque, dando sequência para mais um solo de guitarra. A letra também muda de melodia, acompanhando o peso das guitarras. Finalmente, as guitarras passam a fazer a melodia e os acordes do cravo, com Andre repetindo a letra da introdução, terminando a faixa com barulhos de sirene e muitos sintetizadores. Pauleira total! 

Após a quebradeira, o ouvinte não consegue respirar, pois "Prelude to Oblivion" vem com tudo, com os vocais imitando um coral e a guitarra igual ao violino, interpretando temas eruditos de forma rápida, trazendo inclusive citações a Beethoven, Mozart e Vivaldi. Vale destacar aqui a presença do quarteto de cordas The Kubala Quartet Strings, formado por Fábio Brucoli (violinos), Renata Kubala (violinos), Ricardo Kubala (viola) e Suzana Kato (cello). 

"Theatre of Fate" é a mais pesada do álbum, seguindo a linha de "To Live Again" e com um baita arranjo das guitarras. A clássica "Moonlight" encerra o álbum, trazendo a melodia de "Moonlight Sonata" de Beethoven ao piano, acompanhado pela letra construída por Andre. Toda a canção é em cima da melodia da obra de Beethoven , fechando a faixa com um belo solo de violino de Renata Kubala e com Andre fazendo os maiores agudos de sua vida. Essa canção viria aparecer anos depois no álbum solo do vocalista, Time to Be Free, porém com outra cara e com o nome de "A New Moonlight".

Os integrantes, com exceção de Andre, não curtiram muito a virada no som, e preferiam seguir um caminho mais pesado, ao estilo do primeiro álbum. Então, mesmo com o sucesso de "Theatre of Fate", Andre decide terminar sua faculdade de música ao invés de retomar os sons mais pesados e seguir carreira com o Viper, formando depois  o Angra e o Shamman, virando atração principal dos shows ao lado de Kiko Loureiro, Luis Mariutti, Ricardo Confessori, entre outros, e seguindo o sucesso do Viper no Japão, criando um problema para a banda, afinal quem seria o novo vocalista? Guilherme também pulou do barco, sendo então substituído por Renato Graccia.


A solução foi voltar as origens, com Pit assumindo novamente os vocais, e assim, abriram para o Black Sabbath quando os mesmos estiveram no Brasil pela primeira vez, em 1992. Graças a Theatre of Fate, partiram para a Alemanha, onde gravaram o terceiro álbum, Evolution, em 1992. Ali, abandonam as influências da música clássica e do metal melódico, partindo para rumos novos, como o hard rock de bandas como Guns N' Roses, e também o peso de noms como o Metallica. Com muito peso, temos um disco que contém no mínimo mais dois hinos da carreira do Viper. 

O lado A abre com "Coming From the Inside". Baixo e bateria trazem os vocais de Pit, o qual deu novo pique para a banda, fazendo as canções ficarem bem mais rápidas. Essa faixa em especial também tem um belo duo de guitarras. Seguem os clássicos "Evolution", onde novamente baixo e bateria trazem a voz de Pit. Essa lembra as canções da fase Andre, contando com uma boa letra. Pit mostra que servia bem para a nova empreitada, cantando com raiva o refrão "Is the future on my side". 

"Rebel Maniac" é o outro clássico que não preciso falar nada, afinal todo headbanger que se preze balançou a cabeça ao som de "everybody, everybody ...". Lembro até hoje quando ouvi essa música pela primeira vez no Programa Livre do Serginho Groisman, ainda nos tempos do SBT (Fala Garoto!!), contando com aquele bonequinho cabeludo que aparecia no canto da tela tocando guitarra. Muito massa! 

"Dead Light" traz uma mescla de violões e guitarras bem sujas, mostrando que o Viper buscava novos ares, inspirando-se em bandas da moda, como Skid Row e Pearl Jam. "Still the Same" contém uma introdução super pesada, com dois bumbos e muita palhetada. Essa é uma das faixas mais trabalhadas, alternando entre partes cadenciadas e outras com palhetadas a la Metallica. O cover de "We Will Rock You" na versão rock pesado que consta no Live Killers encerra o lado A, porém mais suja do que na proposta pelo Queen.

"The Shelter" abre o lado B pesadona, com boa pegada de guitarra, no melhor estilo do heavy metal. Aqui temos uma ótima sessão instrumental, com muito wah-wah e dois bumbos. Seguem-se os hardzões "Wasted" (o qual vem "embrulhado" em uma balada com violões) e "Pictures of Hate", os quais dão sequência para o punk rock de "Dance of Madness". O disco encerra com a balada "The Spreading Soul", a qual conta até com uso de cordas no meio e no fim da canção, com Pit cantando a mesma somente sob luz de velas dentro do estúdio.


Aproveitando-se da gravação na Alemanha, a banda partiu para uma pequena turnê pelo país e também por Hungria, Croácia, Áustria, Suíça e Japão, onde foi registrado o ao vivo Maniacs in Japan, o qual tem como destaques maiores o acompanhamento tipo Rob Halford de Pit em "Evolution", o longo solo de bateria em "Still the Same", bem como a engraçada apresentação da banda em japonês, com os integrantes Felipe Son e Ives Passarell Son. Além disso, temos o ótimo público japonês participando, e bem, nas faixas "We Will Rock You" e "Living For the Night", mostrando como os nipônicos realmente são um povo de respeito.
 

Por lá também lançaram o EP Vipera Sapiens, com músicas inéditas que ficaram de fora do álbum Evolution, como "Acid Heart", "Killing World" e uma versão acústica para "The Spreading Soul". Em 1994 a banda foi uma das atrações principais no Monsters of Rock de São Paulo, e também abriu a turnê do Metallica por nossas terras.


Em 1995 a mesma formação de Evolution lançou Coma Rage. O álbum trazia um Viper ligado aos novos sons que estavam surgindo pelo mundo, abrindo com a paulada "Coma Rage", punkzão na mesma levada do álbum anterior, com direito até a paradinha de bateria a la Marky Ramone. Segue a melhor faixa do álbum "Straight Ahead", o qual é super pesada, e "Somebody Told Me You're Dead", outra faixa tri punk. "Makin Love" começa com uma garota chamando o namorado para casa para fazer algo "so good". Então, riffs pesados e grudentos, com variações e uso de cowbells, tomam conta da canção, a qual ainda contém uma citação aos Beatles, com a frase "all you need is love". "Blast!" já segue a linha hardcore que ficou consagrada em bandas como Green Day e Offspring, enquanto "God Machine" e "Far and Near" encerram o lado A de forma muito parecida, com levadas fortes e guitarras no estilo Kirk Hammet, carregadas de wah-wah.

O lado B abre com "The Last Song", com um baixão e guitarras no estilo Alice In Chains, além de um ótimo refrão no melhor estilo das grandes bandas de metal. "Die by Hate" é uma canção mais rápida e pesada do que as demais, alternando momentos com riffs dedilhados e outros com acordes. Seguem "Day Before", com a guitarra lembrando muito as canções do Iron na fase Paul Di´Anno, e a instrumental "405 South", onde a bateria marca o tempo para a guitarra viajar. A percussão acompanha um solo de guitara super distorcido, lembrando as canções do álbum Chaos A.D. do Sepultura. "Face in the Crowd" começa com guitarras pesadas, enquanto o vocal é cantado como se estivesse em um megafone. A voz fica limpa, alternando sessões mais melódicas e trabalhadas com outras mais pesadas, lembrando muito o Metallica. A cover de "I Fought the Law" do Clash, em uma versão mais rápida que a original, e a balada "Keep theWwords" encerram esse bom álbum que, infelizmente, não fez muito sucesso.


O Viper ainda lançaria o descartável Tem Pra Todo Mundo em 1996, onde as letras estão cantadas em português, com direito até a um samba. 


Em 2007 a banda voltou a ativa com o disco All My Life, e atualmente segue fazendo shows, mostrando suas pérolas para os que conheceram ou querem conhecer o bom do metal nacional.

Discos Fundamentais: Bad Company - Bad Company (1974)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Sem dúvida alguma este é um dos melhores discos que eu já ouvi. Após o encerramento das atividades do Free, poucos acreditavam que Paul Rodgers e Simon Kirke poderiam lançar algo tão bom em tão pouco tempo. Claro que estávamos falando de músicos excepcionais, especialmente Rodgers, mas o processo que leva ao encerramento das atividades de uma banda é estressante, cansativo e avassalador, principalmente em um caso como o do Free, onde Rodgers, Kirke e Andy Fraser viram a amizade entre os integrantes ser devastada pela dependência química de Paul Kossoff.

Na ressaca de todo esse processo surgiu o Bad Company. Do Free vieram Paul Rodgers e Simon Kirke. Do Mott the Hoople veio o guitarrista Mick Ralphs, enquanto o King Crimson havia sido a banda anterior do baixista Boz Burrell. Essa formação fez com que a imprensa logo os rotulasse como um supergrupo, característica que ficou ainda mais forte após Peter Grant, o lendário empresário do Led Zeppelin, anunciar que também seria
manager do grupo. Essa ponte entre as duas bandas fez com que o Bad Company fosse o primeiro contratado e lançasse o primeiro disco do Swan Song, o selo fundado por Page, Plant e companhia.

Lançado em 15 de junho de 1974,
Bad Company foi um sucesso tremendo, com o álbum atingindo o primeiro posto nos charts da Billboard. Os singles do álbum também fizeram bonito, com “Can´t Get Enough” alcançando a posição de número cinco e “Movin´ On” a dezenove.

Realmente, as oito faixas que formam o álbum apresentam uma qualidade indiscutível. A já citada “Can´t Get Enough” é uma pedrada hard guiada pela guitarra de Ralphs; “Rock Steady” é um hard blues onde toda a banda se destaca, com destaque para Ralphs e para a magnífica interpretação de Rodgers; a balada “Ready for Love” se transformou em um dos maiores clássicos do grupo, e é de uma simplicidade tocante.

A música que dá nome ao grupo e ao disco, “Bad Company”, é uma densa balada blues que contém uma das melhores interpretações de toda a carreira de Paul Rodgers, um vocalista que deveria ser muito mais reconhecido do que é. Marca registrada da banda, até hoje é um dos pontos altos dos shows do conjunto. “The Way I Choose” revela momentos lindos em suas linhas vocais e em seu arranjo, emocionando todo e qualquer apreciador de música. O álbum fecha com o single “Movin´ On”, que traz enormes influências do Free, e a clássica “Seagull”, uma das mais emblemáticas composições do grupo.

Após essa estréia, o Bad Company lançaria mais quatro ótimos discos -
Straight Shooter em 1975, Run With the Pack em 1976, Burnin´ Sky em 1977 e Desolation Angels em 1979, sendo que os três primeiros são fundamentais em qualquer coleção de respeito.

Paul Rodgers sairia da banda am 1982, sendo substituído por Brian Howe (Ted Nugent), e durante a sua ausência o Bad Company enveredou por caminhos sonoros discutíveis, deixando de lado o blues rock e o hard que o haviam consagrado e investindo em uma sonoridade mais pop, que visava exclusivamente o crescimento do grupo no mercado norte-americano. Rodgers voltou à banda em 1998, e desde então o Bad Company tem realizado shows frequentes, mantendo vivo o seu legado como um dos mais importantes grupos de hard rock dos anos setenta.

Faixas:
A1. Can't Get Enough - 4:16
A2. Rock Steady - 3:47
A3. Ready for Love - 5:02
A4. Don't Let Me Down - 4:21

B1. Bad Company - 4:50
B2. The Way I Choose - 5:05
B3. Movin' On - 3:24
B4. Seagull - 4:02

Discoteca Básica Bizz#034: Love - Forever Changes (1967)


(Fernando Naporano, Bizz#034, maio de 1988)

Com o neopsicodelismo inglês, que vem desde a passagem da década (Echo & the Bunnymen, Teardrop Explodes, Monochrome Set) e até a recente consolidação das bandas assumidamente regressivas (Primal Scream, Weather Prophets, Primitives, Brilliant Corners, Razorcuts, Mighty Lemondrops, Shamen) - onde reconstitui-se com uma nova roupagem a estética dos anos sessenta -, uma lado mais obscuro da geração psicodélica passou a ser fortemente reverenciado. Tornou-se
fashion rebuscar as melhores doses de inspiração não apenas nos expoentes da West Coast Music (Jefferson Airplane, Grateful Dead, Doors) como também nas bandas de folk rock (Buffalo Springfield, Byrds) e em obscuros e insólitos cult groups californianos como H.P. Lovecraft, Strawberry Alarm O´Clock, Spirit e Smoke.

A mais cultuada e reconhecida fonte de idéias, entretanto, foi o Love, grupo criado pelo guitarrista e vocalista Arthur Lee, que em 1964 largou sua terra natal (Memphis) e se picou para L.A., onde recrutou os guitarristas Bryan McLean e John Echols, o baixista Ken Forssi e o baterista Don Conka (logo substituído por Alban "Snoopy" Pfisterer). Contratados pela Elektra, debutaram em vinil com o LP Love (1966), que conta com canções inesquecíveis como a ode lisérgica "Signed D.C." e duas covers, uma de Burt Bacharach/Hal David ("My Little Red Book") e outra infernal do clássico "Hey Joe". 

No segundo disco, Da Capo, que conta com o acréscimo de Tjay Cantarelli nos sopros e Snoopy (substituído na bateria por Michael Stuart) comandando os teclados, o Love solidificou sua musicalidade - ritmos e melodias de uma psicodelia pouco ortodoxa, condensada por idiossincráticos elementos de folk rock e turvas passagens de rhythm'n'blues que, aliadas a tons de balada, fizeram de seu som um dos mais originais e peculiares do desbunde americano.

O disco em questão é o seguinte: Forever Changes, lançado no final de 1967 e considerado um dos mais importantes dos anos sessenta e o mais significativo do Love. A partir deste LP, a banda original dissolveu-se, cabendo a Lee carregá-la nas costas por mais quatro álbuns que, embora interessantes, já não continham mais a expressividade que os havia caracterizado.

Produzido em conjunto por Bruce Bostnick (que depois produziria o L.A. Woman dos Doors), é um LP voltado às transformações que, literalmente, revolucionaram boa parte do cenário pop. Desde a inclusão de sopros e cordas até o turbilhão eclético que permeia os arranjos das onze faixas, pode-se dizer que Forever Changes é o Sgt Pepper's do Love, ou seja, a ruptura com elementos mais formais e uma recriação do toda a psicoparafernália do cérebro - queimado de ácido - de Lee. As letras, iluminadas pela aura surrealista, divagam, entre trocadilhos elegantes e rimas aparentemente ingênuas em torno do desassossego, da dúvida e do comportamento (re)visto por uma ótica chumbada de lindos sonhos dourados.

Quanto às canções, encontramos baladas flamenco-orquestrais como "Alone Again Or" e "Maybe the People Would Be the Times or Between Clark and Hilldale", o bucolismo folk de "Old Man" e "Live and Let Live" (essa é bem à la Donovan), as baladas-romântico-psicopop "Andmoreagain" e "The Good Humor Man He Sees Everything Like This", as complexas texturas psicoclássicas que discutem as situações do homem perante a existência na legendária "The Red Telephone", as sofisticações psicodélicas com inesperadas ou ásperas mudanças e distintas modulações nas harmonias presentes em "A House is not a Motel", "The Daily Planet" e "You Set the Scene" e o curioso
dylanesco semi-rap-psicodélico "Bummer in the Summer". Essas canções eram mais ou menos assim. 

Hoje tenho muitas saudades desse Amor derretido por excesso de ácido e criatividade.

Faixas:
A1. Alone Again Or - 3:18
A2. A House Is Not a Motel - 3:32
A3. Andmoreagain - 3:21
A4. The Daily Planet - 3:31
A5. Old Man - 3:02
A6. The Red Telephone - 4:45

B1. Maybe the People Would Be the Times or Between Clark and Hilldale - 3:35
B2. Live and Let Live - 5:27
B3. The Good Humor Man He Sees Everything Like This - 3:08
B4. Bummer in the Summer - 2:24
B5. You Set the Scene - 6:49


Pé D´Orelha - Pé D´Orelha Volume Um (2008)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ***1/2

O Pé D´Orelha nasceu de uma banda cover de blues que tocava na noite carioca. O entrosamento entre os músicos foi tão harmonioso que o grupo começou a compor material próprio, e o resultado é um hard rock com sabor setentista, que deve agradar em cheio quem gosta de um bom e honesto rock and roll.

Formada por Eduardo Kazan no vocal, Daniel Costa na guitarra e violão, Beto Brown no baixo e Alexandre Baca na bateria, o grupo chega a seu primeiro play com
Pé D´Orelha Volume Um, lançado em 2007. Um bom disco, que transparece paixão e amor pela música em cada uma de suas doze faixas.

"Guaia" abre o trabalho com um bom riff; "Tudo por Dez Reais" tem um ótimo refrão e uma letra sacana, que conta a história de uma menina que prometia fazer qualquer um feliz por meros dez reais; um riff pesadão apresenta "Deixe o Medo", com ótimas guitarras e backing vocals que lembram o Barão Vermelho em seus melhores momentos. 

A melhor faixa do CD vem a seguir: "Sigo Pronde Sopra o Vento" é um blues muito bom, com ecos de Celso Blues Boy tanto nas guitarras quanto nos vocais, e que cativa já na primeira ouvida; se eu tivesse um programa de rádio ou qualquer coisa semelhante, tocaria essa sem dúvida, lá por perto da meia-noite.

O disco segue com o riff totalmente setentista de "Murro em Ponta de Faca", com um refrão muito legal; m seguida surgem os metais da meio ska "O Lodo", dona de um refrão hilário e que apresenta uma discreta influência de Chico Science e Nação Zumbi. 

O trampo do guitarrista Daniel Costa se destaca, despejando uma tonelada de bons riffs durante todo o disco, como em "Não" e "Vício Maldito", essa última com uma linha vocal bem chicletona. "O Trato" é outro grande momento, com a guitarreira comendo solta, com um monte de efeitos, e letra contando a história de um cara que fez um trato com diabo. O álbum fecha com "Mundo Louco" uma das mais pesadas do disco, com outra letra bem sacada, e "Caos Social", que tem sei riff emprestado de "Space Truckin´", do Deep Purple.

No geral esse primeiro registro do Pé D´Orelha aresenta canções bem construídas, com linhas vocais bem desenvolvidas, pontes antes dos refrães, arranjos bem definidos, que passam a impressão de terem sido trabalhados exaustivamente. Um trabalho bem feito, sem dúvida, repleto de algo que anda em falta nos tempos atuais: paixão e tesão pelo rock. Precisa mais do que isso?

Faixas:
1. Guaia - 2:47
2. Tudo por Dez Reais - 2:40
3. Deixe o Medo - 2:44
4. Sigo Pronde Sopra o Vento - 4:33
5. Murro em Ponta de Faca - 3:00
6. O Lodo - 2:30
7. Não - 2:44
8. O Trato - 4:05
9. Vício Maldito - 3:38
10. Dor De - 4:42
11. Mundo Louco - 3:47
12. Caos Social - 3:20

www.pedorelha.com.br

V/A - Extreme Brazilian Alliance (2008)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ***

Extreme Brazilian Alliance é uma compilação organizada pela Nihilistic Music, do Rio de Janeiro, que traz dez bandas de metal extremo de todo o Brasil.

Um bom retrato do underground, com alguns grupos promissores, como é o caso dos baianos do Inside Hatred, com um death brutal; o Tempestilence, de Campinas, que executa um black metal bem interessante, bebendo nas raízes do estilo, com destaque para o vocal de Fábio Lima, também guitarrista; os cariocas do As Dramatic Homage, com um death bastante técnico, com boas melodias e ótima performance dos músicos; os também cariocas da Dark Tower, death metal influenciado elo thrash; o bom death dos mineiros do Sepulcro; o black metal totalmente
old school dos também mineiros Blasphemical Proceation.

Completam o disco a Angerise de Belo Horizonte, o Inhumane Rites de Sorocaba, os paulistas do Dead Crush (com uma proposta muita interessante, que é fazer um som extremo tendo como ponto de partida ícones do cinema de terror - tanto que o nome da faixa aqui presente é "Michael Myers", o assassino da clássica série de filmes
Halloween) e os paranaenses do Waking for Darkness.

Parabéns a Nihilistic pela iniciativa desse interessante lançamento, que mostra que existe muito metal de qualidade sendo feito no Brasil, e que está, infelizmente, longe do alcance da maioria dos fãs.
Extreme Brazilian Alliance ajuda a diminuir um pouco esse distanciamento, e revela nomes que tem tudo para causar um estrago muito maior em um futuro próximo.

Faixas:
1. Inside Hatred - Empire in Decadence
2. Tempestilence - Cold Dark Era
3. Angerise - Killing One by One / Merciless War
4. Inhumane Rites - Dawn of Unholy Rebellion
5. As Dramatic Homage - Ominous Force For Ascension
6. Dark Tower - Human Like Fire
7. Sepulcro - Perpétuo Domínio
8. Blasphemical Procreation - Satan With Me
9. Blasphemical Procreation - Transcomunication
10. Dead Crush - Michael Myers
11. Waking For Darkness - Lamentation


18/03/2009

Umbra et Imago - Die Welt brennt (2002)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ***1/2

O Umbra et Imago nasceu em 1991 na cidade alemã de Karlsruhe, já lançou uma dezena de álbuns e conquistou uma fiel legião de fãs no underground europeu.
Die Welt brennt, lançado originalmente em 2002 no velho mundo, finalmente ganha versão nacional, e é um item no mínimo interessante.

Liderado pelo vocalista Manuel Munz, conhecido como Mozart, o grupo faz um gothic rock muito competente, bastante soturno e climático, que cai bem aos ouvidos. Visualmente a banda explora muitos elementos teatrais e performáticos em seus shows, e usa e abusa da sexualidade como fator dominante de sua obra. Mulheres nuas entram no palco, algumas estão em gaiolas suspensas, outras interagem com o vocalista, levando a platéia ao delírio.

É inegável que a performance da banda impressiona. Algumas vezes ficamos chocados, outras achamos interessante, e em alguns momentos tudo não parece passar de um teatro um tanto quanto ridículo, mas, de maneira geral, o show do grupo é um todo muito bem montado e pensado, que alcança com propriedade aquilo que se propõe a fazer: explorar até o limite a dramaticidade de sua música, somada a uma sexualidade extrema. O tema vampirismo é mais do que relevante aqui, tanto na forma da banda se vestir e postar, quanto de seu próprio público, repleto de figuras estranhas.

Assistir aos extras do DVD é fundamental para entender mais sobre o Umbra et Imago e seu mundo próprio. Venerado pelos fãs, Mozart assume a postura de apóstolo gótico, um personagem enigmático e bastante complexo. O sexo é o tema principal da obra do conjunto, e shows sadomasoquistas complementam as entrevistas, com cenas que podem chocar os mais puritanos, mas que revelam o quanto um considerável segmento de adeptos da música pesada mergulhou nos recantos mais soturnos do gênero, temperando-o com aspectos controversos de outras manifestações artísticas, gerando um resultado final bastante interessante. Ainda que a Hellion Records, seguindo o seu padrão ridículo de qualidade e respeito aos consumidores, tenha feito o favor de não legendar as entrevistas - que são em alemão -, mesmo assim dá pra entrar no clima. Pelo menos o DVD vem com um ótimo CD bônus ao vivo com o áudio do show.

Tem gente que vai odiar, tem gente que vai amar, mas é inegável que
Die Welt brennt é um item curioso e diferenciado, que serve como referência de uma cena que se torna cada vez mais popular na Europa.

Vale a pena dar uma conferida, sem dúvida alguma.

Discos Fundamentais: Black Oak Arkansas - High on the Hog (1973)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Quando se fala em southern rock, os primeiros nomes que vem à mente são o Lynyrd Skynyrd e a Allman Brothers Band. Apenas os fãs mais dedicados do estilo lembram do Black Oak Arkansas. Formado em 1965 na cidade de Black Oak, no estado de Arkansas (sacou o porque do nome?), o grupo se chamava originalmente The Knowbody Else, e a formação original contava com James Mangrum (Jim Dandy) nos vocais, Pat Daugherty no baixo, Wayne Evans na bateria e o trio Ricky Lee Reynolds, Stanley “Goober” Knight e Harvey Jett nas guitarras.

Em 1969 a banda se mudou para Memphis, no Tennessee, e assinou contrato com a Stax Records. Gravaram um único álbum pela companhia,
The Knowbody Else, que acabou engavetado. Foi nessa época que mudaram o nome para Black Oak Arkansas e começaram a se interessar por psicodelia e pela cultura sulista, influências que marcariam definitivamente o seu som.

Após algumas turnês tocando em tudo que é boteco da Améria, assinaram com a Atco em 1970. A gravadora lançou finalmente o debut em 1971, enquanto o grupo caía na estrada em uma extensa turnê para promover o disco. Começava nessa época a fama de ótimos no palco que acompanharia o Black Oak Arkansas por toda a sua carreira.

Em 1972 lançaram dois álbuns,
Keep the Faith e If an Angel Came to See You, Would You Make Her Feel at Home?, solidificando seu estilo junto aos fãs. Em 1973 o ótimo ao vivo Raunch 'N' Roll Live transpôs para o vinil a já lendária fúria exibida no palco.

Mas o grande estouro comercial do Black Oak Arkansas aconteceu com
High on the Hog. Lançado também em 1973, o disco trazia uma significativa alteração no line-up do conjunto: no lugar de Wayne Evans estava um certo Tommy Aldridge (que ficaria famoso anos mais tarde, tocando ao lado de Ozzy Osbourne e do Whitesnake).

Gravado entre 15/09/1972 e 29/08/1973, o disco teve produção de Tom Dowd e alcançou a posição de número 52 na parada da
Billboard. O auge criativo do Black Oak Arkansas, transitando com absoluta naturalidade por todos os elementos que compunham o seu som, pode ser ouvido em suas dez faixas.

“Swimmin´ in Quicksand” abre o álbum misturando o balanço e a malícia latina ao southern rock, tudo temperado com pitadas funk. As raízes do grupo são homenageadas no country acústico de “Back to the Land”, enquanto “Movin´” é um hard rock poderoso com claras influências da lendária Charlie Daniels Band.

Um dos destaques de
High on the Hog é “Happy Hooker”, um hard blues cheio de segundas intenções, onde Jim Dandy soa como uma mistura de Mick Jagger com George Thorogood. “Happy Hooker” brilha ao lado de mais duas canções.

A primeira, “Jim Dandy”, foi originalmente composta por Lincoln Chase e traz a vocalista Ruby Starr dividindo os vocais com Jim. Com uma levada bastante influenciada pelo Sweet, virou a marca registrada da banda, o maior sucesso de sua carreira, alcançando a 25ª posição nas paradas.

A segunda é “Moonshine Sonata”, uma parceria do grupo com o produtor Tom Dowd. Longa jam instrumental com pitadas de Allman Brothers, possui guitarras cheias de melodia e que ifluenciaram, claramente, desde bandas clássicas como Wishbone Ash e Thin Lizzy até ícones do heavy metal como Iron Maiden e Judas Priest. Esta faixa mantém a tradição de todo grupo sulista de possuir uma canção com longos solos, e é uma espécie de “Freebird” do Black Oak Arkansas.

A influência country dá as caras novamente em “High´N´Dry” e “Why Shouldn´t I Smile”, esta última com uma grande performance do baixista Pat Daugherty. O disco fecha como começou, com o balanço latino temperando o hard rock de “Mad Man”.

A qualidade foi mantida com o álbum seguinte,
Ain't Life Grand (1975), que marcava mais uma mudança na formação: no lugar de Harvey Jett o grupo contava agora com a guitarra de James Henderson.

Após o estouro comercial destes dois álbuns, a banda literalmente explodiu. Desentendimentos entre os integrantes fizeram surgir um novo grupo, batizado apenas como Black Oak, e que contava com Jim Dandy e James Henderson ao lado de Greg Reding (guitarra e teclado), Jack Holder (guitarra), Andy Tanas (baixo) e Joel Williams (bateria). Esta formação gravou os discos
Race With the Devil (1977) e I'd Rather Be Sailing (1978).

Após estes dois trabalhos, o grupo encerrou suas atividades em 1980. O Black Oak Arkansas ficou nas sombras até 1984, ano que marcou o reencontro de Jim Dandy com Ricky Lee Reynolds. Recuperando-se de um ataque cardíaco, o vocalista convidou seu antigo parceiro para participar de seu álbum solo
Ready as Hell. A parceria se repetiu também em The Black Attack Is Back, lançado em 1986. Mas os fãs só foram brindados com a reunião do Black Oak Arkansas treze anos depois, com o lançamento do inédito The Wild Bunch, em 1999.

A influência do Black Oak Arkansas foi muito além dos limites do southern rock. O hard rock apimentado com influências latinas, country e funk executado pelo grupo antecipou uma tendência que se intensificaria principalmente na década de noventa: a fusão de estilos conspirando para a formação de uma sonoridade totalmente nova. Além disso, a performance ensandecida de Jim em cima do palco influenciou inúmeros vocalistas, notoriamente David Lee Roth, que buscou inspiração no líder do Black Oak Arkansas para criar os saltos que viraram a sua marca registrada nos primeiros anos do Van Halen.

Faixas:
A1. Swimmin' in Quicksand - 3:20
A2. Back to the Land - 2:25
A3. Movin' - 3:13
A4. Happy Hooker - 5:27
A5. Red Hot Lovin' - 2:45

B1. Jim Dandy - 2:38
B2. Moonshine Sonata - 5:26
B3. Why Shouldn't I Smile - 2:21
B4. High 'n' Dry - 2:25
B5. Mad Man - 3:50

Arcturus - Shipwrecked in Oslo (2006)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ****

O Arcturus nasceu em 1987 em Oslo, e desde o início se destacou por fazer um som extremo aberto a influências de outros gêneros musicais, notadamente o rock progressivo. Passagens atmosféricas e climáticas são frequentes na música desses talentosíssimos noruegueses, extremamente técnicos e donos de um bom gosto absurdo em suas composições.

Shipwrecked in Oslo, gravado ao vivo no dia 17 de setembro de 2005 na capital norueguesa e lançado em maio de 2006 na Europa, ganha agora uma versão nacional disponibilizada pela Somber Music e deixa claro que o grupo se transformou em uma entidade interessantíssima, que, ainda que tenha partido do metal extremo, hoje está distante dele, agregando elementos de música folclórica, do já citado progressivo e até mesmo de space rock em sua complexa sonoridade.

Contado com Simen Hestnaes nos vocais (o ICS Vortex do Dimmu Borgir), Tore Moren e Knut Magne Valle nas guitarras, Hugh Mingay no baixo, Steinar Johnsen nos teclados e Jan Axel Blomberg - o lendário Hellhammer do Mayhem - na bateria, o Arcturus mais parece um verdadeiro
dream team do metal extremo norueguês. É muito interessante ver esses músicos, que exploram caminhos distintos em suas bandas, trilharem estradas totalmente diferentes com o Arcturus. A pluralidade e a riqueza sonora são evidentes, bem-vindas e fundamentais. Não há limites para a criatividade, a música não fica presa nas cercas de um determinado gênero musical. A diferença aqui é a soma de elementos aparantemente antagônicos na construção de uma sonoridade única. Assim, há desde black metal da melhor qualidade até música eletrônica na mistura promovida por esses nórdicos malucos. Mas, com certeza, o principal ingrediente, e que faz toda a diferença para que o prato desça redondo, é o talento sobrenatural do sexteto. Sem ele, teríamos apenas uma massaroca mal costurada e indigesta. Graças a ele, temos uma música única, espantosa e cativante, sem parâmetro no heavy metal.

Falar da performance individual dos músicos é desnecessário, pois todos são fenomenais. A recomendação para qualquer banger é colocar o DVD no player, sentar no sofá e viajar junto com a banda. A forma como o show, e o DVD, foram montados, ajuda muito nessa jornada. Dançarinas com máscaras invadem o set, seres estranhos surgem tanto na platéia quanto em cima do palco, imagens se fundem às cenas do grupo tocando. Tudo conspira para levar o telespectador em um mergulho profundo no mundo todo próprio da banda, mostrando que os caras pensaram o show como um evento multimídia, onde cada recurso se soma aos demais, formando um painel denso e psicótico.

Usar o velho recurso de destacar essa ou aquela música não se aplica aqui. O DVD foi pensado como um todo, e ele funciona muitíssimo bem assim. Se você é daqueles ouvintes preconceituosos, que pensa que o black metal é apenas barulho feito por gente que não sabe tocar nada, assista esse DVD. Ele vai muito além do gênero. Aliás,
Shipwrecked in Oslo é indicado não aos fãs de música extrema, mas sim aqueles que curtem a multiplicidade e a técnica do rock progressivo. Se você é um fã de prog, irá pirar com esse DVD. Se for um true from hell, recomendo os recentes vídeos do Dark Funeral e do Marduk, porque certamente você não irá curtir esse do Arcturus.

Enfim, um produto de altíssima qualidade, que exemplifica, nos mínimos detalhes, o quanto o heavy metal se tornou, com o passar dos anos, um gênero amplo e sem limites estilísticos.

Faixas:
1. Introduction
2. Ad Absurdium
3. Nightmare Heaven
4. Shipwrecked Frontier Pioneer
5. Alone
6. Deception Genesis
7. Chaos Path
8. Tore Guitar Solo
9. Deamon Painter
10. Nocturnal Vision Revisited
11. Painting My Horror
12. Steinar Keyboard Solo
13. Hufsa
14. Master of Disguise
15. Knut Guitar Solo
16. White Noise Monster
17. Reflections
18. Raudt og Svart
19. Credits

Bonus
1. Video Clip
2. Rehearsal
3. Slideshow Gallery

Discoteca Básica Bizz#033: Walter Franco - Revolver (1976)


(Lívio Tragtemberg, Bizz#033, abril de 1988)

"
Apesar de tudo muito leve", cantava esse paulista de formação universitária em plena época da barra-pesada. A sabedoria de Walter Franco está reunida em