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08/06/2009

Podcast Collector´s Room#005


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Nova edição do podcast da Collector´s Room no ar!

Nessa semana, novos sons, um mergulho nos anos setenta, bloco do colecionador com o meu amigo Isidoro Jr - vulgo Bucaneiros - e, é claro, muita música rolando em um programa que cabe certinho em um CD-R. É só baixar a gravar!


Se você preferir, você pode ouvir o podcast da Collector´s Room em streaming aqui no blog, ou também na rádio Shock Box. Facinho facinho, é só dar play, não precisa baixar.

Enviem emails para ricardoseelig@gmail.com com as suas opiniões e críticas, perguntas e dúvidas, que eu responderei todas com o maior prazer.

Abração, boa semana e espero que vocês curtam.

Massacration assina contrato com EMI


Por Renato Tribuzy
Músico e Colecionador

Agora é oficial!

O Massacration assinou contrato com a EMI,uma das maiores gravadoras da atualidade. A gravadora será responsável pelo lançamento e distribuição do novo álbum da banda, intitulado Good Blood Headbangers ("Headbangers Sangue Bom").

O contrato, que abrange lançamento internacional, abre a possibilidade do novo álbum do grupo ser lançado em outros países.

O CD trará dez faixas, entre elas “Massacration”; uma homenagem aos deuses do metal, “The Hymn of Metal Land”, hino da terra do metal; e “The Mummy”, com participação de Falcão, um dos ícones da musica brega brasileira.

O álbum foi produzido e mixado por Roy Z (Judas Priest, Bruce Dickinson, Helloween, Sebastian Bach) e tem seu lançamento previsto para final do primeiro semestre.

Discoteca Básica Bizz#096: Michael Jackson - Off the Wall (1979)


(Camilo Rocha, Bizz#096, julho de 1993)

O ano de 1979 dividiu muitas águas. Ao mesmo tempo em que o punk pedia para alguém desligar os aparelhos na UTI, a disco music mostrava níveis nunca antes alcançados de manipulação de estúdio e aproveitamento máximo de tecnologia (tanto para o bem como para o mal). Era a vez dos anos oitenta: céticos, profissionais, estilosos e obcecados com a imagem. Como seria o pop dessa década? Superproduzido, sem vergonha de ser um produto e polivalente: não bastava ter música, tinha que ter bom clip, uma roupa legal, dançar bem, fazer um show mega, etc.

Quer dizer, o fim da atitude artística e da música em favor da grana e da imagem? Nem tanto. É aí que residia a autenticidade desse novo pop, que acabou levando esses conceitos à categoria de arte.

Se isso acabou sendo bom o ruim é história para contar outro dia, mas isso era um reflexo natural do estágio de então na música pop: uma tentacular indústria triliardária amparada por ultra tecnologia, tanto no estúdio como na promoção de artistas, como provaram os símbolos da década de oitenta: Duran Duran, George Micheal, Janet Jackson, Whitney Houston, Madonna e - claro - Michael Jackson.

Foi ele, em Off the Wall, que lançou o marco zero deste novo conceito. Aperfeiçoou tudo em 1983 com Thriller (só lembrando: o disco mais vendido da história), mas a semente já estava em Off the Wall, em que se apresentava como um artista que compunha, cantava, dançava, atuava em clips superproduzidos e lançava álbuns ultra bem feitos e cheios de hits.

Michael já vinha ensaiando seus passos solo desde 1972 com hits como "Ben" e "Got to be There", mas sem assumir isso full time. Com a consolidação do sucesso do grupo The Jackson 5, Michael ia amadurecendo e as coisas começavam a mudar de figura. 

Em 1976 a Epic comprou o passe dos Jacksons da Motown. Fizeram dois contratos: um para o grupo, que virou The Jacksons, e outro para o jovem Michael. Era consenso de que os irmãos reunidos eram bons, mas quem ia render mesmo a longo prazo seria aquele moleque prodígio. A Epic tratou de cuidar para que seu estouro solo fosse certeiro. 

Para a produção foi chamado o maestro Quincy Jones, multinstrumentista, arranjador e gênio de estúdio, com um currículo de band leader, jazzista, compositor de trilhas e produtor de soul. Os músicos do disco foram pinçados entre a nata das chamadas feras de estúdios da época (como o baixista Louis Johnson e o tecladista Greg Phillinganes). Paul McCartney e Stevie Wonder contribuíram com duas baladas, "Girlfriend" e "I Can't Help It", respectivamente. 

Jones ainda recrutou um colaborador que se mostrou essencial para o resultado final: o inglês Rod Temperton. Líder da banda de disco Heatwave (que fez "The Groove Line"), Temperton tinha o dom de unir ritmos infalíveis, sempre com um efeito sonoro grudento. Acabou escrevendo "Rock With You", "Burn This Disco Out" e a faixa-título. Para ajudar na imagem "já-é-um-homenzinho" do disco, Michael co-produziu três faixas: "Don't Stop Til You Get Enough", "Working Day and Nigth" e "Get On the Floor".

Off the Wall saiu uma coleção sem falhas, fluente, de pop disco e baladas soul pop. "Rock With You" entrou na minha lista de melhores singles de todos os tempos pela virada de bateria que abria a faixa, pelo clima dos violinos e pelo fato de que quando você achava que sabia como era a melodia, ela tomava um rumo novo, mais cool, até cair num solo de teclados simulando sopro. "Working Day and Night" abria com uma percussão rapidinha e um loop de alguém ofegando que não devia nada a equivalentes atuais feitos com samplers. "Girlfriend" mostrava que Michael sabia jogar com economia uma voz doce numa balada, sem melar o resultado. 

O disco estabeleceu a figura solo de Michael Jackson, rendeu hits mundiais e vendeu mais de dez milhões ao redor do mundo. E fez jus ao clichê número um dessa seção: depois dele, o pop nunca mais foi o mesmo.


Faixas:
A1. Don't Stop 'Til You Get Enough - 6:06
A2. Rock With You - 3:40
A3. Working Day and Night - 5:14
A4. Get on the Floor - 4:39

B1. Off the Wall - 4:06
B2. Girlfriend - 3:05
B3. She's Out of My Life - 3:38
B4. I Can't Help It - 4:30
B5. It's the Falling in Love - 3:48
B6. Burn This Disco Out - 3:41

05/06/2009

A História do Rock - Parte I


Por Ugo Medeiros
Colecionador e Jornalista
Coluna Blues Rock

As Raízes

Falar sobre a formação deste estilo musical pode ser uma pretensão deste formando. Tentarei aqui mostrar, de forma simples e sucinta, como se deu a criação dessa nova música, dentro de um espaço altamente segregado. Como se sabe, o rock veio do blues, música dos escravos do final do século retrasado, portanto é necessário resgatarmos o seu histórico para entendermos a criação do rock.

Como já foi dito anteriormente, o blues veio da fusão das culturas africanas e européias.

(...) Para compreender como ele foi gerado, é preciso realizar uma longa viagem até a África Ocidental de séculos atrás. Foi dali, onde ficam atualmente países como Mali, Senegal, Gana, Congo e Gâmbia, que saiu a maior parte dos negros levados como escravos para os Estados Unidos (RIBEIRO, 2005, pág. 14). 

Era comum à cultura desses povos a prática de griots, forma de cantar semelhante ao grito, onde o homem cantava acompanhado de um instrumento de cordas arcaico. Era uma forma de glorificar seus mitos e a história de sua comunidade. Nas palavras de MUGGIATI (1973, pág. 8):

(...) o rock nasceu de um grito, o primeiro grito do escravo negro ao pisar em sua nova terra, a América. Esses berros de estranha entonação eram atividade expressiva comum entre os nativos da África Ocidental. O primeiro grito cortou os céus americanos como uma espécie de sonar, talvez a única maneira de fazer o reconhecimento do ambiente novo e hostil. 

Estes “gritos”, aos poucos, evoluiram às work songs: o canto coletivo durante o trabalho nas lavouras, sob o forte sol, sob e sobre a dura rotina nos campos de algodão, onde havia um líder que berrava uma frase, seguido de um coro do restante presente.

Adicionados a esta tradição africana, a Europa contribuiu com baladas, instrumentos (violão de origem espanhola e a gaita de origem alemã) e os
spirituals. Estes consistiam em cantos religiosos, onde os africanos eram evangelizados. 

Em algum momento, work songs e spirituals começaram a se intercambiar. Muitas canções de trabalho tinham letras religiosas e, por outro lado, vários spirituals eram entoados da mesma forma como se cantava nos campos de algodão (RIBEIRO, 2005, pág. 19). 

Assim, do casamento destas duas escolas, o blues nascia ao final do século retrasado, provavelmente no estado do Mississipi (devido a maior concentração de negros e músicas que descreviam a paisagem local).

No seu começo, o blues era cantado de forma coletiva sem acompanhamento de instrumento, apenas no coro (
spirituals e griots), como já foi dito. Porém, após a Guerra de Secessão e a consequente vitória do norte, os escravos foram libertados e uma pequena reforma agrária tentou reordenar a distribuição de terra, vigente até então. A estrutura agrária passou a se basear na agricultura familiar, no sistema de meagem, onde o proprietário branco explorava, ainda, grande parte dos agricultores negros. Assim, há uma importante mudança direta na forma de cantar o blues:

O fim das grandes plantações marcou, portanto, a substituição do trabalho coletivo dos escravos pela agricultura familiar. Consequentemente, as work songs entoadas em coro deram lugar ao canto individual. É assim que o blues iria surgir, como expressão de um indivíduo cantando e frequentemente acompanhando a si próprio ao violão (RIBEIRO, 2005, pág. 23).

Aos poucos, cantores como W.C. Handy (considerado o “pai do blues”), Charley Patton e seu aluno Robert Johnson (ambos ex-trabalhadores em lavouras do Mississipi ) passam a moldar esta nova música que representava a sofrida vida dos ex-escravos. O Delta Blues, ou blues rural, foi a forma mais primitiva de se cantar: uma voz rouca e potente e um violão acústico, tocado com força e recheado de
blue notes, que davam a tonalidade de tristeza. 

Assim, canções como “Hard Times Killing Floor” (“Tempos Difíceis que Destróem o Solo”), de Skip James, representavam as reivindicações e indignações do povo negro: “Tempos difíceis aqui e em todo lugar que você vai / Os tempos estão mais difíceis do que já foram antes / E as pessoas vão correndo de porta em porta / Não conseguem encontrar o paraíso, não importa onde elas vão”

Outras composições, como “Hard Times Blues” (“Blues de Tempos Difíceis”) de Josh White, falam do cruel mundo que lhes cerca: “Eu fui até o dono, no mercado / Todos estão com fome, por favor não feche a porta / Queremos mais comida, um pouco mais de tempo para pagar / O dono riu e foi embora”.

Com a incrementação do blues, criou-se o rhythm blues (R&B), a música própria dos negros. Em pouco tempo, em Nova Orleans, o R&B evoluíra ao jazz, que desde o final do século XIX levara prazer às vidas miseráveis daquela parte da sociedade. Porém, pelo caráter racista da classe média branca, apenas na década de 1920 o jazz ganharia status de música “apropriada”, devido a formação da Original Dixieland Jazz Band (ODJB), onde todos os músicos eram brancos. Paulatinamente, músicos brancos roubavam canções de artistas negros e levavam todo o crédito, fazendo com que muitos desistissem da música. Na tentativa de executar um som não-branco (pela falta de técnica), o be-bop e o free jazz passam a ser o estilo de jazz mais popular e de forma que conservasse as tradições das raízes negras.

O negro, que sempre estivera nas periferias, passava a ter novas formas de contestar a injusta sociedade. Bom exemplo era a inscrição na guitarra do bluesman Leadbelly The Borgeois (um dos primeiros a fazer excursão pela Europa, nos anos trinta): “
Esta máquina mata fascistas”.

Entre as décadas 1920 e 1930, o jazz e o blues já estavam consolidados como dois estilos de sucesso, mesmo que ainda dividindo espaço nas rádios com a música gospel. Aos poucos a indústria fonográfica passa a atender à demanda dos amantes dessas músicas, com a criação dos race records (discos raciais) ou gravadoras independentes (indies). Desta forma, com uma aparelhagem inferior quando comparada com as grandes marcas, produtores negros podiam divulgar os trabalhos de músicos que não estavam inseridos no mainstream da época, ainda que apenas nos bairros mais pobres começava-se a criar um fiel público.

As contribuições dos primeiros bluesmans e seus “primitivos” compactos, acima citados, foram de suma importância, pois levaram o estilo a lugares novos, como o Texas, Los Angeles e Chicago. Se na Califórnia o blues sofreu influência direta do jazz e formou o West Coast Blues, e no Texas ganha mais força, proveniente da música latina, em Chicago ganha um novo rumo. Entre os anos vinte e cinquenta há um intenso fluxo migratório rumo ao norte: as condições de vida eram melhores, menos racismo e havia condições decentes para os músicos trabalharem, já que o destino no sul era tocar em cabarés.

O norte, por ter uma tradição industrial, dá à música novos incrementos tecnológicos, como a eletrificação do violão. Pioneiros da guitarra elétrica, T-Bone Walker e Big Bill Broonzy puderam desenvolver a forma de cantar o blues, pois o vocalista poderia ser mais suave e concentrar-se nas letras. Com composições cada vez mais engajadas, os recém-chegados na cidade grande começavam a fazer sucesso mas, é claro, ainda nos bairros pobres. A partir da eletrificação do blues, o Chicago Blues, representado por músicos como Muddy Waters, Howlin’ Wolf e Little Walter, passou a ser o principal som nas comunidades periféricas dos Estados Unidos durante a primeira metade dos anos cinquenta.
 
Assim, o blues e o jazz estavam criados e relativamente difundidos pelo país, ao menos em comunidades pobres. Porém, o rock ainda não estava com todas as suas influências. Ao contrário do que muitos pensam, ele também sofreu influência direta do country & western.

Por volta de 1950 as indies exploram dois importantes mercados específicos: o R&B negro e as músicas dos brancos rurais, o country & western. É a conjunção explosiva destas duas correntes, formando o estilo chamado rock’n’roll, que irá subverter a partir de 1950 todos os esquemas das gravadoras, os hábitos de consumo musical e, num sentido mais profundo, a própria cultura norte-americana. O R&B traz aquela dimensão existencial que está faltando à canção comercial do branco (MUGGIATI, 1973, pág. 35).

Enquanto a música negra traz um sentimento moderno e de críticas sociais, a música do branco rural (pobre) dá um teor de simplicidade. A partir do crescimento da televisão na rotina das famílias americanas, a vida dos cowboys passa a ser dividida através dos clássicos filmes de
bang-bang. A música sincera e melancólica era justamente o último ingrediente que faltava adicionar para a criação do explosivo rock’n’roll.


Behemoth - The Apostasy (2007)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: *****

The Apostasy
, último álbum do Behemoth, veio ao mundo cercado de expectativa, afinal o grupo polonês vem apresentando um crescimento constante nos seus últimos trabalhos. Seus quatro últimos discos (Satanica de 1999, Thelema.6 de 2000, Zos Kia Cultus (Here and Beyond) de 2002, e, principalmente, Demigod de 2004) consolidaram a banda liderada por Nergal como um dos maiores representantes do black metal atual (apesar de parte da mídia e dos fãs os classificarem como death metal).

Mais uma vez apostanto em uma temática que não se prende apenas ao satanismo, o Behemoth investe novamente em tópicos históricos. Se em
Demigod o assunto era o Egito, em The Apostasy o tema principal é o antigo Império Romano.

Uma introdução instrumental, marcada por um vocal feminino atmosférico, inicia o álbum, e é seguida por uma de suas melhores faixas, “Slaying the Prophets ov Isa”. O que se percebe de cara é que a produção seguiu o mesmo caminho do último disco, mantenho os mesmos timbres dos instrumentos. “Slaying the Prophets ov Isa” aposta em mudanças de andamento e linhas instrumentais complexas, bem construídas, tudo isso selado pelo potente vocal de Nergal. Chama a atenção também a presença de coros em algumas passagens da música, enriquecendo ainda mais o resultado final.

Como já havia demonstrado em seus últimos trabalhos, o grupo não se prende apenas à formação vocal-guitarra-baixo-bateria, investindo na inserção de diversos outros instrumentos na construção da sua música. Essa característica ajuda, e muito, na contextualização proposta pelo trio, além de diferenciar enormemente o som do Behemoth na cena.

Chama a atenção também o excelente trabalho de guitarra feito por Nergal, que investe em solos repletos de melodia. O baterista Inferno é outro que faz um trabalho desumano em
The Apostasy, com batidas muito técnicas e que não se limitam a nenhum estilo específico. O baixista Orion completa a banda, e suas linhas complementam e convivem em harmonia com a guitarra de Nergal, acrescentando ainda mais peso às músicas.

The Apostasy é um disco muito, muito rico, tanto lírica quanto musicalmente. Proliferam detalhes em suas composições, nuances que enriquecem e mostram o talento destes três poloneses. Há uma grande quantidade de coros épicos, passagens acústicas, piano e vários outros instrumentos, e o resultado final é um álbum que coloca uma farta dose de ambição na música extrema, levando-a para territórios em que ela nunca pisou antes.

Warrel Dane, vocalista do Nevermore, participa de “Inner Sanctum” ao lado do pianista Leszek Mozder, muito famoso na terra natal do grupo, a Polônia. Outros destaques são a já citada “Slaying the Prophets ov Isa”, “At the Left Hand ov God”, “Be Without Fear” (com um riff que é puro thrash metal), “Libertherme”, “Pazuzu” (sobre o lendário demônio, citado no clássico filme
O Exorcista) e o fechamento, com a impressionante “Christgrinding Avenue”. Uma característica que chama a atenção é a ausência de canções mais longas, já que todas as faixas do disco giram em torno dos quatro minutos.

O Behemoth conseguiu mais uma vez.
The Apostasy está, no mínimo, no mesmo nível do excepcional Demigod, e não deve nada a clássicos mais antigos como Satanica, por exemplo. Um álbum espetacular, com uma riqueza sonora impressionante.


Faixas:
1. Rome 64 C.E. - 1:25
2. Slaying the Prophets ov Isa - 3:23
3. Prometherion - 3:03
4. At the Left Hand ov God - 4:58
5. Kriegsphilosophie - 4:23
6. Be Without Fear - 3:17
7. Arcana Hereticae - 2:58
8. Libertheme - 4:53
9. Inner Sanctum - 5:01
10. Pazuzu - 2:36
11. Christgrinding Avenue - 3:40

Rolling Stones - The Biggest Bang (2007)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ****1/2

Os Stones ainda são relevantes? Essa é uma questão bastante complexa. Se levarmos em conta apenas o aspecto musical, a resposta é não. Há tempos a gangue de Jagger e Richards não lança um álbum de cair o queixo, que possa figurar com destaque em sua discografia. O último trabalho a alcançar esse status foi
Tattoo You, lançado há mais de vinte e cinco anos.

Então eles não passam de uns velhinhos teimosos que não querem se aposentar? Também não. Se no aspecto artístico a banda não é mais imprescindível, isso é preenchido pelo gigantismo que envolve tudo o que o grupo faz. A turnê de A Bigger Bang, que contou com poucos shows, mas todos em lugares gigantescos, foi a mais lucrativa da história do rock. A língua característica do grupo é uma das marcas mais conhecidas do planeta. Seus integrantes ostentam o status de lendas vivas. Não há, em termos mercadológicos, nada que se compare ao lançamento de qualquer novo produto dos Rolling Stones, seja um álbum inédito ou um documentário dirigido por um cineasta famoso.

E tudo fica melhor ainda quando o lançamento em questão é algo na linha do box
The Biggest Bang. Com quatro DVDs e um acabamento gráfico excelente, é o documento oficial e definitivo sobre a última tour do grupo. 

O primeiro disco traz um show espetacular realizado em Austin, no Texas, para uma platéia gigantesca. Essa apresentação em especial serve para calar a boca de quem pensa que os Stones não sentem mais prazer em tocar juntos. Inspirada, a banda esbanja energia, e, na medida em que as músicas vão se sucedendo, os integrantes percebem que estão em um noite especial, onde nada poderá dar errado. As câmeras flagram olhares cúmplices entre Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts, surpreendendo-se uns com os outros em vários momentos do show. O palco, enorme e com um design belíssimo, faz o show tomar proporções ainda maiores. Neste primeiro disco, os melhores momentos são o resgate de “She´s So Cold”, a execução da até então inédita ao vivo “Swan” (do clássico Sticky Fingers, de 1971), a homenagem ao público texano com uma ótima releitura de “Learning the Game” e Richards transformando os Stones em uma banda de boteco em “Little T&A”. Além disso, os extras trazem uma verdadeira jóia, como o grupo ensaiando “I Can´t Be Satisfied”, onde Jagger e Watts começam a tocar e Richards e Wood, empolgados com o que ouvem, juntam-se rapidamente à dupla, em um registro que emociona até o mais rodado dos rockers.

Já o segundo DVD traz o famoso show do grupo em Copacabana em 2006. Talvez esse seja o principal motivo para os brasileiros se interessarem por este box inicialmente, mas, assistindo tudo o que The Biggest Bang traz, esta apresentação acaba sendo o momento mais baixo entre todos. Visivelmente nervosos, os Stones executam uma performance apenas mediana, cometendo erros em diversas passagens, tudo isso aos olhos de um público que, em sua grande maioria, nem sabia o que estava fazendo ali. Aliás, fossem os Stones ou fosse uma escola de samba, grande parte do público não veria a diferença, já que estava em Copacabana apenas porque se tratava de um evento gratuito. Como bônus, um ótimo documentário com tudo o que envolveu a produção da apresentação. Apesar de tudo, trata-se de um registro histórico, sem dúvida, e esse fator justifica a sua inclusão.

No terceiro disco temos trechos de shows realizados no Japão, na China e na Argentina, sendo que a apresentação em Buenos Aires, no estádio do River Plate, é disparada a melhor de todas. Completam o disco vídeos com participações especiais de nomes como Eddie Vedder, Bonnie Raitt e Dave Matthews, além de uma dispensável intervenção de Cui Jian, astro chinês que aparece todo perdido ao lado dos Stones.

Fechando o pacote, o quarto disco traz um extenso e completíssimo documentário sobre a tour de
A Bigger Bang, repleto de curiosidades e histórias, mostrando tudo o que envolve uma turnê da maior banda de rock do mundo.

Apesar de um ou outro deslize,
The Biggest Bang é um lançamento excepcional, obrigatório, principalmente para aqueles que pensam que os Stones já deram o que tinha que dar. 

Se depender do que assistimos neste box, muita pedra ainda vai rolar nesta história …


Discos Fundamentais: Robert Plant & Alison Krauss - Raising Sand (2007)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Raising Sand vem carregado de vários méritos. Um deles é ser o melhor trabalho de Robert Plant desde Physical Graffiti, clássico do Led Zeppelin lançado em 1975. Outro é revelar o talento de Alison Krauss, diva do bluegrass norte-americano, para um público muito maior que o seu habitual. Mas o principal é fazer com que essa união improvável resulte em um dos mais belos trabalhos dos últimos dez, quinze anos.

A química entre Plant e Krauss beira o sobrenatural. A voz do Led Zeppelin encontrou em Alison sua afinidade musical mais intensa desde a parceria com Jimmy Page, que gerou somente uma das maiores bandas de todos os tempos. Os dois se completam, com Plant mostrando os caminhos para Krauss, enquanto Alison torna doces e ainda mais belas as intervenções de Robert.

Produzido pelo lendário T. Bone Burnett,
Raising Sand apresenta uma sonoridade suja, áspera, ardida, com timbres cheios e graves, nos levando de volta aos melhores momentos do country rock do final dos anos sessenta e começo da década de setenta. É como se, ao colocar o disco para tocar, você se sentisse sentado ao lado de um celeiro do Alabama ou do Mississipi, escorado em um monte de feno, pensando na vida enquanto o sol se põe.

Um aviso aos fãs do Led Zeppelin: não espere encontrar em
Raising Sand os típicos vôos vocais de Plant. Aqui a história é outra. Mais contido e focado nos detalhes das canções, Plant canta com a serenidade que só alguém que já esteve no topo do mundo e viveu tudo o que ele viveu pode cantar. Sua voz está mais crua, mais profunda, revelando as experiências acumuladas ao longo dos anos.

Já Alison Krauss é o seu contraponto perfeito. Bela e doce, ela não compete com Plant em nenhum momento. Sabe que o seu nome é secundário para a maioria, menos para a voz do Zeppelin. Seu timbre delicado, afinadíssimo e transporta o ouvinte através das canções, revelando uma artista dona de um talento estupendo.

A parte instrumental de
Raising Sand brilha tão intensamente quanto os arranjos vocais. As guitarras, a cargo de T. Bone Burnett e Marc Ribot, revelam novas dimensões ao instrumento. A sutileza marca o trabalho das seis cordas, onde Burnett e Ribot passeiam com talento ímpar por caracteríscas que vão do country ao bluegrass, passando pelo blues e até mesmo pelo jazz dos anos vinte.

As treze canções de
Raising Sand formam um track list minucioso. Há versões para músicas de Gene Clark, Sam Phillips, Everly Brothers, Townes Van Zandt, Tom Waits, entre outros, em uma espécie de tratado do cancioneiro popular ianque. Faixas como "Killing the Blues", "Polly Come Home", "Gone Gone Gone (Done Moved On)", "Please Read the Letter", "Trampled Rose", "Fortute Teller" e "Stick With Me Baby" estão entre as minhas favoritas.

Raising Sand é um álbum único. Um disco que eleva a alma do ouvinte a um nível inédito, de onde a gente não quer mais sair. Um trabalho maravilhoso de Robert Plant e Alison Krauss, e que figura desde já como um dos registros fundamentais dos últimos tempos.


Faixas:
1. Rich Woman - 4:04
2. Killing the Blues - 4:16
3. Sister Rosetta Goes Before Us - 3:26
4. Polly Come Home - 5:36
5. Gone Gone Gone (Done Moved On) - 3:33
6. Through the Morning, Through the Night - 4:01
7. Please Read the Letter - 5:53
8. Trampled Rose - 5:34
9. Fortune Teller - 4:30
10. Stick With Me Baby - 2:50
11. Nothin' - 5:33
12. Let Your Loss Be Your Lesson - 4:02
13. Your Long Journey - 3:55

Discoteca Básica Bizz#095: The Coasters - 50 Coastin' Classics (1992)


(Rogério de Campos, Bizz#095, junho de 1993)

Se o humor é mesmo a prova dos nove, então The Coasters foram a melhor banda da história do rock. Mas ainda que o humor possa não ser tão importante, é difícil tirar o grupo da lista dos cinco melhores de todos os tempos.

Em 1953, rock'n'roll não existia. A banda de country Saddlemen ainda estava pensando em mudar seu nome para Bill Haley and His Comets. E o grupo vocal The Robins, formado por Ty Terrell, os irmãos Billy e Roy Richards, Bobby Nunn, Grady Chapman e Carl Gardner (todos negros do sul dos EUA que foram para Los Angeles à procura de melhores oportunidades de vida) parecia não ter muito futuro. Foi quando os Robins encontraram Jerry Leiber e Mike Stoler. Eram dois jovens de 20 anos, judeus da costa leste que se achavam chicanos e eram apaixonados pelo blues. Leiber e Stoler se transformaram em compositores/produtores dos Robins. Estes acabaram virando The Coasters e a água virou vinho.

Leiber e Stoler foram os primeiros produtores de rhythm'n'blues, e também os primeiros produtores independentes. Pioneiros em técnicas de estúdio, foram, por exemplo, os primeiros na música pop a gravarem em oito canais. Os primeiros soulmen brancos e autores de "Jailhouse Rock", "Hound Dog", "Stand By Me" e dezenas de clássicos. As canções de Lieber e Stoler foram gravadas por quase todo mundo que conta no rock, de Ray Charles, Beatles e Stones a Roberto Carlos. Só Elvis Presley gravou vinte de suas canções (três se tornaram número um na parada americana). Mas o veículo perfeito para a dupla foram os Coasters.

Ao contrário de outros grupos vocais negros, preocupados em fazer vozes angelicais que não ferissem a sensibilidade branca, os Coasters de Leiber e Stoler preservaram a sujeira e o humor natural do blues. Criaram sátiras violentas contra, por exemplo, o sistema judiciário. Contavam casos em que o marido chamava a polícia para defendê-lo da esposa. Isso numa época em que o pop só cantava o amor puro e belo. No lugar dos adocicados violinos incluíram tiros, beijos e ruídos para, de modo surpreendente, criar canções pop perfeitas.

A coletânea 50 Coastin' Classics, lançada no final de 1992, é o sonho de qualquer fã da banda. Já começa com uma rajada de metralhadoras. É o início de "Riot in Cell Block #9", a descrição de um motim em uma penitenciária. O vocalista é Richard Barry (o autor de "Louie Louie"), que canta-fala de maneira ameaçadoramente arrastada, como um personagem de Dashiel Hammett: "On July the second 1953 / I was servin'time for armed robbery / At 4 o'clock in the morning I was sleeping in my cell / I heard a whistle blow - then I heard somebody yell / There's a riot goin on". Isto em 1954!

"Framed" (incriminado injustamente) é uma espécie de versão humorística de O Processo, de Kafka. Outras letras falam de adolescentes atrapalhados ("Charlie Brown"), dançarinas de striptease ("Along Came Jones"), ciganas ("Poison Ivy", vertida para o português pelo Herva Doce como "Erva Venenosa"), Sam Spade e Charlie Chan ("Searchin"), o Sombra ("The Shadow Knows"), etc. Cada letra, uma maravilha de ritmo. No meio disso tudo, uma versão de "Aquarela do Brasil" (aquela mesma de Ari Barroso), tão cômica que dá até tristeza por eles não terem conhecido Lamartine Babo.

Depois dos Coasters o rock ficou mais artístico, visceral, dramático e um monte de outras baboseiras, mas perdeu muito de seu humor.


04/06/2009

Começando a coleção: Slayer


Por Alessandro Cubas
Colecionador

Nuclear Assault, Anthrax, Metallica, Whiplash, Megadeth, Death Angel, Testament, Exodus, Forbidden. Podemos citar inúmeros nomes na cena thrash metal americana, porém poucos, ou talvez nenhum, tenha a credibilidade do Slayer.

Fundada em 1982 na Califórnia por Tom Araya (V/B), Kerry King (G), Jeff Hanneman (G) e Dave Lombardo (D), a banda foi uma das pioneiras dentro do estilo, e desde então nunca esteve inativa, continuando sempre fiel às suas raízes, não mudando muito seu estilo, lançando grandes álbuns e sempre promovendo muita, muita polêmica.

Assim o Slayer cravou seu nome na história do thrash metal, estilo que sem eles não teria a mesma força.

Show No Mercy (1983) ****

Produzido pela própria banda, Show No Mercy, juntamente com o Kill ‘Em All do Metallica, pode ser considerado um dos precursores do thrash da Bay Area, cena esta que se tornou uma das mais importantes em do estilo em todo o mundo.

O track list é uma paulada atrás da outra, começando por “Evil Has No Bopundaries”, que apresenta uma banda pesada e com músicas bem trabalhadas, com muitos riffs e solos avassaladores, o vocal rasgado de Tom Araya, e, é claro, Dave Lombardo destruindo em seu kit de bateria; ou seja, uma verdadeira avalanche era anunciada, e tinha continuidade com “The Antichrist”, novamente com excelentes riffs.

 O trabalho segue com “Die by the Sword”, “Fight Till Death” e “Metal Storm/Face the Slayer” todas com ótimos riffs, nos mostrando o belo conjunto formado pelos guitarristas Kerry King e Jeff Hanneman, dupla que inclusive compôs um dos melhores riffs da banda na próxima faixa, batizada de “Black Magic”, uma das obras-primas do álbum. Ainda temos mais algumas porradas, como “Tormentor”, “The Final Command”, “Crionics” e a faixa-título, “Show No Mercy”.

Tanto liricamente como musicalmente esta fase do Slayer foi muito importante, influenciando futuramente bandas mais extremas, como as de death e black metal.

Reign in Blood (1986) *****

O que falar de um dos maiores, se não o maior, disco de metal de todos os tempos?  Literalmente uma obra-prima do estilo! Lançado originalmente em 1986, um ano após o lançamento do também essencial
Hell Awaits, este foi o principal trabalho já gravado pelo Slayer.

As músicas são curtas, tocadas de forma super rápida e precisa, não dando tempo de o ouvinte descansar seu pescoço. Não sei da onde a banda conseguiu expressar tanta raiva em pouco mais de quarenta minutos. Composto por Kerry King e Jeff Hanneman,
Reign in Blood também marcou a estreia de Rick Rubin (Red Hot Chili Peppers, The Cult, Metallica) como produtor do quarteto, mostrando já de cara um excelente trabalho.

Desde os primeiros riffs da furiosa “Angel of Death” o álbum causa arrepios. O padrão de qualidade ainda segue nos clássicos “Piece by Piece”, “Necrophobic”, “Altar of Sacrifice”, “Jesus Saves”, “Criminally Insane”, “Reborn”, “Epidemic” e “Postmortem”, que possui grandes riffs e antecede o grand finale com o hino “Raining Blood”.

Em uma só palavra: destruidor!!!

Seasons in the Abyss (1990) ****1/2

Fiquei em um beco sem saída para escolher o terceiro disco para integrar esta sessão, pois além de
Seasons in the Abyss ainda haviam os excelentes Hell Awaits de 1985 e o South of Heaven de 1988, que também merecem total destaque na discografia do Slayer.

Seguindo a linha de seu antecessor,
Seasons in the Abyss nos traz músicas um pouco menos aceleradas, o que não quer dizer menos peso. O trabalho da banda continua soando como um vulcão em erupção, mostrando que o tempo e a experiência estavam fazendo muito bem ao grupo.

O play tem início com “War Ensemble” e segue com “Blood Red”, “Spirit in Black”, “Expendable Youth”, “Dead Skin Mask”, “Hallowed Point”, “Skeletons of Society”, “Temptation”, “Born of Fire” e fecha com a excelente faixa-título “Seasons in the Abyss”, que eu considero a melhor do disco.

Este foi o último álbum de estúdio antes da separação da formação original, quando o baterista Dave Lombardo deixou a banda para fundar o Grip Inc., sendo substituído pelo não menos talentoso Paul Bostaph, vindo do Forbidden, e que registrou sua estreia no excelente
Divine Intervention (1994), que apesar de contar com algumas faixas mais diretas é outro trabalho bem pesado e item obrigatório da discografia dos carrascos.

Após os álbuns já citados ainda completam a discografia o polêmico disco com covers de bandas punks,
Undisputed Attitude (1996), que é sim muito bom; o mediano Diabolus in Musica de 1998; God Hates Us All de 2001; e finalmente Christ Illusion de 2006, que marcou o retorno de Dave Lombardo à bateria do conjunto.

Um novo petardo já está preparado para ser lançado ainda este ano, com o sugestivo título de
World Painted Blood. Vamos aguardar e conferir o que o quarteto nos reservou desta vez.

Castiga!: Na frequência do Som Imaginário


Por Marco Antonio Gonçalves
Colecionador

O Som Imaginário foi uma das mais importantes bandas do cenário musical brasileiro da década de setenta e ficou conhecida não só por ser o núcleo que acompanhava Milton Nascimento em seus shows e travessias pelo Brasil, como também por abrigar o músico Wagner Tiso antes de sua bem sucedida carreira solo. 

Dominado por músicos mineiros e cariocas, o grupo foi formado no Rio de Janeiro em 1970 e teve curta duração, gravando apenas três discos: Som Imaginário (1970), Som Imaginário ou A Nova Estrela (1971) e Matança do Porco (1973), todos lançados pela gravadora Odeon.

Enquanto permaneceu na ativa, a trupe esteve ao lado não só de Milton – estreando o show Milton Nascimento… Ah! E o Som Imaginário em 1970 e participando de discos importantes como Milton (1970), Milagre dos Peixes (1973), Milagre dos Peixes Ao Vivo (1974) e o histórico Clube da Esquina (1972) – mas também como banda de apoio em álbuns e shows de Gal Costa, Taiguara, Sueli Costa e Carlinhos Vergueiro, entre outros.

Em sua rápida trajetória, a banda alterou continuadamente seu line-up, mas sempre contou com grandes instrumentistas. Além de Wagner Tiso, passaram pelas fileiras do Som Imaginário nomes como Zé Rodrix, Tavito, Laudir de Oliveira, Toninho Horta, Nivaldo Ornelas, Naná Vasconcelos e Marco Antônio Araújo. Alguns dos seus integrantes, como o baixista Luiz Alves, já tocavam com Tiso na noite carioca. Outros membros essenciais como o batera Robertinho Silva e o guitarrista Frederyko, o Fredera, vieram do combo Impacto 8 do trombonista Raul de Souza, que fazia uma mescla de jazz, soul, funk e samba.

Os dois primeiros álbuns do Som Imaginário seguem uma linha mais próxima do rock psicodélico, mostrando uma estética sonora pra lá de libertária. Nota-se também influências de música pop e Beatles, naturalmente. O Matança do Porco já é mais direcionado ao rock progressivo, ao erudito e ao jazz. Simplesmente um marco da música instrumental brasileira. Sintonize a frequência desta turma anárquica e faça boa viagem.


O homônimo disco de estréia do Som Imaginário bebia da fonte do rock psicodélico, mas pinçava elementos do rock progressivo, folk e MPB, mostrando um bom-humor nas letras e total criatividade nos arranjos. Uma estrutura sonora incrementada com guitarras wah-wah, órgão sessentista, percussão matadora e o vocal de Zé Rodrix aparecendo na maior parte das músicas. O poderoso agrupamento era uma verdadeira academia da imaginação sonora: Wagner Tiso (piano e órgão), Tavito (violão), Luiz Alves (baixo), Robertinho Silva (bateria), Frederyko (guitarra), Naná Vasconcelos (percussão) e Zé Rodrix (órgão, percussão, voz e flautas).

O elepê abre com a faixa “Morse”, um tema com riffs marcantes e a latinidade característica de Rodrix em ação. “Super God” sugere um ritmo flamenco, mas descamba mesmo pra lisergia pura, com vocal distorcido, guitarras ácidas e experimentos sonoros. “Tema dos Deuses”, de Milton Nascimento, tem participação do próprio nos vocais, num vôo mais progressivo, com breve escala no Clube da Esquina. Altas doses psicodélicas e climão paz e amor nas faixas “Make Believe Waltz”, “Sábado” e na anárquica “Nepal", hipongas pacas.


A primeira versão de “Feira Moderna” (de Fernando Brant, Beto Guedes e Lô Borges) aparece aqui, com letra original e que depois seria modificada na versão de Beto Guedes, contida no disco Amor de Índio, de 1978. “Hey Man” é outro ponto alto do disco, com uma levada contagiante e letra alfinetando o regime militar, no embalo da Copa de 70. O disco fecha com a bela “Poison”, composição de Rodrix em parceria com o cultuado músico Marco Antônio Araújo (que só lançaria seu primeiro álbum, Influências, dez anos mais tarde e que morreria em 1986, em decorrência de um aneurisma cerebral).

Um disco obscuro que já mostrava a competência desta turma de cabeludos, que pregava a paz e o amor livre e acreditava em um mundo melhor. A melhor definição do ideal do Som Imaginário está nas palavras de Milton Nascimento: “Um grupo com liberdade de pensamento político, e também sob o efeito de alguma magia, com tendência a rebeldia”. Obra fundamental da discografia nacional e que foi impressa com três capas diferentes. Bolhas de carteirinha possuem as três edições na maior felicidade!


O segundo e auto-intitulado trabalho do grupo foi lançado em 1971 e também é conhecido pelo título A Nova Estrela. Aqui a trupe já não contava com a participação do irreverente Zé Rodrix, que saiu para formar o trio Sá, Rodrix & Guarabyra, definindo aquilo que viria a ser chamado de rock rural.

Ainda sob a discreta liderança de Wagner Tiso, quem ganha espaço para desenvolver suas idéias anárquicas é Frederyko, que compõe vários temas, canta na maioria das músicas e faz, mais uma vez, um ótimo trabalho nos solos de guitarra. Além de Fredera e Wagner Tiso, completavam a formação os músicos Tavito (violão e guitarra), Luiz Alves (baixo) e Robertinho Silva (bateria).

Mantendo as diretrizes sonoras do álbum anterior, o grupo passeia por estilos que vão do rock psicodélico ao progressivo, flertando com a MPB, o folk e a música latina. O resultado é uma nova leva de belas vocalizações e melodias bem agradáveis, com destaque para as bem-humoradas “Cenouras”, “Gogó” e “Salvação pela Macrobiótica”.

A canção “Ascenso” é outra jóia rara, com letra e arranjos brilhantes, cantada com muito sentimento por Frederyko. “Uê” também manda muito bem: “Dê meu anel, meu colar / Meus parentes vão chegar / Amanhã de manhã / Vão saber que as flores são de papel / Que o dia é de papel / E nada”. Uma levada contagiante absorvida pela atmosfera flower power. Só escutando para entender.

Dos três discos este é o que menos me agrada no conjunto da obra, mas é também o que tem uma das minhas músicas preferidas do grupo, a subversiva “A Nova Estrela”. Composta por Wagner Tiso e Fredera, dava uma pista do som que seria desenvolvido no terceiro e último trabalho da banda, o progressivo Matança do Porco. A música rendeu um curta dirigido por André José Adler, que acabou representando o Brasil no Festival de Cinema de Berlim. Neste mesmo ano, o Som Imaginário acompanhou Gal Costa em seus shows pelo Brasil, tendo novamente a presença do percussionista Naná Vasconcelos em algumas das apresentações.

A trupe também participou de vários shows alternativos, como o Festival de Verão de Guarapari, realizado em fevereiro de 1971, no Espírito Santo, e anunciado como a versão brasileira do lendário Woodstock. Apesar das participações do Som Imaginário, Milton Nascimento e Novos Baianos, entre outros, o evento foi um estrondoso fracasso, prejudicado por uma série de fatores como a falta de planejamento dos organizadores e a infra-estrutura precária do local. 

Para piorar, a Polícia Militar vetou a presença dos hippies no festival. Resultado: ao invés das 40 mil pessoas esperadas, o “espetáculo” atraiu apenas 4 mil espectadores. Foi este também o festival em que Tony Tornado deu o famoso mosh sobre a platéia, caindo em cima de uma espectadora e quase a deixando paraplégica. Mas vamos tratar de amenidades ... Paz e amor, bicho!


Mas a obra-prima do Som Imaginário é mesmo este terceiro e último trabalho, o fantástico Matança do Porco, lançado em 1973. Mais líder do que nunca, o tecladista, arranjador e maestro Wagner Tiso assina a maioria dos temas e desenvolve uma sonoridade que marcaria também o seu trabalho solo. Um disco conceitual que apresenta um instrumental fascinante, fundindo jazz, rock progressivo, música erudita e MPB.

O line-up era composto pelos seguintes músicos: Wagner Tiso (Hammond, piano acústico e elétrico), Tavito (violão), Luiz Alves (baixo) e Robertinho Silva (bateria). O álbum conta ainda com as participações especiais de Milton Nascimento, Danilo Caymmi e dos Golden Boys. Frederyko, o grande Fredera, já havia saído da banda quando o LP foi lançado, mas os vestígios de que participou das gravações do “abate suíno” são evidentes ao se escutar os brilhantes solos de guitarra desenvolvidos no álbum. Arranjos sinfônicos muito bem elaborados, abrindo terreno para a banda fazer misérias.

Faixas como “Armina” (que combina guitarra fuzz e piano clássico de forma esplêndida), “A 3” (com Tiso criando frases no melhor estilo Kerry Minnear, do Gentle Giant), “A N° 2” (progressiva ao extremo, com um timbre de órgão sensacional e uma construção harmônica de arrepiar) ou “Mar Azul” (que agrega elementos do samba jazz e traz Danilo Caymmi nos arpejos de flauta) mostram uma banda bem entrosada e com músicos no auge de suas habilidades.

O maior destaque do disco está na faixa-título: um tema de onze minutos que divide-se em três movimentos, onde se sobressaem as vocalizações deslumbrantes de Milton Nascimento, os agudos da guitarra de Fredera e os fraseados bem bolados de Tiso. Divinamente sublime, “A Matança do Porco” foi composta por Wagner Tiso para o filme
Os Deuses e Os Mortos, de Ruy Guerra, que concorreu às premiações do Festival de Berlim, em 1971.

Depois deste disco, o grupo prosseguiu sua jornada por pouco tempo, promovendo novas alterações em sua formação. Robertinho Silva saiu para a entrada do baterista Paulinho Braga. Luiz Alves foi substituído pelo baixista Noveli. Tavito preferiu trabalhar sua carreira solo e cedeu lugar ao grande Toninho Horta. O saxofonista Nivaldo Ornelas, que já havia participado da banda em 1970, também foi reagrupado.

Com esse conjunto, gravaram o álbum
Milagre dos Peixes – Ao Vivo, creditado a Milton Nascimento e ao Som Imaginário, em 1974. Frederyko ainda retornaria à banda, antes do seu fim precoce, em meados de 1976. Menos mal que o intercâmbio entre os músicos continuou nos anos seguintes. Não é difícil encontrar alguns deles participando de discos de Wagner Tiso ou Milton Nascimento, por exemplo. Fredera, Tavito, Toninho Horta, Nivaldo Ornelas e a maioria de seus integrantes também gravaram seus registros individuais. Mas o certo é que O Som Imaginário, como banda, nunca mais gravou qualquer outro material, infelizmente!


Para quem se interessou em adquirir esses discos, a EMI lançou em 1997 uma caixa luxuosa contendo os três CDs da banda. Como não foram produzidas muitas cópias, o box simplesmente desapareceu das lojas rapidamente e hoje é um produto difícil de ser encontrado. Em 2003 a EMI soltou no mercado vários títulos remasterizados, no rastro das comemorações de 100 anos de Odeon no Brasil. Um dos relançamentos foi justamente o
Matança do Porco que, provavelmente, ainda deve estar em catálogo. Básico!

Tracklists Podcasts Collector´s Room #001 a #004


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Atendendo aos pedidos de vários amigos e ouvintes, seguem abaixo os tracklists das quatro edições que já rolaram do podcast da Collector´s Room.

A lista está dividida em blocos, sempre com o nome da banda,, da faixa e do álbum em que ela se encontra. Qualquer dúvida entrem em contato comigo que eu repasso mais informações:

Podcast Collector´s Room #001

Produção e Apresentação: Ricardo Seelig

Bloco 1
J.J. Cale - I'll Make Love to You Anytime - 5 (1979)
Eric Clapton - Bottle of Red Wine - Eric Clapton (1970)
George Harrison - Dark Horse - Dark Horse (1974)

Bloco 2
Black Sabbath - Air Dance - Never Say Die! (1978)
Black Sabbath - It´s Allright - Technical Ecstasy (1976)

Bloco 3
Ram Jam - Black Betty - Ram Jam (1977)
Lynyrd Skynyrd - Saturday Night Special - Nuthin' Fancy (1975)
Montrose - Rock Candy (1973)

Bloco 4
White Stripes - 300 M.P.H. Torrential Outpour Blues - Icky Thump (2007)
Stevie Ray Vaughan - Pride and Joy - Texas Flood (1983)

Bloco 5 - Disco da Edição
Wilco - Impossible Germany - Sky Blue Sky (2007)
Wilco - You Are My Face - Sky Blue Sky (2007)

Bloco 6
Jorn - Promise - Lonely Are the Brave (2008)
Das Reich - Orpheu´s Dream - Sounds From the End of the World (2008)

Bloco 7
Dom Salvador e Abolição - Hei! Você - Som, Sangue e Raça (1971)
Dom Salvador e Abolição - Uma Vida - Som, Sangue e Raça (1971)

Podcast Collector´s Room #002

Produção e Apresentação: Ricardo Seelig

Bloco 1
Muddy Waters - I´m Ready - The London Muddy Waters Sessions (1971)
Ben Harper - Black Rain - Both Sides of the Gun (2006)

Bloco 2
David Bowie - Ziggy Stardust - The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars (1972)
David Bowie - Song for Bob Dylan - Hunky Dory (1971)

Bloco 3
Ocean Colour Scene - Better Day - Marchin´ Already (19XX)
Flaming Lips - Yoshimi Battles the Pink Robots Part I - Yoshimi Battles the Pink Robots (2002)

Bloco 4
Thin Lizzy - Vagabonds of the Western World - The Peel Sessions (1995)
Wishbone Ash - Blowin´ Free - Argus (1972)

Bloco 5 - Disco da Edição
Crosby Stills Nash & Young - Woodstock - Deja Vu (1970)
Crosby Stills Nash & Young - Almost Cut My Hair (1970)

Bloco 6
Gil Evans - Crosstown Traffic - The Gil Evans Orchestra Plays the Music of Jimi Hendrix (1974)

Bloco 7
Wilco - You Never Know - Wilco (The Album) (2009)
Wilco - I´ll Fight - Wilco (The Album) (2009)

Podcast Collector´s Room #003

Produção e Apresentação: Ricardo Seelig
Participação especial: Ronaldo Rodrigues

Bloco 1
Gov´t Mule - Mule - Gov't Mule (1995)
Black Crowes - Twice as Hard - Shake Your Money Maker (1990)

Bloco 2
Chickenfoot - Oh Yeah - Chickenfoot (2009)
David Lee Roth - Goin´ Crazy - Eat ´Em and Smile (1986)

Bloco 3
Marcus - Black Magic - Marcus (1976)
Wild Turkey - Buttlerfly - Battle Hymn (1971)

Bloco 4
Bily Cobham - Stratus - Spectrum (1973)

Bloco 5 - Bloco do Colecionador: Ronaldo Rodrigues
Funk, Inc. - The Better Half - Chicken Lickin' (1972)
S.O.U.L. - Burning Spear - What Is It (1971)
Jasper - The Beard - Liberation (1969)

Bloco 6 - Disco da Edição
Quarteto Novo - O Ovo - Quarteto Novo (1967)
Quarteto Novo - Misturada - Quarteto Novo (1967)

Bloco 7
Som Nosso da Cada Dia - Pra Swingar - Som Nosso (1977)
Gerson King Combo - Mandamentos Black - Gerson King Combo, Volume 1 (1977)

Podcast Collector´s Room #004

Produção e Apresentação: Ricardo Seelig

Bloco 1
Dissection - Starless Aeon - Reinkaos (2006)
Girlschool - Other Side - Legacy (2008)
Fastway - Say What You Will - Fastway (1983)

Bloco 2
Ben Harper & Relentless7 - Shimmer & Shine - White Lies for Dark Times (2009)
Wolfmother - Joker & the Thief - Wolfmother (2005)

Bloco 3
James Gang - Funk#49 - Rides Again (1970)
Bull Angus - Pot of Gold - Bull Angus (1971)
Incredible Hog - Another Time - Volume 1 (1973)

Bloco 4
Rodrigo y Gabriela - Orion - Rodrigo y Gabriela (2006)

Bloco 5 - Bloco do Colecionador: Marcelo Peixoto
Jerry Lee Lewis - Rock and Roll - Last Man Standing (2006)
Jimmy McGriff - Spinning Wheel - Electric Funk (1970)
Bobby Hutcherson - Oye Como Va - Montara (1975)

Bloco 6 - Disco da Edição
Almendra - Muchacha (Ojos de Papel) - Almendra (1969)
Almendra - Fermín - Almendra (1969)

Bloco 7
Mutantes - O Contrário de Nada é Nada - Tudo Foi Feito pelo Sol (1974)
O Terço - Hey Amigo - Criaturas da Noite (1975)

Ouça também: Podcast Colletor´s Room#004

poeiraCast#010 no ar: as mortes mais bizarras do rock


Por Bento Araújo
Colecionador e Jornalista
Poeira Zine

O poeiraCast, o podcast da revista poeira Zine, abre uma discussão sobre as mortes mais bizarras da história do rock!

Detalhes sobre as mortes de Elvis Presley, Buddy Holly, John Bonham, Bon Scott, Steve Marriott, Nico, Duane Allman, Ronnie Van Zant, Mama Cass, Roy Buchanan, Graham Bond, Jaco Pastorius, Stevie Ray Vaughan, Marvin Gaye e muitos outros.

Clique aqui para baixar e ouvir!

O poeiraCast é um programa de bate papo, na verdade uma mesa redonda livre e direta sobre o assunto que a gente mais aprecia: música. Nele você encontra polêmicas, curiosidades, as famigeradas listas e bizarrices mil de seus grupos e artistas favoritos.

Ajeite-se na poltrona e boa curtição!

Direção: Bento Araújo
Locução: Ricardo Alpendre
Produção: Bento Araújo, Sérgio Alpendre, José Damiano e Ricardo Alpendre

Edição: Xando Zupo (Overdrive Estúdio – email: xandozupo@gmail.com)

Ouça também: poeiraCast#009: os 50 anos do selo Island

Discoteca Básica Bizz#094: Kiss - Destroyer (1976)


(André Barcinski, Bizz#094, maio de 1993)

Você já imaginou como seria o mundo sem o Kiss? Reflita durante um momento. Pense nos dinossauros progressivos dos anos setenta, tipo Emerson, Lake & Palmer e Yes, querendo destruir o bom humor da raça humana. Pense em quantos caras compraram uma guitarra depois de ver e ouvir Ace Frehley. Pense em quantas festanças já não foram embaladas por "Rock and Roll All Nite". A conclusão não poderia ser outra: Ace, Gene Simmons (baixo), Paul Stanley (vocal/guitarra) e Peter Criss (bateria) salvaram o rock and roll.

O quarteto botou demência onde só havia pretensão e virtuosismo assexuado, por isso lhe somos eternamente gratos. David Bowie, Marc Bolan e os New York Dolls já haviam jogado purpurina nos anos setenta, mas nenhum deles atingiu tanta gente quanto o Kiss. Mas até hoje este planeta ingrato despreza os quatro mascarados de Nova York. Você já viu Hotter Than Hell, Destroyer Rock And Roll Over em alguma lista dos melhores álbuns da história?

As pessoas sérias não gostam do Kiss porque o grupo é uma mancha na imaculada história dos heróis do rock. Gene & companhia não estavam a fim de protestar contra nada, pouco ligavam para a guerra do Vietnã ou para a miséria do mundo. Só queriam mesmo se dar bem com as mulheres, encher o bolso de grana e se divertir com o rock. E conseguiram!

Muitos acusam o Kiss de ser palhaço demais para ser levado a sério, mas se esquecem de que Little Richard tocava fogo no piano nos anos cinquenta e que James Brown tirava a camisa para mostrar os músculos para as fãs. Isso é rock'n'roll, uma palhaçada sem fim. O que o Kiss fez foi pegar esse lado clown e adicionar-lhe o toque épico que faltava. Gene, Paul, Ace e Peter sacaram que não era suficiente tocar rock; era necessário "encenar" rock. Para embalar esse teatro gigante, só mesmo um som de arena, básico ao extremo. Músicas que colassem na memória, refrãos fáceis.

E foi aí que Gene Simmons e Paul Stanley se revelaram verdadeiros gênios do pop. Disco após disco, a banda foi se aprimorando até chegar ao ápice: o monumental Destroyer. O começo do álbum é glorioso: "Detroit Rock City", "King of the Night Time World" e "God of Thunder", dez minutos de tirar o fôlego. O baladão "Beth" e "Do You Love Me" se destacam no meio de outras preciosidades. É um disco que se ouve da primeira à última faixa sem tirar o sorriso da boca. Nota dez!

A influência de
Destroyer não pode ser medida. Todo ser humano que faz som pesado deve um pouco ao Kiss. Bandas tão diferentes quanto Anthrax, Venom e Nirvana são capazes de se ajoelhar à simples menção do nome de Gene Simmons. Até o Manowar chegou a copiar a capa de Destroyer no álbum Fighting the World.

O Kiss deixou uma lição: a de que é preciso levar a vida na brincadeira e que muita seriedade cansa a beleza. Felizmente, milhões aprenderam o dever de casa.

Quando você vir alguém na rua com uma camiseta da banda, pode cumprimentar que é gente fina.


Faixas:
A1. Detroit Rock City - 5:30
A2. King of the Night Time World - 3:15
A3. God of Thunder - 4:20
A4. Great Expectations - 4:20

B1. Flaming Youth - 2:55
B2. Sweet Pain - 3:20
B3. Shout It Out Loud - 2:50
B4. Beth - 2:45
B5. Do You Love Me - 3:33
B6. [untitled] - 1:25

03/06/2009

Gamma Ray - Land of the Free II (2007)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Cotação: ****

Não me atrai nem um pouco essa onda de sequências de álbuns clássicos que assola a cena metálica. Parece que estamos em uma linha de montagem, uma indústria hollywoodiana, onde o que faz sucesso ganha outra roupagem e é repetido infinitamente. Além de que, ao vermos um álbum com um título como Powerslave II, instintivamente o comparamos com a sua versão original, e, salvo raríssimas exceções, a continuação perde, e por muito.

Land of the Free II, para a alegria dos headbangers de todo o mundo, é uma dessas exceções. Mesmo não sendo superior ao original, lançado em 1995, é um grande álbum de heavy metal como há um bom tempo o Gamma Ray não colocava no mercado. Suas doze faixas trazem uma banda agressiva, inspirada, melódica na medida certa, tudo com a marca de seu líder, o já lendário Kai Hansen.

Com a competência que lhe é habitual, Kai passeia por diversas vertentes da música pesada, pegando o melhor de cada uma delas e agregando-as à música do Gamma Ray. Assim, o disco vai do power (“Into the Storm”) ao speed metal (“To Mother Earth”), passando pelo heavy tradicional (“Rain”) e até mesmo pelo hard rock (“Empress”) com a mais absoluta naturalidade.

Mas o que realmente se destaca em
Land of the Free II é a constatação, óbvia e clara, de quanto o grupo estava inspirado ao compor o álbum. Tudo no disco soa enérgico, como se a banda estivesse com o tesão redobrado, fugindo completamente do caminho mais burocrático que ameaçou seguir nos últimos anos.

“From the Ashes”, a já citada “To Mother Earth”, “When the World”, “Real World” (com um clima bem “Future World”), “Hear Me Calling” e “Insurrection” são destaques em um álbum de altíssima qualidade, que honra o título que carrega.

Concluindo,
Land of the Free II irá surpreender muita gente, e deverá constar em inúmeras listas de melhores de 2007. Merecidamente, diga-se de passagem.


Faixas:
1. Into the Storm - 3:45
2. From the Ashes - 5:30
3. Rising Again - 0:28
4. To Mother Earth - 5:09
5. Rain - 5:20
6. Leaving Hell - 4:20
7. Empress - 6:22
8. When the World - 5:43
9. Opportunity - 7:15
10. Real World - 5:44
11. Hear Me Calling - 6:54
12. Insurrection - 11:30

Scorpions - Live at Wacken Open Air 2006: A Night to Remember - A Journey Through Time (2007)


Por Ricardo Seelig

Cotação: ****

Grupos veteranos como o Scorpions não tem vida fácil. Além de precisar compor e lançar álbuns inéditos de tempos em tempos, em uma prova constante de que ainda estão vivos artisticamente, precisam encarar a concorrência de centenas de novos nomes, bandas essas muito mais próximas do público jovem atual do que os alemães. O que fazer para conquistar novos fãs então? Uma boa resposta é lançar DVDs como esse
Live at Wacken Open Air 2006 – A Night To Remember, A Journey Through Time.

Gravado em casa, no tradicional festival alemão, o DVD cumpre o que o seu subtítulo promete: uma viagem pelo tempo, pelas diversas fases da carreira do grupo, com direito a participações mais que especiais dos lendários guitarristas Uli Jon Roth e Michael Schenker, além do baterista Herman Rarebell.

Com o público na mão desde o início do show, Klaus Meine, Rudolph Schenker, Mathias Jabs e companhia esbanjam experiência e competência. Amparados por um set list muito bem montado, o grupo já entra de forma bombástica com “Coming Home”, antecedida por uma espetacular introdução. E daí é só clássico atrás de clássico. “Bad Boys Running Wild” não envelheceu com o tempo. “The Zoo” mantém seu carisma, mesmo passados mais de vinte anos desde o seu lançamento. Aliás, nessa música ocorre o primeiro grande momento do show, com um solo antológico de Jabs. Quem viveu os anos oitenta sentirá arrepios até nos já não tão presentes cabelos …

Uli Jon Roth é chamado ao palco para executar três canções com a banda: “Pictured Life” do álbum
Virgin Killer de 1976, “Speedy´s Coming” de Fly to the Rainbow de 1974 e “We´ll Burn the Sky” de Taken by Force de 1977. O guitarrista é aclamado pelo público, como esperado, mas o que chama a atenção é a absoluta reverência com que os integrantes do Scorpions se comportam ao seu lado, reconhecendo sua genialidade e admitindo que ele está alguns degraus acima de todos eles. E é só Roth começar a tocar os primeiros acordes de “Pictured Life” para ficar claro o porque dessa atitude. Com uma postura totalmente zen, Uli executa trechos intricadíssimos como se estivesse fazendo a coisa mais natural do mundo, e, mais importante, com uma imensa expressão de satisfação no rosto. Assisti-lo é algo que beira o transcedental, e tal expressão não é um exagero. Dentre as três músicas executadas, “We´ll Burn the Sky” se destaca, com Roth comandando o Scorpions em uma performance primorosa.

Os alemães voltam com sua formação atual e executam três composições, “Love´em or Leave´em”, “Don´t Believe Her” e “Tease Me Please Me”, para logo chamarem o outro convidado especial para o palco. Assistir Michael Schenker tocando ao lado de seu irmão Rudolph emociona. O temperamental guitarrista, que virou mito do instrumento durante sua passagem pelo UFO na década de setenta, surge bêbadaço, cambaleante e sorridente, mandando ver - por incrível que pareça, devido ao seu estado alcoólico lastimável - na instrumental “Coast to Coast”, uma das mais emblemáticas faixas dos alemães. Com uma postura contida, Michael comporta-se de forma tímida no palco, tocando com a técnica habitual, mas parecendo querer fugir dos holofotes. Também, vendo o nível da bebedeira do alemão percebe-se o porque disso ... Triste, pra dizer o mínimo.

Um momento emocionante é a execução da bela “Holyday”, do álbum
Lovedrive de 1978, com os irmãos Schenker se complementando nas passagens acústicas da canção. Michael Schenker ainda executa “Lovedrive” e “Another Piece of Meat” com o Scorpions, antes de sair do palco devidamente ovacionado para, provavelmente, entornar mais algumas cervejas nos bastidores.

Após um breve solo de bateria de James Kottak, o vetereno Herman Rarebell, baterista da fase áurea da banda durante os anos oitenta, dá início à “Blackout”. Dos três convidados especiais é aquele onde a passagem do tempo está mais marcante. Com um visual que lembra aquele seu simpático tio que é alegria dos almoços familiares de domingo, Rarebell toca ainda “No One Like You” com o grupo, e fica evidente que, apesar de não comprometer em nenhum momento, Kottak é um instrumentista muito mais técnico que o veterano Herman, imprimindo muito mais energia e precisão à música do grupo alemão.

A parte final do show é marcada pelos clássicos “Big City Nights”, “Can´t Get Enough” e pela inevitável “Still Loving You”. Mas ainda faltava uma surpresa, e ela vem com Uli Jon Roth e Michael Schenker retornando ao palco para tocar a mais do que clássica “In Trance”. Putz, que sonzeira!  Com Uli comandando o grupo musicalmente, as quatro guitarras soam impecáveis, com Roth, Jabs, Rudolph e Michael esbanjando feeling e experiência. O solo de Uli Jon Roth é um destaque à parte, assim como a dobradinha que faz com Mathias Jabs em determinado momento da canção.

Encerrando as participações especiais, Roth puxa uma versão do “Bolero” de Ravel, onde fica evidente o seu talento acima da média. Essa música conta também com a participação do jovem Tyson Schenker na guitarra (não sei se ele é filho do Rudolph ou do Michael, então me ajudem), mostrando que a dinastia dos Schenker ainda nos dará mais frutos. A faixa conta também com uma performance inusitada de Rudolph Schenker, que larga a sua guitarra e faz alongamentos de yoga em pleno palco! Só assistindo para entender o que eu estou falando …

Encerrando o show, como não poderia deixar de ser, a banda toca “Rock You Like a Hurricane”, mas desta vez acompanhada de um cyber-escorpião totalmente mecânico, em um efeito visual muito legal.

Individualmente, além dos convidados especiais, os destaque vão para Mathias Jabs, que está tocando como nunca; para Rudolph Schenker, que além de ser um dos melhores guitarristas bases do mundo agita sem parar durante todo o show; e para o baterista James Kottak, que esbanja energia, técnica e carisma. Klaus Meine já não tem a mesma energia do passado, mas ainda possui um alcance e uma técnica vocais invejáveis, enquanto o baixista Pawel Maciwoda cumpre bem a sua função.

Live at Wacken Open Air 2006 é um DVD excelente, uma das melhores opções disponíveis para quem gosta de assistir a um bom show de rock confortavelmente em sua casa. E, além disso, faz uma retrospectiva de toda a carreira de uma das maiores bandas alemãs de todos os tempos, com direito a participações especiais de alguns de seus mais marcantes protagonistas.

Compre que vale pena.


Faixas:
1. Coming Home
2. Bad Boys Running Wild
3. The Zoo
4. Loving You Sunday Morning
5. Make it Real
6. Pictured Life (with Uli Jon Roth)
7. Speedy's Coming (with Uli Jon Roth)
8. We'll Burn the Sky (with Uli Jon Roth)
9. Love 'em or Leave 'em
10. Don't Believe Her
11. Tease Me Please Me
12. Coast to Coast (with Michael Schenker)
13. Holiday (with Michael Schenker)
14. Lovedrive (with Michael Schenker)
15. Another Piece of Meat (with Michael Schenker)
16. Kottak Attack
17. Blackout (with Herman Rarebell)
18. No One Like You (with Herman Rarebell)
19. Six String Sting
20. Big City Nights
21. Can't Get Enough
22. Still Loving You
23. In Trance (with Uli Jon Roth and Michael Schenker)
24. Bolero (with Uli Jon Roth, Michael Schenker, Herman Rarebell and Tyson Schenker)
25. Ready to Sting (Appearance of the Scorpion)
26. Rock You Like a Hurricane

Cavalera Conspiracy - Inflikted (2008)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ***1/2

Cavalera Conspiracy. O nome com o qual Max e Iggor Cavalera batizaram seu novo projeto não poderia ser mais adequado. É evidente que a notícia de que os dois estavam trabalhando em novas músicas colocou uma expectativa bastante alta em
Inflikted, afinal ele marca nada mais nada menos do que o reencontro entre as duas principais características que tornaram o Sepultura uma das principais e mais influentes bandas de heavy metal dos anos noventa: a bateria tribal e técnica de Iggor e a guitarra primal e os vocais raivosos de Max.

Ao lado de Marc Rizzo (Soulfly) e Joe Duplantier (Gojira), respectivamente na guitarra e baixo, Max e Iggor gravaram um álbum que não decepcionará quem acompanhou as suas carreiras nestes vinte e poucos anos de história. E sabe porque? Porque, ao contrário do que seria o mais óbvio de se esperar, as onze faixas de
Inflikted, ao invés de apostar em um heavy metal repleto de elementos mais modernos, como batidas eletrônicas e passagens com influências de outros estilos (sejam eles o rap ou a música brasileira – esta última, aliás, utilizada com rara maestria pela Sepultura nos últimos trabalhos gravados ao lado de Max, principalmente em Roots), trazem um metal extremo bem old school, com direito a riffs inspirados, palhetadas para todos os lados (na melhor escola do clássico thrash metal oitentista), composições agressivas e diretas. Parece que a reunião dos irmãos Cavalera os levou de volta aos porões da Belo Horizonte da década de oitenta, onde a dupla dava seus primeiros passos na música detonando versões de grupos como Celtic Frost e Venom.

As canções de
Inflikted soam muito pesadas (méritos para a excelente produção de Max ao lado de Logan Mader, ex-Machine Head) e não trazem muita enrolação não. O negócio aqui é pau, um arregaço atrás do outro. Para efeito de comparação, o clima lembra o dos primeiros discos do Sepultura (até Arise), só que mais direto e sem muita lenga lenga, como mudanças de andamento e introduções. Como curiosidade, vale o registro das participações especiais de Rex Brown, ex-baixista do Pantera, em “Ultra Violent”, e de Ritchie Cavalera, um dos vários enteados de Max, fazendo os vocais de “Dark Ark”.

Sem dúvida
Inflikted é um grande álbum de heavy metal, que traz de volta uma das parcerias mais marcantes da música pesada, em um resultado inspirado e cativante. 

Vale o investimento.


Faixas:
1. Inflikted - 4:31
2. Sanctuary - 3:23
3. Terrorize - 3:37
4. Black Ark - 4:54
5. Ultra-Violent - 3:47
6. Hex - 2:37
7. The Doom of All Fires - 2:12
8. Bloodbrawl - 5:41
9. Nevertrust - 2:33
10. Hearts of Darkness - 4:29
11. Must Kill - 4:50

Whitesnake - Good to Be Bad (2008)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ***1/2

Após um período conturbado nos últimos anos, quando parecia que o grupo iria acabar de vez, o Whitesnake parece estar de volta aos bons tempos. David Coverdale conseguiu reunir o melhor line-up em muitos anos, com destaque para os guitarristas Doug Aldrich e Reb Beach (completam o time o baixista Uriah Duffy, o tecladista Timothy Drury e o baterista Chris Fazier), e o resultado está em
Good to Be Bad.

A sonoridade retoma as características de discos clássicos como
Slide It In e 1987, com um hard rock vigoroso e uma pegada cativante, repleto de refrões marcantes. Coverdale canta com a classe de sempre, e sua voz, como não poderia deixar de ser, é um dos destaques do álbum. Aldrich e Beach mostram um entrosamento muito bom, revezando-se em bases competentes e solos repletos de feeling.

Os fãs irão se deliciar com as bombásticas “Call On Me”, “All For Love”, “Best Years” e “Can You Hear the Wind Blow”, enquanto quem curte as já tradicionais baladas de Coverdale com certeza irá curtir faixas como “Summer Rain” e “All I Want All I Need”.

Good to Be Bad mostra um Whitesnake novamente com tesão nas veias. Não é melhor que os já citados Slide It In e 1987, mas quem se importa? O que conta é que Coverdale e companhia estão de volta, e estão famintos. 

Tranquem suas filhas (ou seriam suas mães?) em casa, porque Good to Be Bad tem tudo para ser apenas o início de uma fase excelente para o Whitesnake.


Faixas:
1. Best Years - 5:15
2. Can You Hear the Wind Blow? - 5:04
3. Call on Me - 5:02
4. All I Want All I Need - 5:41
5. Good to Be Bad - 5:14
6. All for Love - 5:13
7. Summer Rain - 6:11
8. Lay Down Your Love - 6:01
9. A Fool in Love - 5:50
10. Got What You Need - 4:16
11. 'Till the End of Time - 5:35

Judas Priest - Nostradamus (2008)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Cotação: **

Às vezes eu me pergunto o que passa na cabeça de certas bandas. Com a volta de Rob Halford em 2003, o Judas Priest estava com tudo na mão para fazer os fãs esquecerem a passagem de Tim Owens pelo grupo. Mas, ao invés de fazer o que sempre fizeram e, até prova em contrário, sempre souberam, Tipton, Downing e companhia resolveram inovar.

O mediano
Angel of Retribution já dava a pista, mas o novo álbum, Nostradamus, escancara de vez. Porque não entregar aquilo que os fãs estavam esperando? Seria fácil, o disco venderia horrores e a banda lotaria shows em todo o mundo. Mas não, o Judas Priest quis experimentar algo novo a essa altura de sua carreira, e o resultado foi desastroso, pra dizer o mínimo.

Pra começo de conversa,
Nostradamus é pretencioso, chato de ouvir (com um número interminável de vinhetas entre as faixas) e pouco inspirado. As composições se arrastam por longos e dolorosos minutos, explorando um conceito pra lá de batido. Tentando soar épico, grandioso e sinfônico, o Judas Priest encheu o disco de teclados que, ao invés de somar ao arranjo das canções, puxam o material para baixo, dando ao álbum um ar ultrapassado, como se fosse um refugo mal feito de Turbo, de 1986 .

No meio disso tudo, algumas músicas, não satisfeitas em serem apenas chatas, soam totalmente sem pé nem cabeça, como é o caso de “War”, que tenta unir o característico metal do Judas Priest a um arranjo sinfônico que emula trilha de filmes como
Senhor dos Anéis e derivados. O resultado? Medonho.

Outro momento constrangedor é “Death”, onde a banda tenta soar climática e soturna, mas só consegue ser derivativa e decadente. É de se perguntar como nenhum dos integrantes do Judas teve senso crítico para perceber o nível risível dessa faixa.

E o trabalho segue essa linha apoteótica de churrascaria por quase toda a sua duração, em composições repletas de pretensão, supostamente grandiosas e épicas, mas totalmente sem inspiração e tesão. Enfim, um monstro sem sentido que desafia o ouvinte a chegar ao seu final.

Mas aquele que conseguir isso vai ter ao menos duas faixas que merecem uma atenção especial. “Nostradamus”, a que dá nome ao trabalho, é um heavy metal vigoroso na linha do que a banda fez na época de
Painkiller, e que coloca um gostinho do que o disco poderia ter sido. Já “Future of Making” tem um andamento cadenciado e passagens repletas de melodia, mostrando o quanto uma dose de inspiração é fundamental para uma canção, já que seus mais de oito minutos descem redondinho.

Concluindo,
Nostradamus é um álbum muito, mas muito mesmo, decepcionante, um tropeço enorme na discografia do Judas Priest, um dos maiores nomes da história do heavy metal. Se a banda voltou com a sua formação clássica para gravar discos do nível desse último trabalho e do anterior, era melhor ter encerrado as suas atividades.


Faixas:
1. Dawn of Creation - 2:33
2. Prophecy - 5:26
3. Awakening - 0:53
4. Revelations - 7:05
5. The Four Horsemen - 1:35
6. War - 5:04
7. Sands of Time - 2:36
8. Pestilence and Plague - 5:08
9. Death - 7:33
10. Peace - 2:21
11. Conquest - 4:42
12. Lost Love - 4:28
13. Persecution - 6:34
14. Solitude - 1:25
15. Exiled - 6:32
16. Alone - 7:50
17. Shadows in the Flame - 1:10
18. Visions - 5:24
19. Hope - 2:09
20. New Beginnings - 4:56
21. Calm Before the Storm - 2:05
22. Nostradamus - 6:43
23. Future of Mankind - 8:29

Discos Fundamentais: Ramones - It´s Alive (1979)


Por Alessandro Cubas
Colecionador

Já se passaram trinta anos desde que o Ramones lançou o seu primeiro álbum ao vivo. Após lançar os obrigatórios 
Ramones (1976), Leave Home (1977), Rocket to Russia (1977) e Road to Ruin (1978), todos eles recheados de clássicos do punk rock, o quarteto nos presenteou com este excelente registro ao vivo, na época lançada em LP duplo, gravado no dia 31 de dezembro de 1977, no Rainbow Theatre em Londres.

Como hoje já estamos acostumados, não preciso ressaltar o quanto de energia transborda de um show de punk rock, porém aqui a banda não acelerou tanto as músicas, como viria a fazer nos futuros
Loco Live (1991), que nos traz muitas músicas desta época porém bem mais aceleradas. Essa velocidade foi sempre aumentando, até chegar no We’re Outta Here! de 1997, que além de trazer várias participações especiais contém uma banda que realmente toca muito rápido. Apesar da maioria dos fãs curtirem essas faixas executadas da forma mais rápida possível, eu elejo o pouco conhecido It’s Alive como o melhor disco ao vivo dos Ramones, pois as músicas são mais fiéis às originais.

A formação, ainda original, aqui contava com o vocalista Joey Ramone, o guitarrista Johnny Ramone, o baixista e um dos principais cérebros da banda, Dee Dee Ramone, e o até então batera Tommy Ramone, que no próximo disco,
End of the Century (1980), seria substituído por Marky Ramone, que veio da banda de hard rock Dust.

O track list é impecável!  Quem nunca agitou ao som de músicas como “Rockaway Beach”, “Blitzrieg Bop”, “Commando”, “I Don’t Care”, “Sheena is a Punk Rocker”, “Havana Affair”, “Pinhead”, “Today Your Love, Tomorrow the World”, “Suzy is a Headbanger”, “Now I Wanna Sniff Some Grue” entre muitas outras que esse quarteto criou?

Apesar de serem norte-americanos, o grupo influenciou totalmente a cena punk inglesa, que estava ainda dando seus primeiros passos quando os Ramones surgiu e gravou seu debut repleto de faixas curtas, com poucos acordes mas carregadas de energia. Hoje em dia a banda continua sendo muito aclamada não apenas na cena punk, mas também por muitos apreciadores de rock e até headbangers, sendo um dos poucos grupos que conseguiram agradar a gregos e troianos. 

Uma pena quase a banda inteira já ter falecido, pois mais shows destes monstros dos palcos seriam muito bem vindos.

Bom, por fim são por estes e outros motivos que os Ramones são considerados por muitos um dos maiores nomes do rock em todos os tempos.


Faixas:
A1. Rockaway Beach - 2:24
A2. Teenage Lobotomy - 1:55
A3. Blitzkrieg Bop - 2:05
A4. I Wanna Be Well - 2:23
A5. Glad to See You Go -1:51
A6. Gimme Gimme Shock Treatment - 1:37
A7. You're Gonna Kill That Girl - 2:28

B1. I Don't Care - 1:41
B2. Sheena Is a Punk Rocker - 2:16
B3. Havana Affair - 1:35
B4. Commando - 1:40
B5. Here Today, Gone Tomorrow - 2:55
B6. Surfin' Bird - 2:20
B7. Cretin Hop - 1:46

C1. Listen to My Heart - 1:36
C2. California Sun - 1:45
C3. I Don't Wanna Walk Around with You - 1:25
C4. Pinhead - 2:46
C5. Do You Wanna Dance? - 1:39
C6. Chainsaw - 1:29
C7. Today Your Love, Tomorrow the World - 1:55

D1. Now I Wanna Be a Good Boy - 2:03
D2. Judy Is a Punk - 1:14
D3. Suzy Is a Headbanger - 1:53
D4. Let's Dance - 2:03
D5. Oh Oh I Love Her So - 1:40
D6. Now I Wanna Sniff Some Glue - 1:18
D7. We're a Happy Family - 2:07

Leia também: Ramones - Rocket to Russia (1977)

Todo Caetano Box (2002)


Por Tiago Rolim
Colecionador
Collector´s Room

Um dos grandes nomes da MPB da segunda metade do século XX foi Caetano Veloso. Foi e ainda é, vide seus últimos lançamentos -  a saber,
e Zii Zei, discos que estão a anos luz dos trabalhos recentes de seus contemporâneos. Mas a conversa aqui vai se ater à obra de Caetano no século passado (cara, ainda é estranho dizer século passado, me parece tão distante ao mesmo tempo que está tão próximo).

Para falar da obra de Caetano, devo antes falar de um dos melhores presentes que um bolha pode ganhar. Minha amada esposa um belo dia me entra em casa com um pacote e me entrega, e era uma caixa chamada
Todo Caetano, em que estão todos os discos dele e mais alguns bônus, como um ao vivo com a Banda Black Rio, um CD só com singles que não entraram nos álbuns oficiais, além de um DVD de áudio com seus maiores sucessos. São precisamente 26 discos de estúdio e 10 ao vivo, além dos citados bônus. E o melhor: todos os CDs vem imitando os vinis originais, um detalhe que enche os olhos.

Bom, não vou aqui falar de todos os discos, pois o texto ficaria muito longo, mas é de impressionar como todos tem uma linearidade na diversidade que impressiona. Digo isso porque Caetano sempre se caracterizou por ser um ser mutante (essa doeu, mas não deu para evitar). Daí a diversidade. A linearidade vem do fato de que, dos 36 discos contidos na caixa, poucos podem ser considerados ruins de fato. Claro que eles existem, mas mesmo assim valem uma audição mais atenta. Como exemplo pode ser citado o
Totalmente Demais, de 1986, que o próprio Caetano despreza. Outro que não pode ser ignorado é o Araçá Azul, que de tão louco não pode ser considerado bom ou ruim, mas sim esquisito, muuuuuito esquisito. Tem também uns que são claros caça níqueis, como o Tropicália 2, que apesar de bom não merecia este título, feito em parceria com o amigo Gilberto Gil, além da enxurrada de discos ao vivo que ele lançou a partir da década de noventa.

Agora, falar dos destaques é mais complicado, pois a fase tropicalista é maravilhosa, possui discos irretocáveis, como a estreia em 1967, ou o “disco branco” de 1969. Desta fase o melhor é, sem dúvida,
Transa, de 1972. Neste tudo é perfeito, a parceria com Jards Macalé estaá no auge e rendeu uma obra-prima da musica brasileira. 

Muitos outros podem ser citados como destaques positivos nesta vasta carreira, como a parceria ao vivo com Chico Buarque em 1972, o Cinema Transcendental de 1979, o Barra 69 ao vivo, novamente em parceria com Gilberto Gil, que marcou a despedida de ambos antes do exílio. 

Na década de oitenta Caetano também realizou ótimos álbuns, como Cores Nomes de 1982, Outras Palavras de 1981 e Estrangeiro, que fechou a década com chave de ouro.

Os discos da década de noventa mostraram um artista maduro, mas mesmo assim inquieto, que foi capaz de fazer trabalhos como
Livro (1997), talvez o melhor dele da década, além de Circuladô (1990).

Os bônus são especiais. Um raro concerto de Caetano com a Banda Black Rio é uma jóia rara dançante como poucas, mostrandp Caetano totalmente mergulhado no funk que dominava a MPB no final dos anos setenta, e um disco com singles, que tem seus destaques.

Enfim, quis aqui dar uma geral bem rápida sem me ater a muitos detalhes da obra de um dos grandes músicos que este país já teve, e que merece respeito mesmo com suas posturas um tanto quanto polêmicas.


Todo Caetano
Box com 40 CDs, em réplica de vinil, contemplando o catálogo completo de Caetano pelas gravadoras Philips, Polygram e Universal, e mais material bonus, com um CD dedicado apenas aos singles, um com um show ao lado da banda Black Rio e um DVD de áudio chamado Muito Mais com o melhor da carreira do músico.

O box inclui os seguintes álbuns, na íntegra:

Domingo (1967)
Caetano Veloso (1968)
Tripicália (1968)
Caetano Veloso (1969)
Caetano Veloso (1971)
Transa (1972)
Araçá Azul (1972)
Barra 69 (1972)
Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo (1972)
Temporada de Verão (1974)
Qualquer Coisa (1975)
Jóia (1975)
Os Doces Bárbaros (1976)
Muitos Carnavais (1977)
Bicho (1978)
Muito (1978)
Caetano Veloso e Maria Bethania Ao Vivo (1978)
Cinema Transcendental (1979)
Outras Palavras (1981)
Cores, Nomes (1982)
Uns (1983)
Velô (1984)
Caetanear (1985)
Caetano Veloso (1986)
Totalmente Demais (1986)
Caetano (1987)
Estrangeiro (1989)
Circuladô (1990)
Circuladô - Ao Vivo (1991)
Tropicália 2 (1992)
Fina Estampa (1994)
Fina Estampa - En Vivo (1995)
Livro (1998)
Prenda Minha (1998)
Omaggio A Federico E Guilietta (1998)
Noites do Norte (2000)
Noites do Norte - Ao Vivo (2001)
Eu Não Peço Desculpa (2002)

Leia também: Caetano Veloso - Transa (1972)

Discoteca Básica Bizz#093: Rod Stewart - Every Picture Tells a Story (1971)


(Arthur G. Couto Duarte, Bizz#093, abril de 1993)

Poucos cantores de rock fizeram jus ao adjetivo visceral tanto quanto Rod Stewart. Mais que Robert Plant, Paul Rodgers ou Mick Jagger, ele soube absorver a urgência e o feeling de mestres negros americanos - como Sam Cooke - em um estilo pessoal, forjando uma voz fuliginosa e imediatamente reconhecível.

Hoje, quem o vê colecionando Lamborghinis talvez não suspeite de suas origens. Nascido em uma típica família working class londrina, mas orgulhosa da ascendência escocesa, ele se virou como pode na adolescência: foi jornaleiro, coveiro, ergueu cercas e até jogou futebol. Mas sua paixão era mesmo a música. Foi por causa dela que Rod passou dois anos vagando pela Europa, ocasião em que aprendeu a tocar banjo e a cantar.

De volta à Inglaterra em meados dos anos sessenta, com a ascensão da cena do rhythm'n'blues integrou bandas como Jimmy Dowell and The Five Dimension, The Hoochie Coochie Men, Steampacket, Shotgun Express e, finalmente, o Jeff Beck Group. Com o guitarrista, ele encarou pela primeira vez as grandes platéias, embate do qual saiu vitorioso para liderar os Faces. 

A partir daí, o cantor desenvolveria uma espécie de esquizoidia musical ao se ver contratado ao mesmo tempo por dois selos distintos: Mercury (como solista) e Warner (junto aos Faces). Enquanto seu grupo foi se tornando uma versão glitterizada dos Stones, Rod seguiu por uma via diferente: seus discos contrabalançavam material próprio com canções alheias - na maioria, itens obscuros, que ganhavam vida nova em vigorosas reinterpretações. A fórmula gerou ao menos três discos magistrais: An Old Raincoat Won't Ever Let You Down (1969), Gasoline Alley (1970) e o que é o objeto desta Discoteca Básica.

Como os anteriores, Every Picture Tells a Story foi pródigo em variedade de estilos. Lá se encadeavam soul da Motown - "(I Know) I'm Losing You" -, uma gema bruta da fase folk de Bob Dylan ("Tomorrow is a Long Time"), um instrumental de tessitura medieval ("Henry"), originais mesclando trechos acústicos ao hard rock (a faixa-título e "Maggie May"), um leve aceno ao blues ("That's All Right") e até o hino inglês ("Amazing Grace"). Por mais díspares que parecessem, as músicas se nivelavam com o tratamento imposto por Rod. Nem pequenos deslizes na produção foram capazes de embaçar sua entrega e sinceridade.

Ainda assim, há quem diga que a superioridade da gravação sobre as demais feitas por ele deveu-se à sua perfeita interação com os instrumentistas convidados: Danny Thompson (ex- Pentagle) arrasava no baixo de pau, e as guitarras de Martin Quittenton tinham um ótimo posicionamento. Sem esquecermos de Ron Wood, de Mick Waller (cuja técnica desconcertante na bateria teria levado o crítico Greil Marcus a recomendá-lo para um prêmio Nobel em Física!) e do mandolinista Ray Jackson. É, enfim, uma banda impecável, capaz de pressionar Rod a dar o melhor de si. Algo que, infelizmente, os anos de indolência no jet set internacional puseram a perder.


Faixas:
A1. Every Picture Tells a Story - 6:01
A2. Seems Like a Long Time - 4:02
A3. That's All Right - 3:59
A4. Henry's Time - 0:32
A5. Tomorrow Is Such a Long Time - 3:44

B1. Maggie May - 5:16
B2. Mandolin Wind - 5:33
B3. (I Know) I'm Losing You - 5:23
B4. Reason to Believe - 4:07

Leia também: Jeff Beck - Truth (1968)

02/06/2009

Discografia Comentada: Tuatha de Danann


Por Alessandro Cubas
Colecionador

Um ano antes da aparição de um ser extraterrestre, já havia surgido outro fenômeno na cidade de Varginha, interior de Minas Gerais. Desta vez o fenômeno foi a banda Tuatha de Danann, ainda com o nome de Pendragon, fazendo um som totalmente louco e inusitado para os padrões brasileiros, mesclando música celta e medieval ao heavy metal e algumas de suas vertentes.

Após o lançamento de duas demo tapes e excelentes álbuns, a banda abriu shows para grupos como Blind Guardian e Nightwish, e também tocou em festivais como o Brasil Metal Union, Live N’ Louder e no Wacken Open Air durante a turnê que fizeram pela Europa, isso sem contar inúmeros shows pelo Brasil afora, que só fortaleceram o nome do grupo, conquistando assim muitos fãs ao redor do mundo.

Tuatha de Danann (1999) ***

Neste primeiro registro, lançado no ano de 1999 através do selo Heavy Metal Rock, o Tuatha nos apresenta quatro faixas inéditas juntamente com as quatro da demo tape
Faeryage (1998).

O play começa justamente com as composições inéditas, sendo que a primeira delas, “Us”, é uma bonita música acústica toda no estilo celta, com belas flautas, violões, palminhas e tudo mais, além de um belo refrão reverenciando a grande Mãe Terra. Já a segunda faixa é a que também batiza a banda, “Tuatha de Danann”, já bem mais pesada do que a anterior, mas também com passagens acústicas de muito bom gosto. 

Ainda temos as inéditas “Beltane”, com guitarras bem boladas e passagens bem doom metal; e “The Bards of the Infinity”, que conta com uma boa introdução acústica antes de cair na paulada, é a música mais rápida do álbum, chegando a nos lembrar o antigo Blind Guardian em algumas partes. 

Nas composições que vieram da demo temos “Queen of the Witches”; “Faeryage”, que também saiu em uma coletânea da revista Planet Metal; “Oisin” que é bem legal, e “Inrahma”, que encerra o álbum novamente de forma acústica.

Desde este primeiro registro o Tuatha de Danann já estava com seu estilo bem definido, mas que ainda evoluiria, e muito, nos trabalhos seguintes.

Tingaralatingadun (2001) ***1/2

Com um título totalmente inusitado, para não dizer outra coisa, o Tuatha de Danann lança seu segundo álbum, o primeiro contando apenas com composições inéditas, e tendo uma produção superior a anterior. Novamente misturando o metal com música celta, o Tuatha nos traz um trabalho muito superior em relação ao disco de estreia, com composições mais elaboradas, cheias de flautas, violinos e bandolins, sendo que muitas destas faixas se tornaram as principais músicas da banda, estando presentes no repertório dos shows até hoje.

O álbum abre com a animada “The Dance of the Little Ones” e segue com “Battle Song”, “Behold the Horned King”, “Tan Pinga Ra Tan”, todas boas músicas e com ótimos climas. “Fingaforn” se tornou um dos pontos altos dos shows, onde, em algumas ocasiões, o grupo conta até com um anão representando o personagem da canção. Ainda temos “Vercingetorix”, “Celtia”, “Some Tunes to Fly”, a faixa-título e “MacDara”.

Neste mesmo ano, 2001, a banda também participou da ópera metálica William Shakespeare’s Hamlet, idealizado pela Die Hard Records, sendo que os mineiros ficaram responsáveis em apresentar a morte do personagem com a excelente faixa "Last Words", o que veio a concretizar ainda mais essa boa fase da banda.

Devido a esta visível evolução que o conjunto passou após este álbum, o grupo passou a ser visto com outros olhos, tanto pela mídia quanto pelo público em geral. Este álbum vale a pena ser conferido.

The Delirium Has Just Began ... (2002) ***1/2

Neste terceiro trabalho a banda nos apresenta novamente evolução dentro de seu já característico som. Novamente lançado através Heavy Metal Rock, este álbum foi posteriormente lançado na França, obtendo uma ótima resposta do público e da mídia.

A primeira faixa deste trampo dos mineiros é “Brazuzan – Taller than a Hill”, uma música cheia de mudanças de andamento e com uma das melhores melodias de flauta composta pelos mineiros. A segunda faixa “The Last Pendragon” é a regravação da primeira canção composta pelo grupo quando ainda se chamava Pendragon e tem até algumas passagens prog metal e vocais agressivos. “Abracadabra” dá continuidade ao play no melhor estilo folk/celtic e é mais uma ótima composição. “The Last Words”, que já havia aparecido na projeto
William Shakespeare’s Hamlet,  agora saiu no próprio álbum. Ainda temos a bela “The Wanderings of Osin” e a variada “The Delirium Has Just Began ...”, com passagens pesadas contrastando com belos climas e passagens acústicas.

Um trabalho curto, mas que mais uma vez nos passa o espírito da banda, mostrando que no Brasil também temos ótimos representantes da música folclórica européia. 

Trova di Danú (2004) ****

Na minha opinião o melhor trabalho do Tuatha de Danann, com excelentes composições e uma boa produção. Indico este álbum para quem ainda não conhece o trabalho da banda.

Desta vez o trabalho foi lançado pela Paradoxx Music e possui também influências de grupo nos anos setenta misturadas ao estilo dos mineiros. Além disso, o CD nos traz muitas participações especiais, onde podemos destacar a do Sr Victor Rodrigues, muito conhecidos por seus gritos no Torture Squad, que é outra banda de extremo potencial na cena brasileira.

A banda já começa com tudo com a super empolgante “Bella Natura”, segue com “Lover of the Queen”, “Land of Youth”, “De Danann’s Voice”, “The Lands of Revenge”, “Spellboundance”, “Believe: It’s True!” “The Arrival”, “The Oghma’s Rheel”, “Trova di Danú” e fecha com “The Wheel”, onde é quase impossível citarmos apenas algumas faixas como destaque. 

O disco inteiro nos traz as melhores melodias de flautas compostas por estes bardos. Aliás, o que seria do Tuatha de Danann sem as flautas? Talvez Bruno Maia tenha encarnado o mesmo espírito que desce no gênio Ian Anderson. Bricadeiras a parte, esta banda se mostra uma das mais originais do país, merecendo sem dúvida seu reconhecimento.

Baú do Mairon: o luar de Márcio Rocha


Por Mairon Machado
Colecinador
Collector´s Room

Sou um cara que, como expresso aqui no
Baú do Mairon, amo vinil e o som dos anos sessenta e setenta. Dificilmente consigo me apegar em algum som recente, mesmo tentando. Claro, respeito o trabalho de bandas como Nightwish, Therion, Dream Theater entre outros, mas, mesmo assim, pra mim fica faltando um tempero no meio do som dos mesmos, o que faz meu ouvido acabar preferindo curtir o bom churrasco dos 60/70 aos Macs dos 90/2000. Porém, não abro mão de conhecer trabalhos diferentes. Como grande fã do rock nacional, fiquei muito feliz ao ouvir bandas como Los Hermanos, Trem do Futuro, Magnum Opus, Quaterna Réquiem, Tempus Fugit e Octophera, e mais ainda, quando tive o prazer de receber em minhas mãos o CD Juno, do músico carioca Márcio Rocha, que para mim é um dos melhores trabalhos dos últimos anos.

Márcio formou-se em música no
Instituto Villa-Lobos, e teve sua carreira apresentada ao público ao entrar, em 1995, no magnífico projeto Luz da Ásia, que possuía uma influência dos sons orientais bem diferente do que já havia sido visto no Brasil, e infelizmente ficou perdido no subúrbio da decadência musical que viveu o nosso país no final dos anos noventa, envolto em "tchans" e "Pires". No Luz da Ásia, Márcio se encantou com o talento dos demais músicos da banda e com instrumentos como craviola, cítara e swaramandal. Com o grupo, registrou o álbum Amistad (1999), mas dois anos antes Márcio empregava seu talento e carinho num lento e dedicado trabalho de gravação de seu álbum solo.

Por fim, em 2000 Márcio lançou, através da Odisséia Records e com a ajuda de Alex Frias, o CD
Juno, no qual empregou todos os elementos que o Luz da Ásia tinha e mais as pitadas de clássico que havia aprendido no Instituto Villa-Lobos, fazendo uma espetacular mistura entre harmonia e sonoridade em um disco praticamente instrumental.

Contando com a participação de músicos de bandas como Cláudio Cepeda (Anima Dominum), André Mello (Tempus Fugit), Alexandre Fonseca (Cheiro de Vida e Pepeu Gomes) e até mesmo do próprio Luz da Ásia, bem como diversos convidados, Juno abre com a vinheta "Samadhi", onde o destaque fica para o uso do swaramandal de Sílvia Brasil e do e-bow de Alex Frias, dando um clima espacial para o que vai vir pela frente, com a linda e complicada "Desolation of Fools", a qual começa com os violões de Márcio acompanhado pela banda (bateria de Alexande Costa e baixo de Cepeda) fazendo a base para o solo de violino de Daniel Andrade. A melodia da canção é belíssima, principalmente pela levada. Violino e guitarra solam juntos, seguidos pelo andamento cadenciado. O timbre de guitarra lembra Robert Fripp. Sintetizadores abrem a sequência mais
Crimsoniana, onde Márcio utiliza um violão para solar em uma escala flamenca, com um andamento de bateria/baixo/violino muito quebrado. Após a doideira, entram os instrumentos orientais, com a tabla e a cítara fazendo a sua parte, acompanhadas pelo dedilhado de Márcio. Castanholas mudam o clima para mais uma sessão flamenca do violão acompanhando uma linda participação da cítara. Por fim, a quebradeira volta novamente, em uma sessão onde a craviola introduz uma sequência de riffs complicadíssimos, que lembram muito o King Crimson, retomando o tema inicial ao violino e com a guitarra solando junto. Uma bela amostra do que estaria por vir nas demais faixas do CD.

Após a porta se abrir com "Desolation of Fools", temos "Horizonte", onde a guitarra de Márcio comanda essa linda balada. Alex Frias também participa da canção, executando um dos solos. Claro, as quebradeiras aparecem durante o solo de teclados feito por Márcio, mas que dão um tempero excelente para a balada. Violões tomam seu espaço, encerrando a faixa com os teclados viajando.

Agora a porta se fecha, com a tabla introduzindo a setentista "Vento". Cheia de cordas e violões, a introdução nos traz a voz suave de Márcio em uma típica canção para acampamento. As cordas dão um clima ainda mais belo para a linda melodia criada por Márcio, que conta ainda com a participação de clarinete e flautas.

A faixa seguinte é um petardo. Uma aula de construção de uma composição é o que ouvimos na suíte "Concertino". Tocando violão clássico, Márcio mostra todo o seu talento acompanhado pelas cordas de Daniel Andrade (violino) e Luciano Rocha (violoncelo). A flauta de Celso Ramos sola acompanhada pelas escalas clássicas de Márcio, agora no sintetizador, executando o tema principal e que traz a parte mais agitada da canção, onde o guitarrista Mindinho sola sobre a levada do tema principal. Porém, é na sequência da faixa que entendemos o porque de Márcio ter demorado tanto para lançar o álbum. O carinho e a atenção em cada nota executada no seu solo de violão clássico é simplesmente fantástico. O violoncelo muda o clima da canção com um pequeno solo, para o violão executar um complicado dedilhado . Flautas executam um segundo tema, que abre espaço para o trêmolo perfeito de Márcio. Violinos voltam a ser o centro da atenção, voltando ao trêmolo. A construção de Márcio, sozinho ao violão, está ao nível de Turíbio Santos e Elomar, mestres na arte de interpretar e compôr ao violão clássico. Os dedilhados clássicos voltam, executando um terceiro tema, para então as cordas e flautas acompanharem a mesma melodia deste terceiro tema. Por fim, o violão dedilha acordes mais agressivos, voltando ao tema principal, com guitarra, violino e violoncelos dividindo democraticamente seus espaços, terminando com violão, violino e violoncelo executando o mesmo acorde. Uma incrível faixa, com certeza!

A música clássica se faz presente na intrincada "Juno". Composta em homenagem a seu filho, Márcio Rocha Jr, "Juno" apresenta uma linda melodia no violão de nylon, mostrando que um grande artista não escreve somente uma única peça de fundamento. As escalas de Márcio variam entre a espanhola e a de blues, mas o clima clássico é mantido em toda a faixa, terminando com uma risada gostosa do homenageado.

"Instante", alternando os vocais de Márcio com os de Beth Pellicione, lembra bastante as faixas de Jane Duboc no Bacamarte. Destaque especial para o solo de violoncelo de Luciano. Nessa canção, Márcio nos mostra seu talento como multi-instrumentista, tocando craviola, violão, guitarra e moringa.

A linda "Odisséia" retoma o clima clássico. Nela não temos a participação de Márcio em qualquer instrumento, mas a sua composição, lembrando "Jesus, Alegria dos Homens" de Bach, na flauta de Djalma, com os acompanhamentos de violino, violoncelo e contrabaixo acústico, faz nos sentirmos em um castelo da realeza, tomando chá e comendo
cakes enquanto casais dançam em nossa volta.

"Fly With Your Wings" é a única faixa que destoa das demais, mas não por ser uma música ruim, pelo contrário, é uma bela faixa que somente foge das qualidades acústicas das canções anteriores. Com letra em inglês, é uma faixa pesada, onde Márcio toca guitarras distorcidas enquanto Mindinho executa o seu solo. Nela, encontramos a participação de André Mello tocando mini-moog, o que deu um toque diferente para a composição de Márcio. Uma boa faixa, principalmente pelas quebradas de bateria e guitarra, além claro de ser muito progressiva, com viajantes intervenções de moog.

Uma releitura em inglês para "Vento" é ouvida em "Wind", com o mesmo acompanhamento de sua irmã em português.

Por fim, a vinheta "Samadhi" encerra o álbum, contando com a participação do pequeno Juno dizendo "
acabou, eeeee", vibrando com o magnífico trabalho feito por seu pai e que deixa a sensação de que é possível existir cabeças pensantes e talentosas na música brasileira, basta saber aonde procurar.

O álbum contém ainda um belo trabalho gráfico feito por Michel Mujalli. Márcio participou ano passado do álbum
A Memória das Naus, do grupo Roque Malasartes, tocando violão e craviola, e atualmente está desenvolvendo o projeto Juno ao lado de Cláudio Cepeda, tendo uma sonoridade um pouco mais à brasileira, mas com elementos que participaram do álbum Juno, devendo lançar em breve seu segundo disco.

Ao final de
Juno temos a sensação de sair de uma experiência que ficará para sempre no sangue e no cérebro. Em épocas onde a principal atração na TV aberta é uma famigerada representação sobre casamentos no oriente, Juno é uma lua cheia em um dia sem nuvens, caindo como uma luva em quem quer realmente aprender o que existe de bom na cultura do outro lado do mundo.

Termino essa sessão citando o jornalista Marcelo Valença: "
Diferente de quem leva a vida na flauta, o carioca Márcio Rocha optou por reverenciá-la nos sons da guitarra e do violão (...)  o músico cercou-se de talentosos artistas, e fez de Juno um vôo ousado e ao mesmo tempo único".

Boa viagem!!!

Discos Fundamentais: Venom - Black Metal (1982)


Por Alessandro Cubas
Colecionador
Collector´s Room

Formado em Newcastle, na Inglaterra, no ano de 1979, o Venom é hoje muito mais do que uma banda que concebeu grandes clássicos aos fãs de heavy metal. Ela é também a responsável pela origem de uma das vertentes mais polêmicas da música pesada, o black metal, que também teve outros nomes importantes como Hellhammer, Sarcófago e Bathory, e que influenciou, e muito, a mais do que discutida cena norueguesa do final dos anos oitenta e começo dos noventa.

Recheado de temas satânicos, o álbum
Black Metal é o segundo registro do power trio formado pelo vocalista e baixista Cronos, pelo guitarrista Mantas e o baterista Abaddon, que no ano de 1981 já havia lançado seu primeiro petardo, Welcome to Hell.

A faixa título abre o álbum e se tornou o maior clássico do estilo então batizado. A seguir temos outras faixas de destaque, como a cadenciada “Buried Alive” (que também foi coverizada pelo Obituary), “Raise the Dead” no melhor estilo Motörhead, a sacana “Teachers Pet”, as pesadas “Leave Me in Hell”, “Sacrifice” e “Heavens on Fire”, e “Countess Bathory”, que junto com a faixa “Black Metal” se tornou um dos grandes clássicos da banda. Para encerrar ainda temos “Don’t Burn the Witch” e uma prévia do que seria o próximo trabalho, com a faixa “At War With Satan – Preview”.

Vale citar que a Dynamo lançou no Brasil uma versão do CD em slipcase recheada com nove faixas bônus, com versões alternativas para “Black Metal”, “Die Hard”, “Bursting Out”, entre outras.

Como já citado,
Black Metal é um verdadeiro clássico do metal, responsável pela criação de uma nova legião de jovens fãs cansados da hipocrisia que a sociedade e a religião lhes impunha todos os dias. 

Clássico, clássico, clássico...


Faixas:
A1. Black Metal - 3:40
A2. To Hell and Back - 3:00
A3. Buried Alive - 4:16
A4. Raise the Dead - 2:45
A5. Teacher's Pet - 4:41

B1. Leave Me in Hell - 3:33
B2. Sacrifice - 4:27
B3. Heaven's on Fire - 3:40
B4. Countess Bathory - 3:44
B5. Don't Burn the Witch - 3:20
B6. At War With Satan (preview) - 5:34

Discoteca Básica Bizz#092: Otis Redding - The Dock of the Bay (1968)


(Rogério de Campos, Bizz#092, março de 1993)

Não parecia ter erro no caminho de Otis Redding em dezembro de 1967. Dois meses antes, ele fora eleito o melhor cantor do ano pelos leitores da
Melody Maker, tomando o título que fora de Elvis Presley nos dez anos anteriores. Sua participação no festival Monterey Pop em junho tinha sido um arraso, de trazer lágrimas aos olhos de Brian Jones, que confidenciou para o fotógrafo Jim Marshall: "Nós, dos Stones, pensávamos que éramos a melhor banda do mundo, mas nem por um milhão de libras eu entraria em um palco depois de Otis Redding". Os próprios Beatles haviam interrompido a finalização de Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band para tentar - em vão - arrumar uma jam session com Booker T. and The MGs, a banda de apoio de Otis.

Redding era o coração da Stax, a principal gravadora de soul dos anos sessenta, junto com a Motown. James Brown podia ser o "Godfather" do soul, mas Otis era o "Rei" (apesar de Wilson Pickett e Solomon Burke) e mais: já conquistara definitivamente o público branco. Conseguira fazer uma fusão surpreendente da energia de Little Richard com a elegância de Sam Cooke. "Ele é o passado, o presente e o futuro. As performances de Otis Redding constituem o mais alto nível de expressão do rock'n'roll já realizado. Otis Redding é rock'n'roll", escrevia o jornalista Jon Landau.

Sua atividade era frenética em 1967. Duas turnês européias, dois álbuns (
King & Queen, com Carla Thomas, e Otis Redding Live in Europe), mais um disco gravado ao vivo no Whiskey A-Go-Go e material para diversas coletâneas lançadas nos anos seguintes. Só parou mesmo em outubro, quando teve que operar a garganta. O médico recomendou dois meses de repouso.

No início de dezembro, quando voltou ao estúdio, estava cheio de idéias e tinha cerca de trinta canções prontas para serem gravadas. Otis estava entusiasmado com Sgt Pepper's e queria que sua música fosse uma extensão do que os Beatles estavam fazendo.

A música manifesto dessa nova fase foi "(Sittin' On) The Dock of the Bay", co-escrita com o guitarrista do Booker T. and The MGs, Steve Cropper. A primeira pessoa para quem Otis mostrou a música foi seu road manager, Speedo Simms. "
Eu fiquei batendo na perna, seguindo o ritmo", contou Simms ao jornalista Peter Guralnick, "enquanto ele tocava o violão. Mas não consegui acompanhá-lo. Era a primeira vez que isso acontecia. Eu não conseguia entender. Mesmo depois, quando ele escreveu a letra, a canção ainda continuou me soando estranha." O próprio dono da Stax ficou na dúvida em gravar a faixa. O empresário de Otis deixou claro que não havia gostado. O cantor não vacilou. "É a hora de mudar minha música. As pessoas podem se cansar de mim."

No final de janeiro de 1968, o single "(Sittin' On) The Dock of the Bay" chegou ao primeiro lugar da parada pop americana, ficando nesta posição por quatro semanas (um feito nunca igualado por James Brown ou qualquer outro rei do soul). Mas o que era para se tornar o início de uma nova fase foi o epitáfio de Redding: três dias depois de gravar "(Sittin' On) The Dock of the Bay" o cantor sofreu um desastre de avião e morreu, aos 26 anos.

Este disco foi montado com algumas das últimas gravações de Otis e outras mais antigas, como "Ole Man Trouble" (que também já aparecia no álbum
Otis Blue, de 1965) e um outro grande hit de 1967, "Tramp", um dueto com Carla Thomas.

O que era para ser o
Sgt Pepper's da soul music ficou incompleto e The Dock of the Bay se tornou uma deliciosa colagem de trabalho de Redding. Um retrato do passado, do presente e do que poderia ter sido o futuro do soul.


Faixas:
A1. (Sittin' On) The Dock of the Bay - 2:38
A2. I Love You More Than Words Can Say - 2:50
A3. Let Me Come on Home - 2:53
A4. Open the Door - 2:21
A5. Don't Mess With Cupid - 2:28

B1. Glory of Love - 2:38
B2. I'm Coming Home to See About You - 3:03
B3. Tramp - 2:32
B4. Huckle-buck - 2:58
B5. Nobody Knows You (When You're Down and Out) - 3:10
B6. Ole Man Trouble - 2:36

Leia também: Aretha Franklin - I Never Loved a Man (The Way I Love You) (1967)

01/06/2009

Paradise Lost - In Requiem (2007)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ****

O Paradise Lost tinha tudo para ser uma das maiores bandas de heavy metal dos anos noventa. Os britânicos começaram a carreira lá em cima, evoluindo muito, e possuem pelo menos três discos entre os melhores da década (
Shades of God de 1992, Icon de 1993 e Draconian Times de 1995), fundamentais para a definição e evolução do que viria a ser conhecido como gothic metal.

Depois desse início, o combo liderado pelo vocalista Nick Holmes trilhou caminhos mais experimentais, que desagradaram os fãs e fizeram com que trabalhos como
One Second, Host e Believe in Nothing fossem alvo de pesadas críticas.

Pois bem, passados dez anos do lançamento original daquele que tanto a crítica quanto os fãs consideram o melhor álbum da banda (
Draconian Times), em 2005 o Paradise Lost deixou as experimentações de lado e lançou um álbum intitulado apenas com o nome da banda e que apresentava uma sonoridade muito próxima daquela que consagrou o grupo. A recepção foi boa, e isso deve ter animado Holmes e seus companheiros, pois o novo disco dos ingleses, In Requiem, segue o mesmo caminho, derramando fartas doses de inspiração em suas faixas.

Muito pesado, com grandes riffs de guitarra, melodias dramáticas e sombrias, andamentos quase marciais de bateria e uma interpretação magistral de todo o grupo, principalmente de Nick Holmes,
In Requiem mostra que quem um dia já foi rei jamais perderá a sua majestade. Suas onze faixas são heavy metal gótico de primeira qualidade, inspirado e feito com muito tesão. Algumas interferências eletrônicas ainda estão presentes, mas são quase imperceptíveis de tão discretas, funcionando mais como um complemento do som da banda do que em seu elemento principal (e essa mudança de foco é ótima).

In Requiem é, fácil, o melhor trabalho do Paradise Lost desde Draconian Times, e recoloca o grupo no lugar em que sempre deveria estar: a maior influência de toda a cena gothic metal.

Um discaço.


Faixas:
1. Never for the Damned - 5:02
2. Ash & Debris - 4:16
3. The Enemy - 3:39
4. Praise Lamented Shade - 4:03
5. Requiem - 4:25
6. Unreachable - 3:39
7. Prelude to Descent - 4:12
8. Fallen Children - 3:38
9. Beneath Black Skies - 4:13
10. Sedative God - 3:59
11. Your Own Reality - 4:03

Leia também: Começando a Coleção - Paradise Lost

Discos Fundamentais: Wilco - Sky Blue Sky (2007)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Tá ouvindo Beatles?”. Não foram uma, nem duas, nem três pessoas que me perguntaram isso. Bastava eu dar play no novo disco do Wilco para vários amigos lembrarem, na hora, do quarteto de Liverpool. Mas Sky Blue Sky, sexto álbum dos americanos, não é só isso (como se “só isso” fosse pouco).

Dizer que este novo trabalho representa uma volta às raízes não é correto. Ainda que em
Sky Blue Sky não existam resquícios do experimentalismo presente aos montes nos dois últimos discos do grupo (Yankee Hotel Foxtrot de 2002 e A Ghost is Born de 2004), o caminho mais básico tomado por Jeff Tweedy e seus companheiros parece apontar mais para o futuro do que para uma retomada das suas origens.

Aquele som, rotulado como
alt country, presente nos três primeiros registros da banda (A.M., Beign There e Summerteeth), ficou para trás. A simplicidade das canções de Sky Blue Sky segue outra linha. É claro que a maior influência da banda, o onipresente Neil Young, se faz notar em vários momentos, principalmente nos belos solos de guitarra, mas agora o bardo canadenses ganha novas companhias. As mais evidentes são os já citados Beatles, Steely Dan, a carreira solo de Paul McCartney e o John Lennon fase Mind Games.

As doces melodias, grudentas e agradáveis, vêm carregadas com um forte sabor setentista. “Shake It Off” e “You Are My Face” pagam tributo a Lennon. A presença de McCartney pode ser ouvida em “Walken” e na doce “Please Be Patient With Me”. A abertura do disco, com a melancólica “Either Way”, faz qualquer pessoa que possua um coração sorrir.

Entretanto, a grande música de
Sky Blue Sky atende pelo nome de “Impossible Germany”. Como já havia feito com “Jesus etc”, de Yankee Hotel Foxtrot, e com “Hummingbird”, de A Ghost is Born, Jeff Tweedy mostra enorme talento, construindo uma canção repleta de detalhes e nuances. Linhas vocais calmas, uma melodia inspirada e solos de guitarra que expressam amores vividos, corações partidos e olhares apaixonados.

Outros pontos altos são as lindas acústicas “Sky Blue Sky” e “What Light” (essa última totalmente Beatles), as baladaças “Hate It Here” e “Leave Me (Like You Found Me)” e o encerramento, com a emocional “On and On and On”.

Sky Blue Sky não é, como eu já disse antes, tão experimental quanto Yankee Hotel Foxtrot, mas isso não diminui seu valor, muito pelo contrário. Ele é um álbum muito mais audível, que resgata o sentido do termo pop music, tão mal usado ultimamente. Sky Blue Sky tem um ar e uma sonoridade que nos passam a sensação de que estamos ouvindo um trabalho gravado, por exemplo, em 1971.

Um disco esplêndido, de uma das melhores bandas dos últimos dez anos. Pra mim, o melhor que o Wilco já gravou.


Faixas:
1. Either Way - 3:07
2. You Are My Face - 4:38
3. Impossible Germany - 5:58
4. Sky Blue Sky - 3:23
5. Side With the Seeds - 4:16
6. Shake It Off - 5:42
7. Please Be Patient With Me - 3:19
8. Hate It Here - 4:33
9. Leave Me (Like You Found Me)  4:10
10. Walken - 4:27
11. What Light - 3:36
12. On and On and On - 4:01


Discos Fundamentais: Van Halen - OU812 (1988)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

A carreira do Van Halen é dividida em duas fases distintas: a com David Lee Roth e a com Sammy Hagar. Por mais que seja evidente o impacto, o valor histórico e a influência exercida pela primeira, a minha preferida ainda é a segunda.

A entrada de Sammy Hagar possibilitou ao Van Halen alçar vôos maiores, e não apenas comercialmente falando. As composições passaram a explorar elementos mais variados, indo muito além do que a banda já havia desenvolvido com Roth. O hard rock característico do grupo ganhou elementos ainda mais técnicos e ousados, que, tendo como características principais a guitarra de Edward Van Halen e o alcance vocal privilegiado de Hagar, fizeram o Van Halen se tornar, definitivamente, uma das maiores bandas da história.

OU812 é o segundo disco com a participação de Sammy. Mais entrosados, os músicos conceberam um trabalho inspirado, que mostra novas direções para a sua música. "Mine All Mine", faixa que abre o álbum, possui um intricado instrumental repleto de mudanças de andamento, em uma quebradeira infernal. Contrastando com este aspecto, "When It´s Love" e "Feels So Good" são duas baladas compostas cirurgicamente para levantar estádios e, não à toa, ambas figuram entre os maiores sucessos da carreira do grupo.

A inspiração farta marca presença em "Finish What Ya Started", com a guitarra de Eddie soando limpa e cristalina, e em "Cabo Wabo", dona de um riff pesadíssimo e com Sammy entregando, provavelmente, a sua melhor performance enquanto esteve ao lado do grupo.

Grande álbum, grande banda. Uma pena que desentendimentos tenham colocado um ponto final na relação de Hagar com o Van Halen, encerrando aquela que é considerada por muitos a melhor fase deste gigante do hard rock norte-americano.


Faixas:
A1. Mine All Mine - 5:14
A2. When It's Love - 5:39
A3. A.F.U. (Naturally Wired) - 4:30
A4. Cabo Wabo -7:04

B1. Source of Infection - 4:01
B2. Feels So Good - 4:31
B3. Finish What Ya Started - 4:24
B4. Black and Blue - 5:26
B5. Sucker in a Three Piece - 5:55

Discoteca Básica Bizz#091: Neil Young - Everybody Knows This is Nowhere (1969)


(Celso Pucci, Bizz#091, fevereiro de 1993)

Por estranho que pareça, um dos pilares do rock americano é o canadense Neil Young. Dono da conjunção voz/guitarra mais descarnada do rock'n'roll, ele sempre se manteve como um outsider, ao mesmo tempo fiel às raízes e franco-atirador nas mais diversas tendências.

A revolta inerente ao trabalho de Young deveu-se em boa parte à sua origem. De compleição frágil e saúde precária (além de epilético e diabético, teve poliomelite aos seis anos), ele compensava o temperamento introvertido com a dedicação à música. Tocou em clubes folk de Toronto e com grupos como The Squires e The Mynah Birds (cujo cantor era Rick James!), do qual saiu - com o baixista Bruce Palmer - para ir a Califórnia, no início de 1966.

Consta que a dupla estava presa num engarrafamento em Los Angeles quando topou com o carro onde estavam os guitarristas Stephen Stills e Richie Furay. Young já conhecera Stills há alguns anos no Canadá, e deste reencontro nasceu o Buffalo Springfield. Em dois anos de existência, o grupo formou - ao lado dos Byrds - umas das correntes mais influentes do rock sessentista, que eletrificou o country e o inseriu no contexto psicodélico da época. Apesar de ter grande repercussão, o Buffalo Springfield foi logo esfacelado devido às mudanças de membros e à rusgas constantes entre Young e Stills pela voz de comando.

Com o fim do grupo, Stills foi se agregar a David Crosby e ao inglês Graham Nash (egressos dos Byrds e dos Hollies, respectivamente) e - com a futura inclusão de Neil - formariam o supergrupo Crosby, Stills, Nash & Young, na virada dos 60/70.

Porém, entre essas duas experiências de sucesso fulminante, Young iniciara carreira solo, gravando um álbum com seu nome e a ajuda de amigos, como os produtores David Biggs, Jack Nitzche e o guitarrista Ry Cooder. Mas um encontro com um grupo chamado The Rockets - cujo núcleo era composto pelo guitarrista Danny Whitten, o baixista Billy Talbot e o baterista Ralph Molina - definiu seu passo seguinte.

Young tomara contato com a banda há alguns anos (através da namorada, a cantora folk Robin Lane), mas os compromissos com o Buffalo Springfield impediram-no de tocar com eles. Ao rever o grupo, Neil rebatizou-o como Crazy Horse e passaram a ensaiar juntos. Logo a trupe estava afiada para gravar (em apenas duas semanas) o álbum
Everybody Knows This is Nowhere, feito praticamente ao vivo em estúdio.

Desde a faixa de abertura (o hit "Cinnamon Girl"), o disco mostrava uma união absolutamente instintiva entre o country rock sem firulas do grupo e Neil se alternando entre os vocais e os delírios guitarrísticos. O ápice disso surgia em "Down by the River" e "Cowgirl in the Sand" (ambas com mais de nove minutos), em que os longos solos eram a extensão musical dos versos apaixonados de Young. "Round and Round (It Won't Be Long)" e "Running Dry (Requiem for the Rockets)" também não deixavam por menos: a primeira era um lírico tema acústico gravado apenas por Young, Whitten e Robin Lane, enquanto a outra contrapunha os vocais angustiados de Neil ao violino do ex-The Rockets, Bobby Notkoff. A sonoridade crua da faixa-título e de "The Losing End (When You're On)" completavam este registro antológico, acrescentando-lhe a pitada necessária de despojamento.

Young continuaria a forjar outras obras-primas pelas décadas seguintes, na maioria escoradas pelo Crazy Horse. Poderia se listar o aterrador Tonight's the Night (1975) - dedicado a Danny Whitten e Bruce Berry (roadie do CSN&Y), mortos por overdose em 1972 e 1973, respectivamente - ou o hard country rock de Zuma (também de 1975, já com Frank Sampedro na segunda guitarra); ou a dobradinha Rust Never Sleeps/Live Rust (ambos de 1979), com canções como "My, My, Hey, Hey (Out of the Blue)" e "Powderfinger", primeiro nas versões de estúdio e depois ao vivo. Uma interação que voltou a surpreender nas trovoadas retumbantes de Freedom (1989), Ragged Glory (1990) e o ao vivo Weld (1991, agregado ou não ao EP Arc, apenas com ruídos de feedback).

Depois das tormentas, Young retomou outra antiga colaboração com os Stray Gators em Harvest Moon (1992), um álbum límpido e eminentemente acústico inspirado em Harvest (1972), seu disco de maior sucesso. 

Mas no caso de Neil, seria impossível uma previsão quanto a um futuro musical. Afinal, enquanto a maioria de seus colegas de geração resignaram-se em viver de louros passados ou se acomodaram na auto-indulgência, a chama do rock'n'roll permanece viva em Young. Do alto de seus 47 anos, vividos sem enferrujar.


Faixas:
A1. Cinnamon Girl - 2:58
A2. Everybody Knows This Is Nowhere - 2:26
A3. Round & Round (It Won't Be Long) - 5:49
A4. Down by the River - 9:13

B1. The Losing End (When You're On) - 4:03
B2. Running Dry (Requiem for the Rockets) - 5:30
B3. Cowgirl in the Sand - 10:30

Girlschool - Legacy (2008)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Cotação: ****

Com mais de trinta anos de carreira, as meninas do Girlschool transbordam energia em Legacy, primeiro disco de inéditas do grupo desde Believe, de 2004. Afiadíssimo, o quarteto formado por Kim McAuliffe (vocal e guitarra), Jackie Chambers (guitarra), Enid Williams (baixo) e Denise Dufort (bateria) gravou um álbum que inscreve-se, sem maiores esforços, entre os melhores de sua longa carreira.

Formada em Londres em 1975 por McAuliffe e Williams, a banda inicialmente chamava-se Painted Lady, adotando a alcunha Girlschool apenas em 1978. Associadas erroneamente a New Wave of British Heavy Metal, as garotas sempre primaram por executar um hard rock simples e repleto de energia, que, nos momentos mais pesados, aproxima-se do heavy metal.

Legacy traz doze faixas e, na edição brasileira lançada pela Hellion Records, mais três bonus tracks. Como tempero adicional, o play conta com diversas participações especiais, e elas não são para qualquer um: marcam presença no álbum Tony Iommi e Ronnie James Dio do Heaven and Hell, e os brothers do Motorhead Lemmy Kilmister e Phil Campbell, além de "Fast" Eddie Clarke, guitarrista original do Motorhead e líder do Fastway. Completando o time de convidados estão a dupla das seis cordas do Twisted Sister, Eddie Ojeda e J.J. French, e o baixista Neil Murray, que tocou com gigantes como Black Sabbath, Whitesnake e um sem número de grupos.

Mas, ainda que, evidentemente, essas participações chamem atenção para o álbum e acrescentem personalidades distintas e variadas às faixas onde estão presentes, o principal atrativo de
Legacy está em Kim, Jackie, Enid e Denise. Inspiradas, as garotas compuseram uma coleção de canções que vai do hard alto astral de "Spend Spend Spend" e "Legend" às maciças doses de peso de "Zeitgeist", passando pelo rock simples, quase punk, de faixas como "Everything´s the Same" e "Other Side".

É claro que as participações de Lemmy e da dupla Dio e Iommi fazem com que as faixas onde marcam presença - "Don´t Talk to Me" e "I Spy" - sejam destaque, ao lado da versão para "Metropolis", do próprio Motorhead - com solo de "Fast" Eddie -, e as já citadas "Other Side", "Spend Spend Spend", "Legend" e "Zeitgeist".

A soma de todos esses fatores faz de
Legacy um disco pra lá de convincente, agradável de se ouvir e, como já falei anteriormente, um dos melhores registros de toda a discografia do Girlschool.

Fechando, vale dizer que
Legacy é dedicado a Kelly Johnson, ex-guitarrista da banda que faleceu em 2007 devido a um câncer na espinha - Kelly inclusive participa do álbum, tocando percussão na faixa de abertura, "Everything´s the Same".

Hard rock sem enrolação, direto ao ponto e repleto de inspiração: essa frase define esse ótimo disco do Girlschool.


Faixas:
1. Everything's the Same
2. Other Side
3. I Spy (Girlschool Mix)
4. Spend Spend Spend
5. Whole New World
6. Just Another Day
7. Legend
8. Still Waters
9. Metropolis
10. Don't Mess Around
11. Zeitgeist
12. Don't Talk to Me (ft. Lemmy)
13. I Spy (Dio-Iommi Mix) (ft. Dio)
14. Emergency
15. London

Podcast Collector´s Room#004


Por Ricardo Seelig
Colecionador

No ar a nova edição do podcast da Collector´s Room. Nesta nova edição temos as sessões Disco da Edição, Bloco do Colecionador e, é claro, um passeio pelos melhores sons de todas as décadas.

O Podcast Collector´s Room é um programa semanal produzido e apresentado por Ricardo Seelig, editor da Collector´s Room, sempre com muita música e informação. Toda segunda-feira uma nova edição é disponibilizada aqui no blog. E o que é melhor: com qualidade de 128kbps e duração próxima aos 80 minutos, pra você baixar, gravar em um CD e ouvir onde quiser.


Você pode também ouvir o podcast da Collector´s Room em streaming no nosso site, na barra lateral do blog, e no site da rádio Shock Box - clique no banner da rádio e divirta-se. Não precisa baixar, é só dar play.

Mandem emails para ricardoseelig@gmail.com com dicas, críticas, sugestões, perguntas, enfim, coloquem a boca no trombone que eu estou aguardando a participação de todos vocês.



30/05/2009

Histórico do Rock Progressivo


Por Ronaldo Rodrigues
Colecionador
Apresentador do programa Estação Rádio Espacial

Há quem diga que deveria chamar-se rock progressista, por ser tratar de um estilo que trouxe evolução musical à linguagem do rock. Mas independente de um ou mais nomes, o advento dos movimentos contraculturais dos anos sessenta, a influência das drogas alucinógenas e uma congregação de várias formas de arte dentro da temática psicodélica impulsionava novas buscas em todos os sentidos dentro do rock – nos temas, na mistura de estilos, na agregação de influências, na musicalidade, no público.

Esse momento todo de efervescência cultural da juventude no mundo atraiu a atenção de uma nova geração que, ao mesmo tempo, rechaçava a caretice tradicional dos conservatórios mas não queria fazer o jogo barato da futilidade ou ser simplista na sua expressão musical. O rock progressivo nasceu assim – tanto de um amadurecimento musical do rock, nesse cenário de buscas e inovações, como de uma nova geração que apostou que sua moderna erudição conseguiria atingir a juventude. E atingiu.

Muitos músicos que viriam a formar grupos de rock progressivo já estavam na estrada ao longo dos anos sessenta, geralmente em combos de rhytm & blues, pop ou jazz. Grande parte tinha formação musical clássica ou jazzista, mas as necessidades materiais e a vontade de exercer o talento superavam os anseios musicais mais profundos. A revolução sonora causada no biênio 1966-1967 por gente como Beatles, Beach Boys, Moody Blues, The Nice, Jimi Hendrix Experience, Cream, Bob Dylan e tantos outros abriu caminho para novas experiências sonoras. O próprio público anseiava novas coisas, o paradigma geral da época era esse – a imaginação no poder, poder jovem, liberdades individuais, quebra de barreiras, desapego. 

Nesse período da metade da década, surgem experiências embrionárias de fusão do rock com a música clássica, com o chamado pop barroco e com o jazz em alguns grupos de rock psicodélico. A influência da música regional e étnica também crescia nos grupos, principalmente as sonoridades típicas européia e indiana. E tudo isso, de certa forma, era assimilado pelo jovem público, cansado das canções superficiais sobre amor ou músicas feitas simplesmente para chacoalhar o esqueleto. Os tempos eram pesados – guerra do Vietnã, conflitos raciais nos EUA, revoltas estudantis, ditaduras ... e o som urgia representar aquilo tudo, ou pelo menos ser um refúgio às realidades desconsolantes. 

Enfim, a psicodelia representou a nova era da música, a evolução, o amadurecimento do rock e de boa parte de seu público. E de suas entranhas surgiu a nova linguagem, em que o senso de busca pelo novo e pela livre expressão era o mesmo, mas a premissa era diferente – musicalmente, alçava-se algo mais avançado e refinado.

Entre 1967 e 1968, alguns trabalhos de proposta bastante avançada são lançados por bandas de música jovem, aos quais posteriormente foram dados os títulos de “precursores do movimento progressivo”. A verdade é que todo um cenário musical da época deu sua contribuição para o estabelecimento sólido da linguagem nos anos setenta. Mas é impossível negar a contribuição de determinados trabalhos para esse desenvolvimento, como
Days of Future Passed do Moody Blues, Thoughts of Emerlist Jack do Nice, This Was do Jethro Tull, Absolutely Free de Frank Zappa & Mothers, Saucerful of Secrets do Pink Floyd, o debut do Procol Harum e do Traffic. 

O jazz também se aproximava do rock através da mente inquieta do visionário Miles Davis. Em 1969, alguns marcos para o estilo ocorreram na Inglaterra – In the Court of the Crimson King do King Crimson, a estréia do Yes e Aerosol Grey Machine do Van Der Graaf Generator - trabalhos iniciais de bandas que se tornariam alguns dos principais ícones do movimento. 

Na cena de cada país europeu, a consolidação do estilo se deu de forma particular. Na Alemanha, a experimentação com novos instrumentos e combinações inusitadas acabou gerando um movimento que privilegiava os climas, as viagens, a vanguarda sonora. O virtuosismo, a influência clássica ou jazzística acabou sendo agregada um pouco mais tarde, e de maneira bem peculiar também. Na Itália, o movimento cresceu já influenciado pela primeira geração de bandas inglesas, nos idos de 1972-1973, somado à tradição musical italiana. No norte da Europa, os grupos eram mais miscigenados e bastante antenados com tudo o que rolava no cenário – o rock pesado, o som viajante, o virtuosismo clássico, o jazz.

No fim dos anos sessenta e começo dos anos setenta o termo “progressivo” era cunhado para grupos bastante díspares e com propostas bastante diferenciadas entre si. Os grupos, do que hoje se convencionou chamar rock progressivo, ainda estavam definindo suas identidades. Esse ínicio é interessante justamente por isso. Depois de delineado o estilo, alguns grupos se acomodaram em zonas de conforto, o que de certa forma, foi uma maneira de assumir a identidade conquistada.

Unidos por esse posterior senso de categorização, do qual dificilmente os críticos musicais conseguem escapar, os grandes grupos de rock progressivo são bastante particulares em suas sonoridades, temáticas, abordagens e influências. Mas geralmente consegue-se destacar duas grandes vertentes – a vertente influenciada pelo jazz e a vertente influenciada pela música erudita/clássica. Há quem transite nas duas. E também há prodigiosos grupos que não são nem uma coisa nem outra. 

O termo hoje coleciona diversas visões para a proposta artística e experimental do rock – fusion, prog eletrônico (raiz da música eletrônica), space rock, zeuhl, RIO (rock in oposition), krautrock. 

Rock progressivo é um termo que sempre remete à vanguarda, à inovação, à ousadia musical. Som para fazer a cabeça. A interação com outras formas de arte é notável na linguagem progressiva – a arte gráfica das capas dos discos, cenários, iluminação e figurino dos músicos, a teatralidade das performances, a poesia nas letras das canções, a literatura e a filosofia como expressão dos conceitos dos álbuns.

Entre 1972 a 1975 grupos como Yes, Gentle Giant, King Crimson, Pink Floyd, Camel, Genesis, Focus, Mike Oldfield e Emerson Lake & Palmer entre outros, viveram seu ápice criativo e comercial. O movimento, que é majoritariamente europeu, teve repercussão mundial, na América Latina e do Norte, na Eurásia, no Japão, na Austrália. Era a onda do momento – de jingles de TV à programação das rádios, tudo aspirava capturar aquela sonoridade. Estilos como o jazz, o funk, o pop e o soft rock queriam morder um pedaço daquele saboroso filão cheio de possibilidades, sempre se aproximando e captando algo daquele estilo. 

De certa forma, o ápice do rock progressivo foi um momento perigoso. Os trabalhos das grandes bandas passaram a ficar cada vez mais pretensiosos e minimalistas. Músicas longas, discos com uma única canção, longas passagens instrumentais, temáticas extremamente distantes da realidade em álbuns conceituais, som quadrafônico, ruídos, experiências sonoras e outros “exageros” (no dizer dos rechaçadores de plantão) suscitaram movimentos de resposta à estética progressiva. Enquanto o declínio de popularidade parecia despontar no horizonte dos grandes grupos, com o advento do movimento punk e da disco music, nos países periféricos (das regiões citadas) o caldeirão sonoro progressivo estava a todo vapor.

Nos anos oitenta as idéias e ideais dos anos passados pareciam estar desgastadas. O show bussiness também avançou para cima dos grupos e dificultou a abordagem de outrora. O estilo passou a enveredar novos caminhos e se adaptar aos novos tempos e anseios do público, mas a popularidade e relevância de antes nunca mais foi atingida. 

Não se pode contar tudo de maneira generalizada, sempre houve e há até hoje (independente da época em que surgiram) grupos que honestamente buscam novas sonoridades sem se importar muito com o que se foi ou com o que se passou, guiados pelo mesmo espírito ousado do auge do estilo. O tempo, com certeza, trará o devido reconhecimento aos heróis.

Discoteca Básica Bizz#090: Yardbirds - Smokestack Lightning (1991)


(Arthur G. Couto Duarte, Bizz#090, janeiro de 1993)

Dentre as formações inglesas geradas nos anos sessenta, o quinteto Yardbirds sempre foi a mais difícil de se compartimentar. Além de catalisador do blues rock, o grupo inspirou os adeptos do garage sound, colaborou para o advento da psicodelia e estabeleceu as bases das futuras tendências hard rock e heavy metal. Sem contar que foi de suas fileiras que saíram três dos principais guitarristas da história: Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page.

Fundado em 1963 a partir do ex-Metropolitan Blues Quartet, o grupo - Keith Relf (voz, gaita), Anthony "Top" Tophman (guitarra solo), Chris Dreja (guitarra base), Paul Samwell-Smith (baixo) e Jim McCarty (bateria) - mudou de nome quando viu o termo yardbird (um vagabundo que vivia em meio às estradas de ferro) num livro de Jack Kerouac. A partir daí, com Clapton no lugar de Tophman, consolidariam a fama nas domingueiras do Crawdaddy Club - o mesmo que, pouco antes, havia projetado os Rolling Stones.

Nesta época, o set do quinteto era composto do mesmo rhythm'n'blues à la Chicago adotado por outros grupos britânicos, mas com uma diferença crucial: suas versões eram mais experimentais e recheadas por improvisos - os rave ups - extra longos. Por outro lado, à medida que Clapton se firmava como solista, seu relacionamento com os colegas deteriorava a olhos vistos. Ferrenho purista do blues, ele preferiu sair quando o grupo resolveu aproximar-se do pop.

Só que o pop dos Yardbirds nada tinha a ver com o feijão-com-arroz das paradas. Com Jeff Beck a banda desenvolveu ousadas pesquisas em estúdio. São os casos de "Still I'm Sad" (derivada de um canto gregoriano do século XIII), cuja profusão de ecos dá a impressão de ter sido gravada numa catedral, e "Heart Full of Soul", um dos primeiros sinais da influência da música hindu no rock - vide a simulação do som de uma cítara feita por Beck através de um pedal fuzz.

Recapitulando este trajeto, as 67 faixas dos CDs duplos "Smokestack Lightning Vol. 1 / Blues, Backtracks & Shapes of Things Vol. 2" (ambos Sony) representam virtualmente o melhor dos Yardbirds. No primeiro volume dessa compilação, o enfoque recai nas origens do grupo. Aí estão seu single de estréia ("I Wish You Would"/"A Certain Girl"), as antológicas "I Ain't Got You" e "I'm a Man", takes ao vivo gravados no Marquee Club, coisas inéditas como "Putty (In Your Hands)" (um original das Shirelles), mais a íntegra dos álbuns For Your Love e Having A Rave Up With The Yardbirds - esse último com "You're a Better Man Than I" e "The Train Kept a Rollin'", gravadas no mítico estúdio Sun, em Memphis, sob supervisão de Sam Phillips.

Já o segundo volume destaca o concerto que o grupo fez com o bluesman Sonny Boy Williamson em 1963. Só pelas dez faixas que marcaram o encontro estaria garantida a supremacia dessa coletânea sobre as demais do mercado, porém há muito mais: sobras das sessões do álbum Roger, The Engineer, registros raros de um show no Crawdaddy (incluindo versões para "Who Do You Love" e "Let It Rock"), além da torrente de feedbacks de "Shapes of Things" e "Stroll On", documento da aparição do grupo no filme Blow Up, de Michelangelo Antonioni - e um dos poucos registros do ataque dual de lead guitars da dobradinha Beck/Page.

Em suma, tanto pelo aspecto histórico quanto pela qualidade intrínseca do material presente, estas retro-edições se impõem como itens essenciais.


29/05/2009

Discos Fundamentais: Fastway - Fastway (1983)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Recém-saído do Motorhead por causa de tretas com Lemmy, "Fast" Eddie Clarke iniciou um projeto com Pete Way, baixista do UFO, que na época também estava sem banda, mas Way acabou abandonando o guitarrista no meio do caminho, seduzido por uma oferta tentadora para tocar ao lado de Ozzy Osbourne em sua banda solo. Clarke não se deu por vencido, chamou o ex-batera do Humble Pie, Jerry Shirley, garimpou o novato David King em noitadas sem fim e, juntos, entraram em estúdo para registrar um dos maiores clássicos do hard oitentista.

Fastway é um discaço, e uma das principais razões para isso é um fator que parece ter saído de moda hoje em dia: o guitarrista, efetivamente, cria riffs matadores, sobre os quais as músicas se desenvolvem. Esse é, efetivamente, um álbum voltado para a guitarra, mas essa expressão não tem o mesmo sentido daquele empregado atualmente, onde "orientado para a guitarra" serve para definir discos de caras como Joe Satriani e Steve Vai. Aqui, "Fast" Eddie Clarke saca um arsenal de riffs matadores, repletos de melodias, ásperos e pesados, que sustentam as composições ao lado do vocal perfeito de David King, uma espécie de Robert Plant adolescente e com a taxa de testosterona muito acima do normal. Completando o time, Shirley imprime seu estilo clássico na bateria, cheio de viradas e levadas empolgantes.

A produção do lendário Eddie Kramer é mais um fator que soma no resultado final de
Fastway, pois consegue fazer os instrumentos soarem fortes e crus, como se a banda estivesse em um boteco tocando para os amigos. 

Entre as faixas, destaques para "Easy Livin´", "Feel Me Touch Me (Do Anything You Want)", "All I Need is Your Love", a baladaça "Another Day", "Heft!" (que lembra, e muito, aquela canção que a banda do filme Quase Famosos toca em um show - ouça e comprove), "We Become One" e a mais do que clássica "Say What You Will", que para nós, bangers brazucas dos anos oitenta, tem um significado ainda maior, pois era o tema de abertura da série Armação Ilimitada, da Rede Globo.

Uma rifferama animal e inspiradíssima marca o álbum de estréia do Fastway, transformando-o em uma das jóias perdidas do hard rock oitentista. Se você não conhece, ouça que ainda dá tempo.


Faixas:
A1. Easy Livin' - 2:47
A2. Feel Me, Touch Me (Do Anything You Want) - 3:28
A3. All I Need is Your Love - 2:32
A4. Another Day - 4:41
A5. Heft - 5:38

B1. We Become One - 3:59
B2. Give It All You Got - 3:01
B3. Say What You Will - 3:20
B4. You Got Me Runnin' - 3:04
B5. Give It Some Action - 4:12

Discoteca Básica Bizz#089: Gene Vincent - Gene Vincent and The Blue Caps (1957)


(René Ferri, Bizz#089, dezembro de 1992)

Os fãs de rock'n'roll de todas as idades costumam se referir a Gene Vincent com hiperbólica admiração. Gene é apaixonante e sua identificação com o rock é tão forte que parece que se o rock não existisse ele o teria inventado. Isso não impediu que sua carreira fosse traumática, trágica e errática, nem que virasse um farrapo, morrendo aos 36 anos de idade em 1971, alcoólatra, desesperado e quase esquecido.

Sua boa fase foi entre 1956 e 1960, quando lançou nesse curto período dezesseis singles e seis LPs de pura dinamite, todos pelo selo Capitol. Seu melhor álbum - onde Gene atingiu seu pico - foi o segundo, chamado simplesmente Gene Vincent and The Blue Caps, editado no primeiro semestre de 1957. Na época, o rock'n'roll começava a ser assimilado pelas grandes companhias de discos, instigadas pelo enorme sucesso de Elvis na RCA, mas ainda não sabiam lidar com o produto. Ken Nelson, produtor de Vincent e grande profissional, acreditava poder dirigi-lo como a um Sinatra ou a um Nat King Cole. Mas no segundo álbum, Gene e os Blue Caps pareciam desgarrados do controle do produtor e cometeram um disco com fogo e energia bruta.

Gene, com sua gangue, gravou o álbum inteiro ao vivo - direto e sem playbacks - num estúdio em Nashville, no espaço de três dias em outubro de 1956. Foi a última sessão com os Blue Caps originais: Cliff Gallup, Willie Williams (guitarras), Dick Harrell (bateria) e Jack Neal (baixo). Os técnicos de som enlouqueceram com as dificuldades para gravar aquela música selvagem ao vivo. Foi o primeiro álbum de rock tocado inteiramente com instrumentos eletrificados no formato baixo, guitarra-base, guitarra-solo, mais a bateria convencional tocada aos berros por Dick Harrell. E nenhum sax, piano ou coro de vozes para atrapalhar. Aparentemente, a banda teve liberdade também na escolha do repertório, fugindo da síndrome two hits, ten fillers (dois sucessos e outras dez faixas para encher linguiça) que assolou o mercado de LPs até meados dos anos sessenta.

As canções "lentas" como "Unchained Melody", "Blues Stay Way From Me" e "I Sure Miss You" estavam perfeitamente adequadas à voz calorosa de Vincent, que também era um excelente cantor de baladas. As outras faixas, rocks como "Red Blue Jeans and a Pony Tail", "Cat Man", "You Better Believe" e "Pink Thunderbird" tem na maioria a autoria de Gene ou dos Blue Caps. 

Mais um ano e os pesadelos começariam a assombrar a vida de Vincent. A mídia, voltada para os anseios da classe média próspera, achou que não existia lugar para um rocker lascivo, classe operária, com uma perna aleijada e cabelos ensebados. Gene ficaria sozinho com seu orgulho e arrogância, brigando contra o sistema. E perdeu.


Faixas:
1. Red Blue Jeans and a Ponytail
2. Hold Me, Hug Me, Rock Me
3. Unchained Melody
4. You Told a Fib
5. Catman
6. You Better Believe
7. Cruisin'
8. Double Talkin' Baby
9. Blues Stay Away from Me
10. Pink Thunderbird
11. I Sure Miss You
12. Pretty Pretty Baby

28/05/2009

Discos Fundamentais: Soundgarden - Louder Than Love (1989)


Por Alessandro Cubas
Colecionador
Collector´s Room

Formado no ano de 1984 na cidade de Seattle, o Soundgarden é considerado um dos maiores nomes do grunge. 

O primeiro álbum da banda, Ultramega OK, foi lançado em 1988 e este Louder Than Love é o segundo registro oficial do quarteto. Louder Than Love é um bom álbum e bem distante musicalmente do que a banda nos apresentaria futuramente.

Produzido por Terry Date (Ozzy Osbourne, Pantera, Overkill) e pela própria banda,
Louder Than Love é um trabalho que mostra um grupo um tanto quanto obscuro, com guitarras sujas, riffs pesados, muita melancolia e um belo trabalho do vocalista Chris Cornell, hoje considerado um dos melhores vocalistas do rock. A maioria das faixas também nos mostra que a maior influência da banda na hora de compor era, com certeza, o Black Sabbath.

O álbum já começa neste clima com “Ugly Truth”, com um solo
sabbáthico do guitarrista Kim Thayil. A segunda, “Hands All Over”, virou clipe. Adiante nos deparamos com “Gun”, com um riff arrastado que no começo chega a lembrar as bandas doom, passando ainda depois por riffs com palhetadas abafadas e outros mais rápidos, assim como o solo. Também destaco as faixas “Loud Love” e “Big Dumb Sex”.

Este álbum ainda deu origem, no ano seguinte, ao bom ao vivo
Louder Than Live, que também saiu em vídeo, sendo todo o show com imagens em preto e branco.

A formação contava com Chris Cornell (V/G), Kim Thayil (G), Hiro Yamamoto (B) e Matt Cameron (D), sendo que o baixista deixou a banda após o disco ao vivo.

O disco seguinte,
Badmotorfinger, de 1991, ainda nos traz bons momentos, mas também um pouco do que o grupo passaria a ser.

Apesar de serem considerados um dos grandes nomes do grunge, o Soundgarden, principalmente nesta época, tinha um som bem diferente das bandas deste estilo. Acredito que se o Soundgarden não fosse da cidade de Seattle provavelmente não teria este rótulo, mas por outro lado talvez não seria tão reconhecida hoje em dia.


Faixas:
1. Ugly Truth - 4:26
2. Hands All Over - 6:00
3. Gun - 4:42
4. Power Trip - 4:09
5. Get On The Snake - 3:44
6. Full On Kelvin’s Mom - 3:37
7. Loud Love - 4:57
8. I Awake - 4:21
9. No Wrong No Right - 4:47
10. Uncovered - 4:30
11. Big Dumb Sex - 4:11
12. Full On (Reprise) - 2:42

Começando a coleção: Helloween


Por Alessandro Cubas
Colecionador
Collector´s Room

Fundada no ano de 1987 pelo guitarrista Kai Hansen, o Helloween é considerado hoje o precursor no heavy metal melódico, e desde então se tornou inspiração para as bandas do estilo. 

O grupo passou por muitos altos e baixos, como trocas constantes de formação, períodos de inatividade e até alteração no nome do conjunto, que no início se chamava Gentry, mudando para Second Hell e ainda Iron Fist, só depois sendo batizada definitivamente como Helloween, hoje sinônimo de metal melódico. 

Após participar da famosa coletânea Death Metal (1984) com as faixas “Metal Invaders” e “Oernst of Life”, a banda foi contratada pela gravadora Noise Records, e este foi o primeiro grande passo para os alemães se tornarem um dos nomes mais populares do metal e ficarem lado a lado com seus conterrâneos do Scorpions e Accept, tornando o heavy metal alemão um dos mais conceituados do mundo.

Keeper of the Seven Keys Part I (1987) ****1/2

Após o lançamento do Walls of Jericho em 1985, que contou em sua formação com Kai Hansen (V/G), Michael Weikath (G), Markus Grosskopf (B) e Ingo Schwichtenberg (D), o Helloween recrutou Michael Kiske para os vocais e esse foi um ponto crucial para o resultado de Kepper of the Seven Keys, pois Kiske exerceu sua função de forma magnífica, deixando ainda hoje muitos ditos vocalistas de boca aberta com sua performance. 

No início a idéia da banda era lançar um trabalho duplo, porém a gravadora se recusou em lançar o trabalho neste formato e o grupo concordou em lançá-lo em duas partes. Esta primeira está recheada de hinos do estilo, começando por “I’m Alive” com riffs rápidos, belas melodias e um refrão marcante. Na sequência nos deparamos com um grande trabalho de Kiske e sua potente voz em “A Little Time”, seguida pela melódica “Twilight of the Gods”, que nos traz mais uma ótima performance do vocalista e em alguns riffs cavalgados chega a nos lembrar um pouco o Iron Maiden.

“A Tale That Wasn’t Right” é a balada do álbum e abre caminho para “Future World”, a mais clássica deste play dos alemães. Antes de fechar a banda ainda nos presenteia com a longa “Halloween”, que pode ser considerada a mais pesada do disco. Algumas versões do álbum ainda trazem a power metal “Judas”, que saiu originalmente no Walls of Jericho.

Após ouvir trabalhos como este pensamos como temos bandas covers do Helloween espalhadas por aí, pois este estilo, salvo por raras exceções, é pródigo em grupos repetitivos e que copiam descaradamente esta fase dos alemães.  

Keeper of the Seven Keys Part II (1988) *****

Assim como a primeira parte dos
Keppers, este trabalho nos traz ótimas composições e é considerado por muitos ainda melhor do que seu antecessor. Contando ainda com a mesma formação, os alemães nos surpreendem com músicas tão boas quanto as anteriores, começando por “Eagle Fly Free”, que é o maior clássico já composto pelo Helloween, uma empolgante canção de liberdade. 

“You Always Walk Alone”, além da bela performance de Michael Kiske, contém um excelente trabalho na parte instrumental, principalmente nas guitarras. “Rise and Fall” nos transmite um clima divertido, assim como a seguinte, “Dr Stein”, que é outro destaque absoluto do disco.  Kiske detona novamente em “We Got the Right” e “Save Us”. Ainda temos “March of Time” e “I Want Out”, um hino do heavy metal melódico. O trabalho encerra com a épica “Kepper of the Seven Keys”, excelente composição de Weikath.

Este álbum também antecedeu o ao vivo
Live in the U.K. (1989), que foi o último trabalho com esta formação do Helloween. Após este ao vivo Kai Hansen deixou a banda, formando o não menos que importante Gamma Ray. Michael Kiske e Ingo Schwichtenberg ainda ficaram no grupo até o álbum Chameleon, de 1993. Após, Kiske seguiu uma carreira solo distante do peso do metal e Ingo, que já vinha sofrendo de esquizofrenia, infelizmente cometeu suicídio em 1995.

Em 2005 o Helloween ainda lançou a terceira parte do
Kepper of the Seven Keys, porém sem alcaçar a mesma repercussão das primeiras duas, o que já era de se esperar, pois ambas são consideradas obras-primas dentro não só do metal melódico, mas também do heavy metal.
Sem sombra de dúvidas estes trabalhos foram o ápice criativo da banda, que entre outras coisas foi a criadora de um novo gênero dentro do metal.
Happy happy Helloween ...

Better Than Raw (1998) ***1/2

Após a saída do vocalista Michale Kiske muitos fãs acharam que seria o fim do Helloween, porém em 1994 o álbum Master of the Rings nos apresentou o novo vocalista, Andi Deris, que veio da banda de hard rock Pink Cream 69, e nos trouxe um bom trabalho em sua estreia e no álbum seguinte, The Time of the Oath (1996), trabalhos estes que contém ótimas composições como “Sole Survivor”, “Where the Rain Grows”, “Wake up the Mountain”, entres outras, e são considerados pela maioria dos fãs do Helloween como os melhores da fase Deris, por isso sei que terei muitas opiniões contrárias à minha quanto à escolha dos discos para essa sessão, mas Better Than Raw, além de um pouco mais pesado que os anteriores, é um grande CD de heavy metal.

Além de Andi Deris, a formação contava agora com os antigos membros Michael Weikath e Markus Grosskopf, além do guitarrista Roland Grapow, que já havia estreado no álbum
Pink Bubbles Go Ape (1991), e com o ex-Gamma Ray Uli Kusch, um monstro das baquetas e que também se revelou um bom compositor.

Após a introdução “Deliberately Limited Preliminary Prelude Period in Z”, a banda entra com a pesada “Push”, que abre o álbum a mil por hora. O play segue com “Falling Higher”, também com palhetadas rápidas e abafadas antes de cair de vez na parte melódica; “Hey Lord”, uma das mais aclamadas do álbum e que possui um refrão mais do que grudento; “Don’t Spit On My Mind” abre o caminho para “Revelation”, que é outra faixa bastante pesada, com um bom trabalho de todos os músicos e, para mim, a melhor música deste disco.

O play ainda tem “Time” e “I Can”, e ambas podem ser consideradas destaques. “A Handfulof Pain” nos traz uma composição um pouco mais cadenciada, mas não menos poderosa. A interessante “Lavdate Dominvm” é cantada em latim, e “Midnight Sun” também nos traz mais guitarras pesadas em meio a belas melodias. O CD ainda tem a obscura “A Game We Shouldn’t Play” como bonus track.

Neste mesmo ano, na turnê deste álbum, a banda também tocou pela segunda vez no Brasil junto com o Iron Maiden, que na época divulgava seu novo trabalho,
Virtual XI, com o vocalista Blaze Bayley. Desde então o grupo vem tocando constantemente em terras brazucas.

Após este disco o Helloween ainda lançou
Metal Junkebox, apenas com covers, em 1999; o obscuro The Dark Ride em 2000; Rabbit Don’t Come Easy em 2003; o já citado anteriormente Kepper III em 2005, sendo que em 2007 foi lançado um ao vivo para a turnê do álbum, mesmo ano que a banda lançou Gambling With the Devil, o último registro até agora.

Discos Fundamentais: Armageddon - Armageddon (1975)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

O Armageddon (não confundir com o homônimo alemão) foi um grupo formado e liderado por Keith Relf, ex-vocalista dos Yardbirds e do Renaissance. Relf estava interessado em tocar um som mais pesado, na linha dos nomes que estavam surgindo na Europa e nos Estados Unidos naqueles primeiros anos da década de setenta.

Para isso, chamou o guitarrista Martin Pugh (Steamhammer) e o baixista Louis Cennamo (Steamhammer, Renaissance). Após testar vários bateristas sem sucesso, deixou a Inglaterra pra trás e se mandou para Los Angeles com Pugh e Cennamo e dois objetivos: conferir a cena hard rock que rolava na Califórnia e encontrar um baterista para completar o seu novo grupo. Em L.A. Relf conheceu Bobby Caldwell (Captain Beyond) em um clube, convidou-o para uma jam e pronto: nascia o Armageddon.

O quarteto começou a ensaiar algumas músicas que Relf já tinha prontas, viu nascer novas ideias em ensaios e foi para o estúdio, onde gravou um dos melhores discos de hard rock dos anos setenta. 

Com apenas cinco faixas, Armageddon, o disco, em nada lembra os trabalhos anteriores de Keith Relf. O que sai dos alto falantes é um vigoroso hard, com um estupendo trabalho da guitarra de Martin Pugh e com a classe e o talento habituais de Bobby Caldwell. Entre as músicas, destaque imenso para a abertura com "Buzzard", com um excelente riff de Pugh e ótimos vocais de Relf, mas todas as faixas (eu disse TODAS) são excepcionais, e cativam imensamente até hoje. Grande álbum, clássico indiscutível!

Infelizmente o Armageddon não seguiu adiante em virtude da morte prematura de Keith Relf, eletrocutado em um acidente doméstico no dia 14 de maio de 1976, aos 33 anos.

Imperdível!


Faixas:
A1. Buzzard - 8:16
A2. Silver Tightrope - 8:23
A3. Paths and Planes and Future Gains - 4:30

B1. Last Stand Before - 8:23
B2. Basking in the White of the Midnight Sun - 11:24
- Warning Comin' On
- Basking in the White of the Midnight Sun
- Brother Ego
- Basking in the White of the Midnight Sun (Reprise)

Discoteca Básica Bizz#088: Bo Diddley - The Chess Box (1990)


(Mauro Beting, Bizz#088, novembro de 1992)

"Bo Diddley", "Bo Diddley is a Gunslinger", "Hey Bo Diddley", "Story of Bo Diddley", "Bo Diddley's Dog", "BoJam", "Bo Guitar", "Diddley Daddy". Não são títulos de autobiografias, mas canções de um dos papas do rock, blues e rhythm'n'blues. Louvado por Deus e Jesus & Mary Chain, que para ele gravaram "Bo Diddley is Jesus". Amém.

Ella McDaniel inventou um músico maior que a pretensão. Ella é ele, Bo Diddley, que aos 16 anos boxeava e ouvia dos fãs: "Go, Bo Diddley". Ele não sabia o que isso significava. Mas gostou do apelido, que virou nome e primeiro compacto, em 1955. Também o maior sucesso e faixa que abre The Chess Box, uma caixa de dois CDs com 45 canções, quatro raridades e nove faixas inéditas, junto com um livreto de 24 páginas.

Bo era personagem de si próprio. Criatura maior que o criador. Nascido em 28 de dezembro de 1928, Ella Bates tomou da tia Gussie McDaniel o sobrenome. Com ela saiu do cafundó de McComb, Mississipi. A mãe, pobre, o deixou na mão da tia, que o levou a Chicago e ao estudo do violino clássico.

Aos doze ouviu o primeiro disco de blues, num lar envolto na religiosidade do gospel. John Lee Hooker o enfeitiçou. Um ano depois, a irmã Lucille o presenteou com o primeiro instrumento. As luvas de boxe vieram a seguir. Aos 15 anos, Ella era semiprofissional e ganhava batendo os trocados para viver. Ganhou nas batidas o apelido de toda a vida.

Da brincadeira da primeira banda, The Hipsters, ficou o estilingado nas cordas da guitarra. De sons perdidos na memória vieram os tambores da África de sua música. Da amizade de Jerome Green ressoaram as maracas de Cuba na percussão. Das canções de pergunta-e-resposta dos shouting blues que ouvia ecoaram as harmonias vocais, que influenciariam o rap; da guitarra tocada com aulas de violino estalaram os acordes que Bo não soube explicar, do mesmo jeito que não sabe por que é Bo.

Rolling Stones, Buddy Holly, Animals, Yardbirds, Shadows, Bobby Vee, Eric Clapton, Jimi Hendrix, The Doors, The Who. O "who´s who" do rock e blues bebeu das canções e se envenenou no beat da square guitar, a guitarra retangular que Bo bolou e construiu em 1958. Um instrumento engraçado como o criador.

Chess Box abre com o groove inconfundível de "Bo Diddley", seu maior sucesso, que chegou ao Top#10 de rhythm & blues em 1955. Punhados de artistas dariam a alma e os bolsos pelo lado B do compacto de estréia, o escorregadio blues "I'm a Man". "Pretty Thing" deu nome a uma banda inglesa dos anos sessenta. "Who Do You Love?" pergunta e tem como resposta os suspiros das muitas senhoras Diddley. "Before You Accuse Me" é outra paulada bluesy.

O primeiro CD, que compreende canções de 1955 a 1959, tem três inéditas, que são versões alternativas para jóias lascadas como "Bring it to Jerome". O segundo disco começa ainda em 1959 e chega até 1968, com o tema "Bo Diddley 69". Não, apesar dele, não é sacanagem. A canção já era influenciada pelo soul da Motown e com batidas da Stax. Duas das tantas gravadoras que vivem dos ecos de Diddley, mas que esquecem que ele está vivo.


Faixas:
1.1. Bo Diddley - 2:43
1.2. I'm a Man - 2:55
1.3. You Don't Love Me (You Don't Care) - 2:50
1.4. Diddley Daddy  2:26
1.5. Pretty Thing - 2:48
1.6. Bring it to Jerome [alternate take] - 2:38
1.7. Bring it to Jerome - 2:27
1.8. Diddy Wah Diddy - 2:30
1.9. I'm Looking for a Woman - 2:30
1.10. Who Do You Love? - 2:27
1.11. Down Home Special - 3:10
1.12. Hey! Bo Diddley  2:09
1.13. Mona - 2:19
1.14. Say Boss Man - 2:29
1.15. Before You Accuse Me - 3:03
1.16. Say Man - 3:10
1.17. Hush Your Mouth - 3:02
1.18. The Clock Strikes Twelve - 2:57
1.19. Dearest Darling - 3:14
1.20. Crackin' Up - 2:03
1.21. Don't Let it Go (Hold on to What You Got) - 2:42
1.22. I'm Sorry - 2:24
1.23. Mumblin' Guitar - 2:47
1.24. The Story of Bo Diddley - 2:50

2.1. She's Alright - 4:01
2.2. Say Man - 3:01
2.3. Roadrunner - 2:46
2.4. Spend My Life with You - 2:34
2.5. Cadillac - 2:44
2.6. Signifying Blues - 4:25
2.7. Deed and Deed I Do - 2:19
2.8. You Know I Love You - 2:52
2.9. Look at My Baby - 2:27
2.10. Ride on Josephine - 2:59
2.11. Aztec - 2:25
2.12. Back Home - 2:26
2.13. Pills - 2:47
2.14. [Untitled Instrumental] - 2:20
2.15. I Can Tell - 4:24
2.16. You Can't Judge a Book By its Cover - 3:12
2.17. Who May Your Lover Be - 2:51
2.18. The Greatest Lover in the World - 2:39
2.19. 500% More Man - 2:52
2.20. Ooh Baby - 2:46
2.21. Bo Diddley 1969 - 2:35

Leia também: Howlin´ Wolf - The London Howlin´ Wolf  Sessions (1971)

27/05/2009

Primeiro DVD de Jorn Lande já disponível no Brasil